A NOUVELLE VAGUE EM DOIS DOCUMENTÁRIOS E NUM LIVRO: ALGUMAS NOTAS

Neste ano de 2012 o SESC fará algumas atividades em várias cidades brasileiras sobre a Nouvelle Vague intitulada: “Mostra 1959, o ano mágico do cinema francês”. Em Aracaju haverá uma mostra com alguns dos principais filmes da Nouvelle Vague e um curso sobre o Existencialismo e o cinema de Godard em agosto do corrente ano. Durante o citado curso haverá a exibição de dois importantes documentários sobre a geração Nouvelle Vague: “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague” de Emmanuel Laurent, 2010 e “Godard: o amor e a poesia” de Luc Laguier, 2007. Duas obras obrigatórias para os in teressados em história do cinema francês. Porém, de fundamental importância para os estudiosos do cinema moderno francês e das temáticas do existencialismo sartreano. Ainda podemos destacar como marcante para os estudiosos de cinema o lançamento do livro de Michel Marie este ano no Brasil: “A Nouvelle Vague e Godard”.

Percebemos algo entre a ousadia e o espírito de época que um roteiro como este do Francês Antoine Baecque (escritor de uma monumental biografia de Jean-Luc Godard), transformado em filme documental por Emmanuel Laurent, nos mostre a Nouvelle Vague cinematográfica como uma privilegiada encenação familiar. Em Godard, Truffault e a Nouvelle Vague, é como se o movimentos de mais de 50 anos atrás, exercido magistralmente pelas excelências artísticas de Godard, Truffaut, Chabrol, Rivete, Rohmer Agnès Varda e outros, pudessem ser resumido ao ímpeto criador de apenas dois.

Mas, obviamente, a Nouvelle Vague foi mais que esses dois artistas geniais do titulo, e talvez muito ainda tenha a agradecer ao diretor da cinemateca francesa, Henri Langlois, que fala breve e espetacularmente no filme. Sua saída forçada do posto, exercido durante anos quase como uma vocação, teria influenciado em muito as atividades gerais do famoso “Maio de 68” em Paris e se espalhado por vários lugares do mundo. Ano mais radical do ponto de vista político para o cinema francês. Enquanto não se faz um documentário especifico sobre a vida e a paixão pelo cinema de Henri Langlois, este parece ter o tamanho suficiente, para não dizer que é maravilhoso em termos de imagem de arquivo, entrevistas, polêmicas, cenas memoráveis, paixões amorosas e políticas e afirmação mítica dos anos de magia do cinema francês e do surgimento de uma escola cinematográfica definitiva para os amantes e estudiosos da sétima arte.

Emmanuel de Laurent trabalha em respeito às ideias de seu roteirista, mas é como se pendesse, na edição das sequencias, para Truffaut e seu classicismo, a capacidade que tinha o diretor de exercer o drama essencial ao cinema, tributário de Ingamar Bergman, o primeiro a fazer os atores olharem diretamente para a câmara. E o Godard que ali surge, até em meio às filmagens, bailando entre os atores incessantemente, conduzindo-lhes a direção do rosto, revolucionara a arte a ponto de entendê-la como coisa absolutamente nova, ou simplesmente outra coisa. O filme coleciona empolgantes curtos e documentários quase desconhecidos do público em geral. Para cada descoberta dos dois cineastas, Laurent mostra dialeticamente suas inspirações. Os primeiros curtas nos quais todos exercitaram suas ideias estão lá, invariavelmente sufocando casais ingênuos, ansiosos por viver a vida.

Em um desses filmes Godard ao lado de Anna Karina, representando, para ela, uma espécie deselegante de Buster Keaton. A entrevista feita por ele com o diretor Fritz Lang é de emocionar. No trecho exibido, o dire tor francês, língua presa, discorre reverencialmente sobre seu mestre, mas ele o interrompe, dizendo que o cinema é arte de jovens, e Godard, de maneira rara, quase não tem o que lhe responder. Mais emoção há quando Léaud aparece. Ele está junto a Truffaut, por exemplo, na croisette de Cannes, durante pré-estreia de Os incompreendidos, no espetáculo teste para a obra e na entrevista dada depois de seu lançamento, dizendo que, de espectador de todo e qualquer filme, aprendeu com aquele diretor a ver, no cinema, também seus erros. Um documentário marcante onde se aprende muito de história de cinema e, em particular, da história da Nouvelle Vague na forma de trabalhar de Godard e Truffaut.

O documentário Godard: o amor e a poesia de Luc Laguier não teve nenhuma repercussão no Brasil entre estudiosos de cinema ou curiosos. Estranho para nós. Trata-se de um trabalho extraordinário sobre um momento da vida profissional e particular de Godard e num momento decisivo para o cinema moderno francês. O filme começa com a seguinte frase emblemática: “É a história de um período especial na vida de um cineasta especial”. Trata-se de destacar um momento na vida de Jean-Luc Godard e de sua relação com Anna Karina. O diretor do documentário fez uma pesquisa e descobriu a importância determinante nos filmes de Godard que vão de 1960 a 1965, onde a presença de Anna Karina aparece como “o rosto feminino da Nouvell e Vague” e o amor inspirador de Godard. Portanto, um filme que trata de “amor e poesia num cinema particular” ou a “história de mulher a filmar e amar”. Vemos na tela pequenas cenas de filmes como: Pequeno soldado, Uma mulher é uma mulher, Viver a vida, Tempo de guerra, O desprezo, Band à part, Alphaville e Pierrot le fou.

