A herança da ditadura cívico-militar argentina

Há umas lembranças desagradabilíssimas que voltam no mês de março. Em março de 1976, o exército argentino deu o golpe militar contra o governo de Isabel Perón. Na verdade, um golpe contra a cidadania argentina, contra a parte sã da cidadania. Houve a outra, a que apoiou o golpe, mas dessa não se há de falar agora. Os militares argentinos alegaram terem vindo salvar a Argentina da subversão comunista internacional. Nada mais falso. Vieram foi massacrar a cidadania e aplainar o terreno para a instalação do mais selvagem capitalismo. Para isso, cometeram todo tipo de atrocidades.

Sequestraram pessoas, torturaram cruelmente, jogaram pessoas vivas e drogadas no Rio da Prata (os voos da morte), desapareceram com as pessoas sequestradas, negaram todo tipo de defesa jurídica aos presos, e nenhuma garantia ao restante da cidadania, que ficou refém dos assassinos durante anos a fio. Censura total de imprensa, centros de tortura e campos de extermínio em várias províncias. O país estava entregue a uma cambada de assassinos impiedosos. Pagos pelas grandes empresas e bancos, treinados pelos Estados Unidos através do seu famigerado Departamento de Estado, com as bênçãos da Igreja Católica Apostólica Romana. Durante o período de 1976 a 1983, a Argentina amargou a mais cruel das ditaduras de toda a sua história. “Todos tivemos que nos exilar”, disse, muitos anos depois, o escritor Eduardo Mugnagna.

36 anos depois, a Argentina ainda espera justiça. Não foram ainda julgados nem punidos todos os autores materiais e intelectuais do genocídio. Ficou para os sobreviventes a necessária tarefa de processar o ocorrido, tentar manter a esperança na justiça, apesar do duro golpe que a impunidade ainda existente representa e, sobretudo, tentar manter a integridade mental diante das sequelas que o terrorismo de Estado deixou. É necessário apelar para toda a força interior e para toda a reserva moral pessoal e social, para poder processar, dia a dia, a herança que a ditadura cívico-militar deixou para a parte sã da cidadania argentina.