A imprensa-partido é o maior legado do Brasil pós-golpe

Se ainda restavam dúvidas sobre a imparcialidade da grande imprensa brasileira, ela acabou para seu mais crédulo adorador nos episódios que culminaram no golpe de Estado contra a eleita Dilma Rousseff. O tempo todo se tratou de uma postura difícil de se jogar para debaixo do tapete da “imparcialidade”, como demonstram incontáveis exemplos expostos nas redes sociais.

A miséria da imprensa é essa: quando interesses estão em jogo, é torcida mesmo. É partido político. Nem esconder tentam.

A imprensa brasileira está morta e, para nosso azar, ainda não há contraponto forte o suficiente para resgatar o jornalismo para além da imprensa partidarizada.

Eu, que há tantos anos estudo a imprensa, incluindo a oitocentista, acho honestamente triste que atualmente a imprensa no Brasil não seja mais fonte minimamente confiável – e, sejamos honestos, 90% dos jornais brasileiros dos últimos dois séculos, sozinhos, também não o eram, mas em seu conjunto formavam um cenário político mais realista.

Se informar hoje é buscar análises estrangeiras e líderes políticos honestos em seus argumentos (não necessariamente institucionalizados). E por que eles estão substituindo a imprensa?

Porque eles mantêm o que a imprensa sempre teve ao longo de muitos anos, historicamente: algum distanciamento e lado bem definido, respectivamente.

Por estar distante do poder, o líder político opositor (que comumente era dono de um pequeno ou médio jornal) nada tem a perder e, por isso, ganha ao denunciar friamente o jogo sujo. Mesmo que alguns, convidados a se sujar, aceitem de bom grado.

O mesmo se dá com o sujeito distante, como os viajantes do século XIX. Mergulhados subitamente numa realidade dura e nova, reagem sem filtros e acabam por emprestar o olhar ainda infantil (no bom sentido) aos observadores viciados.

A imprensa-partido, por estes motivos, não consegue mais enxergar o ridículo estado das coisas da qual faz parte.

Registra-se, ainda, que por falta de vontade política, o governo trabalhista não quis mudar esta situação. Mesmo em momentos em que dependia apenas do Executivo alterar o estado das coisas, seus líderes não o fizeram, acreditando que o diálogo entre classe trabalhadora e a elite ainda era possível e tinha, na grande mídia, espaço privilegiado. Um erro de análise que saiu caro.

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Uma coincidência: no dia em que se formalizará o golpe de Estado contra Dilma, 11 de maio, a Ação Integralista Brasileira promovia um levante contra Vargas e seu Estado Novo, em 1938.

A AIB, para quem não lembra, foi uma organização política de âmbito nacional inspirada no fascismo italiano, fundada por Plínio Salgado em 1932. Salgado esteve pessoalmente na Itália, em 1930, tendo conhecido e entrevistado Benito Mussolini.

Os integralistas apoiaram o golpe de Vargas (novembro de 1937) mas, como não foram agraciados com o espaço político que achavam adequado, decidiram levar à frente os levantes de 1938.