A partir de Mia Couto II

Acabo de assistir à segunda parte da entrevista concedida pelo escritor moçambicano Mia Couto ao programa Roda Viva, da TV Cultura, no dia 5 de novembro deste ano. Não posso deixar de perceber como as singularidades desta pessoa, (ia dizer desta personagem) fazem dele alguém muito notável.

Paradoxalmente, uma das coisas que mais me chamou a atenção da forma como Mia Couto fala de si mesmo, da sua participação politica nas lutas pela libertação de Moçambique no FRELIMO, da sua poesia, e do livro que veio apresentar no Brasil, é a sua simplicidade.

E digo paradoxalmente, porque enquanto ouvia as perguntas que lhe eram dirigidas pelos entrevistadores, e as respostas do escritor, notava que ele escapava constantemente, no meu modo de ver, das armadilhas da linguagem. Das tentativas ou riscos de nos enquadrarmos nas categorias dos outros para podermos ser aceitos, ou, simplesmente, para interagir.

O escritor moçambicano falava de si, da sua vida, dos seus pais portugueses emigrados para Moçambique, da sua família pequena e do quanto isto o levou a pertencer a uma família maior, a través da participação política, uma família do tamanho de um país.

Falou da complexidade cultural, do fato de existirem vários Moçambiques, e dos seus medos de que esta diversidade desapareça na medida em que o país deixe de se conduzir desde dentro, pelos seus próprios interesses nacionais, e passe a ser governado desde fora, pelo poder de algo que não nomeou, mas que entendi fosse o mercado, os grandes interesses econômicos.

Mas falava sem pena, sem sentimentalismo, sem pessimismo, apenas se pondo nas palavras. Isto é o que tem me maravilhado desta entrevista. Alguém famoso que não se perde na fama. E então me dei conta de como uma pessoa simples, alguém que não cede aos clichés nem aos lugares comuns, nem tampouco ao afã de aparecer ou de ganhar notoriedade ou admiração, evidencia a complexa rede de laços que oprimem no cotidiano ao ser humano.

No respirar, na pulsação de alguém que flui na vida, podemos nos ver também, fluindo, também livres das prisões do cotidiano, das rotulações, dos ideologismos, dos lugares comuns, dos distanciamentos que o sistema cria entre as pessoas, opondo os semelhantes e, ainda, opondo a pessoa a ela mesma.