A mentira como combustível de poder, nas sociedades de classes

O lugar dos mecanismos ideológicos nas relações societais

A mentira, como recurso de acesso, manutenção e ampliação de poder, acompanha a trajetória humana, desde priscas eras. O ser humano é o único animal a dela usar e abusar, como refinada estratégia de poder. Outros animais recorrem à finta, a subterfúgios ou camuflagem, como estratégia de sobrevivência, mas nunca na escala ou com a sofisticação empregadas pelos humanos. Passar-se pelo que não se é, aparentar-se predicado que não se tem – eis a que leva os humanos a usarem e abusarem da mentira, sob suas mais diversas formas e manifestações. Retenho vivo o alerta, a este respeito, feito por um ex-presidente, em uma de suas declarações. Dizia mais ou menos assim: o problema da mentira é que ela, desde a primeira expressa, acaba nos fazendo reféns, para toda a vida. Ao dizermos uma mentira, pela primeira vez, e ao esbarrarmos em cobranças, sentimos “necessidade” de inventar uma segunda, para justificarmos a primeira. Depois, uma terceira, uma quarta, e por aí segue… se no dia-a-dia de nossas relações, já constatamos o tamanho dos estragos produzidos pela cultura da mentira, o quê dizer em relação a toda uma complexa e vasta teia de relações societais? Entre os humanos e no âmbito das relações macro-sociais, este processo alcança seu ápice nas sociedades de classes. A classe dominante só pode chegar ao poder, valendo-se de um sistema de mentiras, combinadas com o emprego da violência. E não apenas, para aceder ao poder: também, e até mais, para mantê-lo e ampliá-lo. É aí que tem lugar decisivo a armação de todo um sistema ideológico, cujo objetivo central é o de alimentar constantemente o conjunto da sociedade com toda sorte de mentira, nas mais diversas esferas da realidade. As linhas que seguem, buscam ressoar, brevemente, sobre tais mecanismos de dominação.

Malgrado a mentira esteja associada à condição humana, como marca de seu inacabamento, a mentira alcança elevado grau de sofisticação nas sociedades de classes, em que a classe dominante sente-se “obrigada” a recorrer sistematicamente à mentira, primeiro, para chegar ao poder; em seguida, para mantê-lo, a todo custo, e, mais ainda, para ampliá-lo, ainda que tenha que combinar a mentira com outros recursos tais como a violência institucionalizada. E tudo fazendo, “em nome do povo, em nome da nação…”.

Cuidamos, em seguida, de ilustrar didaticamente alguns casos de nossa atualidade, recorrendo a exemplos em várias esferas da realidade, ao mesmo tempo em que lembramos que sua eficácia maior reside na articulação, na combinação de tal recurso nas diversas esferas, mas do que em qualquer delas, tomadas em separado.

Na esfera da produção, por exemplo, o desafio da classe dominante é o de passar a impressão para o conjunto dos membros de determinada sociedade, de que o atendimento devido as várias necessidades e aspirações daquela sociedade é o seu real objetivo, enquanto, por sua vez, esta classe dominante foca suas estratégias de ação na busca sistemática de manter e ampliar privilégios de classe, à custa da sonegação e da retirada de direitos da grande maioria. Nisto são mestras as grandes empresas transnacionais, que operam nos 4 cantos do Planeta, sempre à cata de manter e aumentar seu processo de acumulação, à custa e em detrimento dos direitos sociais mais elementares. Ao atuarem nos diversos setores econômicos – no campo das finanças, na produção de bens estratégicos, de bens duráveis, de bens de consumo; no setor agrário, desde a exploração extrativista (de minerais, de vegetais, de animais), nos esquemas estruturantes da agricultura e da pecuária, no setor do comércio e dos serviços; na esfera cultural e até religiosa – as transnacionais e as grandes empresas nacionais não hesitam em recorrer sistematicamente ao Estado, como suporte fundamental, na implementação de suas respectivas políticas econômicas. Sempre combinando poderosos mecanismos ideológicos e recorrendo, sempre que “necessário”, a violência, tratam de perseguir e alcançar seus interesses acumulativos, não importando a forma como os obtêm. Para elas, embora digam o contrário, o Estado lhes é essencial, ainda que chamando-o de “mínimo”, que na verdade, por vezes, corresponde ao máximo, à medida que se utilizam das mais distintas instâncias do Estado, apenas no que exclusivamente lhes interessa.

Para tanto, recorrem a múltiplos mecanismos ideológicos, dentre os quais o marketing e a propaganda se revelam exemplos bem ilustrativos. Por meio da mídia comercial e das redes sociais, cuidam de “enfeitar o pavão” ou de “dourar a pílula”. Basta que nos atenhamos às fortunas que são gastas diariamente, no uso de propagandas enganosas, que, de tanto circularem aos olhos e ouvidos de uma enorme massa acrítica, acabam convertendo mentiras em verdades, males em bens, doenças vendidas como saúde, etc, etc, etc.

No plano da Política os mecanismos ideológicos, usados e abusados, revelam-se igualmente eficazes. A recente campanha eleitoral constitui apenas a ponta deste enorme “Iceberg”. As famigeradas “Fake News” constituem apenas uma pequena mostra. No Brasil e Alhures, é a classe dominante quem dita as regras, estando ou não seus protagonistas pessoalmente à frente deste processo. Não raro, grandes financistas, banqueiros, controladores de transnacionais, etc, nem precisam dar-se ao trabalho de se candidatarem: contam de sobra com seus representantes, ainda que a enorme maioria deles se eleja em nome do povo…

Na esfera cultural, a esperteza vulpina do capitalismo tem sido igualmente ou ainda mais exitosa, à medida que, graças a um crescente contingente de massas mantidas acriticamente, consegue iludir ainda mais facilmente a multidões destituídas de um processo de formação contínua que, de massa, as torne povo consciente. Ainda nesta esfera cultural, convém realçar os efeitos deletérios provocados pelo fundamentalismo religioso, a medida que suas lideranças de referência manipulam abertamente e “em nome de Deus” controlam as consciências de seus fiéis.

Uma perspectiva de superação deste trágico quadro, tem lugar fundamental o protagonismo daquelas organizações sociais de base, comprometidas com a retomada, em novo estilo, dos trabalhos de base, na e com a base, seja no campo organizativa, seja no campo formativo, seja no campo das ações mais explicitas.

João Pessoa, 19 de novembro de 2018.

Alder Júlio Ferreira Calado, sociólogo e educador popular.

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