Em todos esses filmes uma constante: o rosto e atuação de Anna Karina e aos poucos o diretor vai nos conduzindo a perceber como vai acontecendo o jogo de sedução entre Godard e Karina. Há uma conquista em processo nos filme e fora deles entre o futuro casal. O interesse não à © de fofoca ao estilo de revistas tolas, mas o de um verdadeiro interesse em articular a inspiração de Godard nos primeiros momentos da Nouvelle Vague e os primeiros passos de uma relação amorosa que mais parece uma obra cinematográfica. Como se a vida repetisse a arte. O amor das telas vai se realizando na vida dentro de um contexto de profundas mudanças na cultura francesa dos anos 60. Nós ficamos atentos a cada passo da relação dos dois e vamos ao mesmo tempo percebendo nos acontecimentos destacados uma espécie de preparação para o “maio de 68”.

O documentário não faz do amor uma futilidade para curiosos, mas faz do sentimento amoroso uma forma de projeto de vida, portanto, político, como era de esperar naqueles utópicos e libertários anos 60 para uma geração especial de jovens. Temos como comprovação da tese do diretor, alguns depoimentos de pessoas que trabalharam com Godard em todos os filmes que aparece o rosto em atuação de Anna Karina. Sã o assistentes de direção, fotógrafos, críticos e amigos que comprovam o nascimento e a intensidade criativa da relação entre Godard e Karina. O filme nos deixa o sentimento de que sem Anna Karina a Nouvelle Vague de Godard teria outro rumo bem diferente do que conhecemos.

Óbvio que jamais saberemos que rumo teria sido, mas com certeza seria algo completamente diferente do que foi. Logo, Karina foi central para esse “primeiro Godard”. Sabemos através do filme que Karina chegou aos 17 anos a Paris, tornou-se modelo e foi num anuncio de sabonete, coberta de espuma numa banheira, que Godard a viu e a convidou para seu primeiro filme, Acossado. O papel era pequeno, mas previa um nu. A garota disse um não para no ano seguinte se tornar protagonista do diretor no magnifico O pequeno soldado, filme censurado e só lançado em 1964 por razões políticas. A relação com Godard durou outros cinco longas-metragens e sete anos de convívio. Por fim, percebemos na condução do documentário que o diretor defende uma “tese” mais ampla do que a relação Godard-Karina, a saber, de que a Nouvelle Vague “criou a mulher moderna” e que Karina é o seu “rosto simbólico”. Segundo o crítico de cinema Orlando Margarido, Karina era uma espécie de “garota do bando” e fez a “mulher mais moderna da Nouvelle Vague”. O belo e curto documentário Godard: o amor e a poesia prova isto. O documentário tem um tom melancólico no seu final, acredito que tentando nos passar a imagem que deve ter sido assim também o fim da relação Godard-Karina Pirrot le fou pode ser a prova cabal. Foi o último filme de Godard com Anna Karina.

Fechando este pequeno ciclo, merece destaque o livro A Nouvelle Vague Godard de Michel Marie. No Brasil, sempre que se lança algum escrito sobre a obra cinematográfica de Godard é algo a ser destacado sempre. Primeiro, porque não temos muitos livros sobre o cinema de Godard. Um paradoxo: o diretor francês “cult por natureza”, libertário em tudo que faz e altamente citado, é o menos comentado no Brasil. São pequenos artigos e três ou quatro livros mais profundos vindos de alguma pesquisa acadêmica. Muito pouco para a importância de Godard no universo cinematográfico. Sendo assim, o livro de Michel Marie vem em boa hora. O livro é bem dividido e duas grandes parte. Na primeira temos um histórico da Nouvelle Vague. Na segunda temos uma análise detalhada de Acossado, “filme manifesto” do movimento. Uma análise nunca vista em língua portuguesa e só por isto definitivamente justificada sua tradução para nossa língua.

Marie vai de “um slogan jornalístico” a um “conceito crítico” para nos mostrar como é difícil situar a Nouvelle Vague enquanto movimento cinematográfico unificado. Mais parece uma “colcha de retalho” do que um movimento com alguma unidade. Como parecer não é ser, o autor nos conduz de maneira erudita a conclusão de que houve o movimento, que seu nome foi Nouvelle Vague acertadamente e que temos uma estética e uma técnica para nos provar isto. Porém, “Os filmes da Nouvelle Vague não teriam alcançado tanto eco na crítica e no público se não tivessem abordado temas novos nem falado da sociedade francesa de modo diferente do cinema anterior” (p. 85). Aqui estaria a grande importância do movimen to e de seu sucesso de crítica e público. O autor nos facilita em muito ao contextualizar as principais transformações que vivia a França no pós-guerra e o impacto da filosofia existencialista de Sartre na cultura juvenil.

Do ponto de vista cinematográfico o melhor fica para a segunda parte do livro. Aqui o autor faz uma análise detalhada do filme Acossado. Parte da ideia de “filme manifesto”. No roteiro original, na estrutura, na ação, nos temas e nos personagens, o primeiro longa de Godard é um filme que tem a urgência de dizer algo que estava estancado na cultura cinematográfica francesa. O filme nos remete de imediato a uma ideia de cinema moderno, nos leva as ruas como elas são, nos apresenta uma mulher, espécie de promessa do futuro para a causa feminista, um protagonista anárquico e história trágica sem o peso psicológico de toda tragédia. Em fim, um filme marcante. Um filme que nos transporta semp r e para um “frescor juvenil e rebelde” que sempre terá lugar no coração e na mente de sonhadores e libertários. Um filme que nos coloca com o “pé na estrada” (a lembrança de Kerouac aqui tem sua razão de ser). O livro de Marie analisa até o primeiro cartaz feito para a divulgação do filme. Uma leitura obrigatória.

O autor é docente no Departamento de Filosofia – UFS