A lista

Um golpe de estado destituiu a presidenta da República, Dilma Rousseff, em 2016. Uma vereadora, Marielle Franco, foi assassinada. O ex-presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, cumpre prisão politica (sem delito, sem provas). O que mais vem por aí?

É perigoso que nos acostumemos a aceitar o inaceitável. Uma olhada para a história mostra o preço enorme que se paga pela omissão diante do avanço de crimes contra a humanidade e contra o estado de direito. A omissão tem o valor de uma aquiescência. A omissão tem o valor de uma ação positiva, sem o ser.

É a tal política do avestruz. Faço de conta que não é comigo. Não vai acontecer comigo. Eu não sou petista, não sou socialista, não sou negra, lésbica, nem lutadora pelos direitos humanos.

Mas se olharmos para o perfil de Lula, podemos ver que o que está sendo punido na sua pessoa, é ainda mais vasto, e pode ser que nos vejamos incluídos naquilo que a atual ofensiva vem punindo duramente.

Pode ser que eu me veja incluído na categoria dos que trabalham pela inclusão social, pela eliminação ou redução das diferenças de classes, pela tolerância religiosa, pela coexistência com as diferenças de etnia e cultura.

Se eu me vejo incluído neste leque do que vem sendo punido, pode ser que eu perceba que preciso despertar. Preciso agir. Preciso deixar de pensar que não é comigo. Não estou fazendo outra coisa do que tentar refletir a partir da minha história de vida.

Não se trata de uma briga de facções, embora muitas vezes pareça ser. Não é tampouco uma disputa entre tendências ou ideologias, embora também pareça ser. Acredito que o que está em jogo, é a possibilidade de que o Brasil continue sendo um lugar habitável, ou não.

Isto não depende apenas de partidos, do estado, das instituições. Depende também de mim, de você, de cada pessoa. O tecido é infinito. Não se reduz aos grandes figurões da política ou, como já estamos nos acostumando (o que é extremamente perigoso) às figuras repetidas da delinquência golpista no poder.

Volto a dizer: é muito perigoso que nos acostumemos com a continuidade do mal. É como que uma porta aberta a uma diluição das distinções que nos permitem separar o que é bom do que não é, e não pode nem deve ser aceito sob nenhuma condição, em nenhuma circunstância.

Temos que lembrar que as ditaduras do passado, e o Brasil pertence a essa lista negra, em boa medida foram avaladas por uma massa enorme de cidadãos e cidadãs que concordavam com que a violência devia ser usada pelos golpistas, contra o que estes mesmos golpistas tinham definido como inimigos. E aqui vem o começo destas reflexões. Você se sente incluído nessa lista?

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