A libertação na Terapia Comunitária

Desde há já bastante tempo, venho trilhando os caminhos da Terapia Comunitária Integrativa criada por Adalberto de Paula Barreto, o teólogo e médico psiquiatra cearense. E muitas vezes, durante todos estes anos, tenho me voltado para esta espécie de manancial de auto-descoberta e de auto-conhecimento, em momentos em que a vida me parece demasiado confusa ou difícil, em que a co-existência social me parece estar me impondo fardos demasiadamente pesados.

Este ir ao manancial da TCI, tem-se revelado como uma espécie de apoio constante, de suporte forte e firme que me ajuda a superar as crises de todo tipo que se encontram nesta aventura chamada vida. A TCI não te dá respostas prontas, mas sim te propõe perguntas, que vão desenredando as armadilhas internas, os equivocos a respeito de ti mesmo ou de ti mesma.

Essas perguntas vão arejando o teu interior, respiras melhor, confias mais e ti e nos outros, te vês parte de um tecido (a teia) que te sustenta e te conecta. Na TCI não se ataca a ninguém, não se combatem estruturas ou sistemas, ideologias ou doutrinas, nem se supõe que mudar os que mandam poderia ser a solução para os males do mundo. Não há algo tão vago ou tão vasto quanto os males do mundo.

O que há –e aqui todos e todas estamos incluídos- é um existir dilemático, que nos confronta e nos desafia constantemente, demandando uma criatividade contínua. E quais são estas perguntas da TCI a que nos referimos aqui? Uma delas, a que hoje me toca especialmente: Você é quem você é, ou é o que os outros querem que você seja?

Esta pergunta se repete, para que você possa de fato escutá-la. Você é quem você é, ou quem os outros esperam que você seja? Você não precisa pensar em uma resposta, ou, de fato responder. Basta acolher a pergunta. Você é quem você é, ou quem os outros esperam que você seja?

Há outras perguntas como esta, que vão abrindo espaço dentro da gente: Você somente tem sofrido, ou tem crescido com os seus sofrimentos? E se repete mais vezes: Você somente tem sofrido, ou tem crescido com os seus sofrimentos? Quando você de fato escuta estas perguntas, esta última em particular, não vê respostas feitas, nem suas nem de mais ninguém.

Ou vem, sim, mas dentre elas, vai surgindo como um espaço, um espaço libertador. Você respira e se abre um espaço dentro de você. Então você vai vendo que não somente sofre ou sofreu, mas cresceu. Mas você não precisa dar respostas a si mesmo ou aos outros em volta. Apenas vai sentindo esse espaço que se abre em você, e respira, vai se abrindo um espaço. Então a dor não mais lhe oprime.

Você vai se abrindo às lições que a dor foi lhe ensinando, mas não de maneira argumental, lógica, explicativa, racional, intelectual. Um espaço verdadeiro se abre em você. Não é um espaço lógico, explicativo. É um espaço real. Quando você está nestas dinâmicas grupais, nos Cuidando do Cuidador ou nas vivências nos encontros da TCI, este espaço interior vai lhe soltando, vai se abrindo uma espécie da brecha, uma possiblidade real de libertação.

Repito: não é um espaço lógico, argumentativo, racional. É um espaço real. Claro que você irá dando algum conteúdo lógico a este crescimento que a dor lhe trouxe ou lhe traz. É o espaço o que conta. Você já não está mais preso ou presa a uma dor insuportável, Uma dor que só você sente.

Obviamente, você terá que ir fazendo uma recuperação de memória, e uma observação atenta sobre si mesma ou si mesmo, para saber cómo é que a dor lhe fez ou lhe faz crescer. Irá criando imagens, irá recuperando fatos, atitudes. Como foi que você conseguiu sobreviver naquelas circunstâncias terríveis.

Foi a oração, o apoio de um parente ou amigo, ou de muitas pessoas amigas em volta, ou ainda de pessoas desconhecidas que lhe apoiaram. Você irá vendo cómo é que as dores lhe ajudaram a gerar uma força incomensurável dentro de si.

E isto não ocorreu somente com você, ocorreu com pessoas que agora, na roda da TCI, você aprendeu a incorporar à sua história de vida. Pessoas nas quais você se vê refletido ou refletida. A sua história e as histórias das pessoas em volta, tem muito em comum. Não são iguais mas se parecem no essencial. São histórias de superação.

Share

Comentários

comentários

“Você é quem você é, ou quem os outros esperam que você seja?”
Essa talvez seja uma das perguntas mais emblemáticas para identificação das transformações/ ressignificações que se fazem necessárias na nossa vida para que caminhemos no sentido da amplitude do ser. A TCI e as vivências terapêuticas do “Cuidador” reacendem nossa memória emocional, que se inscreve não só nos recantos da mente, mas na própria memória corporal/ biológica e que leva a outras perguntas – “O que é meu corpo, que essa menória perdida está querendo me dizer? “Porque faço o que faço e, como faço? que conduzem a novas descobertas:”O que faço hoje, se inscreve na minha história”; “O que sou hoje, devo a você minha criança” e nos leva ao encontro fundamental com nós mesmas/os.

  • Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *