A honestidade não devia ser virtude

Por Chico Alencar (*)

No universo da política, que tanto interfere em nossa vida cotidiana, as palavras andam perdendo o significado. Falsidades, mentiras e demagogia habitam o “pântano enganoso das bocas” de muitos dos que foram eleitos para representar a população: vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente da República.

Devíamos andar com um aparelhinho que, a qualquer afirmação nebulosa ou pouco compreensível, acionasse uma gravação pedindo explicações: “mas o que Vossa Excelência quer mesmo dizer com isso?” A solicitação de esclarecimentos poderia se estender a autoridades do Judiciário que vendem sentenças e enriquecem ilicitamente…

Aprendo em Brasília que, quando alguns falam em “bem comum”, estão é defendendo os seus bens particulares; quando proclamam a defesa do interesse público, o fazem para garantir interesses privados; quando bradam por Justiça só querem a de classe, que protege os mais ricos com o manto da impunidade. Até Deus entra nessa dança de mau gosto das “quadrilhas” nada juninas, tendo seu santo nome pronunciado em vão para acobertar as mais deslavadas mentiras…

Os politiqueiros e ladrões do dinheiro público, que “entram na política” (bancados por altos financiamentos de campanha) para conquistar prestígio, poder, aumento irregular de patrimônio e reprodução de seus próprios mandatos, têm um sonho dourado: que cada vez mais gente se desinteresse por suas atividades. Assim eles podem reinar sozinhos, sem incômodos. Uma máxima dos tempos atuais é… despolitizar a política, torná-la um assunto de entendidos, ou apenas de entediados, distantes das coisas boas da vida.

Esta deseducação tem funcionado: na democracia brasileira, cujo direito de voto em todas as instâncias foi duramente conquistado por gerações de cidadãos dedicados, o desinteresse e o desencanto são crescentes. Virou rotina o “deixa pra lá que nada adianta”. Essa alienação induzida nos levará à ruína!

Felizmente há muitas pessoas de bem no Brasil, que têm valores que o metal sonante não compra, que não se vendem por trinta dinheiros. Mesmo no Distrito Federal que fede, mesmo no Parlamento lamentável, há senadores e deputados que resistem! Pedro Simon propõe que saiamos pelo Brasil pregando a elementar “moralidade pública”, Jefferson Peres diz que conta com o “sangue novo” dos mais jovens para reanimá-lo. Muitos já perceberam que sem sociedade mobilizada, sem pressão das praças para os palácios, vamos ficar, de braços cruzados, esperando o escândalo da semana seguinte, ainda maior que o da semana anterior.

Dá para fazer uma grande unidade em torno do elementar, do que não devia, a rigor, sequer ser considerado meritório ou elogiável: respeito e transparência no trato dos negócios públicos. Honestidade – que devia também vigorar nos empreendimentos particulares. Esta é a plataforma mínima para que haja, num jogo limpo, a real disputa de projetos de sociedade, de modos e meios de reduzir a desigualdade e aumentar a participação cidadã no Brasil.

Moralidade pública é como ajeitar uma terrinha para, carpida das ervas daninhas, cultivar nela uma horta. Ou arrumar a mesa e colocar talheres e pratos para saborear uma comidinha simples mas decente. Esta pré-paração é urgente. E depende também de você, de cada um de nós. Aguardo sua palavra carregada de verdade. Prometo repercuti-la lá em Brasília. Sempre ajuda, pois, como li certa vez num muro de cemitério na capital paulista, “reclamando junto melhora!”.

(*) Chico Alencar é deputado federal e candidato à Prefeitura do Rio pelo PSOL (50). Na foto, à esquerda junto a eleitora na Cinelândia dia 07/07/2008. Conheça as propostas de Chico em www.chico50.com.br

_______________________________________
www.consciencia.net

Share

Comentários

comentários

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

Seções: Opinião.