A nova infâmia da “Folha”

A “Folha” já tentou envolver Dilma Rousseff com sequestro que não houve, publicando uma ficha falsa para a denegrir.

Como jornalista, aprendi que nada é impossível.

Então, depois de ler, estarrecido, o texto no qual o cientista político Cesar Benjamin acusava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de lhe haver relatado uma tentativa de estupro que teria cometido em 1980, resolvi esperar a evolução do caso antes de condenar inapelavelmente quem um dia já foi herói deste sofrido país.

Mas, a minha avaliação inicial foi das mais negativas. Dai haver afirmado claramente, em artigo escrito de batepronto, que o relato de Benjamin, da forma como foi apresentado, lhe valeria uma condenação como caluniador em qualquer tribunal.

Algo assim só seria aceitável com a corroboração da suposta vítima ou, pelo menos, das outras pessoas que ele afirmou estarem presente na conversa.

A edição de hoje (sábado, 28) da Folha de S. Paulo nada trouxe que verdadeiramente respaldasse a versão de Benjamin — o qual não se manifestou, sequer.

E as reações vieram em cascata:

  • o publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos, citado por Benjamin, afirmou que “o almoço a que se refere o artigo de fato ocorreu”, que “o publicitário americano mencionado se chamava Erick Ekwall”, e que não houve “qualquer menção sobre os temas tratados no artigo”;
  • o cineasta Sílvio Tendler, com melhor memória (a conversa aconteceu há 15 anos), diz ser o outro publicitário cujo nome Benjamin esqueceu e sugere que outorguem ao cientista político o “troféu de loira [burra] do ano” por não haver entendido “uma brincadeira, como outras 300” que o Lula fazia todos os dias;
  • ex-companheiros de cela de Lula no Dops, José Maria de Almeida (PSTU), José Cicote (PT) e Rubens Teodoro negaram a tentativa de estupro, tendo Almeida acrescentado que não havia ninguém do Movimento pela Emancipação do Proletariado na cela e Cicote se lembrado vagamente de que um sindicalista de São José dos Campos seria apelidado de “MEP”;
  • Armando Panichi Filho, um dois dois delegados do Dops escalados para vigiar Lula na prisão, disse nunca ter ouvido falar disso e não acreditar que tenha acontecido, mesmo porque, segundo ele, nem sequer havia “possibilidade de acontecer”;
  • o então diretor do Dops Romeu Tuma também desmentiu “qualquer agressão entre os presos”;
  • o Frei Chico, um dos irmãos do presidente Lula, lembrou que a cela do Dops era coletiva e que nunca Lula ficou sozinho, pois estava preso com os outros diretores do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (Rubão, Zé Cicote, Manoel Anísio e Djalma Bom);
  • Lula, de acordo com o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto de Carvalho, teria ficado triste e abatido, afirmando que isso era “uma loucura”;
  • o próprio Gilberto de Carvalho qualificou a acusação de “coisa de psicopata” e recriminou a Folha por tê-la publicado;
  • o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, afirmou que o artigo é “um lixo, um nojo, de quem escreveu e de quem publicou”;
  • o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, atribuiu “essa coisa nojenta” aos ressentimentos e mágoas de Benjamin, que algum tempo depois deixaria o PT, mas não por causa desse episódio;
  • o Frei Beto qualificou o artigo de “execrável” e disse que Lula, “ainda que não fosse presidente”, mereceria respeito.
Ou seja, a tentativa de estupro não é confirmada por ninguém. Talvez tenha estado preso mesmo um sindicalista alcunhado de MEP. E Lula parece haver feito uma piada de mau gosto, como tantas outras que marcam sua trajetória de falastrão contumaz.

O certo é que não havia sustentação para a Folha publicar, p. ex., uma reportagem a este respeito. Não se acusa um presidente de tentativa de estupro com tão pouco.

Concedeu, entretanto, uma página inteira para Benjamin colocar essa bobagem em circulação, municiando a propaganda direitista.

Jornalisticamente, sua atuação é indefensável, desprezível, manipuladora.

Desceu aos esgotos, repetindo o episódio em que usou outro bobo útil de esquerda para tentar envolver a ministra Dilma Rousseff com um plano para sequestrar Delfim Netto que nunca saiu do papel.

Cesar Benjamin deveria ter aprendido a lição.

Agora, ou vem a público provar sua acusação, ou estará definitivamente morto para a política.

Quanto à Folha, já morreu para o jornalismo faz tempo.

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Comentários

comentários

Interessante o seu artigo, Lungaretti. Louvável sua preocupação com nosso presidente. Só achei engraçado você usar a própria Folha para desmentir a Folha – sim, porque TODAS as reações que você elencou foram publicadas ontem, na Folha. Só posso concluir que deve ser um jornal muito democrático, por dar voz aos dois lados da história.
E aí, no afã de arrasar com Cesar Benjamin, cita o ex-guerrilheiro ex-global Franklin Martins, a assessoria chapa-branca do Lula (que declarou que NÃO vai entrar com processo de calúnia, o que muito me espanta; quem não deve não teme), e até – pasmei! – um delegado do DOPS e o Romeu Tuma!

Eu achei que vocês fossem de esquerda.

  • Acho correto o Lula não representar, contra o irresponsável Benjamin, por crime contra a honra. É que isto seria bom para a direitona. Teriam o mesmo repugnante assunto por muito tempo. O processo municiaria os fascistóides por todo 2010. E mais. Eles adorariam. E já vão dizendo, como esse henrique aí de cima: “quem não deve, não teme”. Deve ser sócio-diretor oculto da “democrática” Folha, que ele tanto defende. Por mim ela já teria morrido de inanição. Quanto a esse Benjamin, pelo que me consta, dedo-duro de companheiros de luta, encontrou o lugar que merece. Ao lado da Folha. E ele pagará, de alguma forma, se ainda lhe restar alguma dignidade, consciência e auto-crítica, pelo absurdo que cometeu. E eu me pergunto: o que recebeu em troca? Quando dedo-durou foi a liberdade. E agora?

  • A Folha de São Paulo vem perdendo leitoras e leitores aceleradamente. Não há muito espaço no Brasil para este tipo de veículos da ultradiretia radical que bancou e defende o golpe de 1964. Veja espero, seguirá pela mesma via, em direção ao desaparecimento. E já vão tarde.

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