A força revolucionária dos gestos e iniciativas moleculares

“Quae stulta sunt mundi, elegit Deus ut confundant sapientes.” (1 Cor 1, 27ª)

(As coisas consideradas tolas, aos olhos do mundo, Deus escolheu para confundir os que se consideram sábios)

Em textos precedentes, temos insistido na necessidade e urgência de ousarmos passos em direção a um novo modo de produção, a um novo modo de consumo e a um novo modo de gestão societal, ao mesmo tempo em que temos tido o cuidado de insistir na adequada e orgânica articulação entre essas três dimensões-alvo. Nas linhas que seguem cuidamos de centrar  atenção mais diretamente sobre a dimensão do consumo.

Parte considerável de nossa ansiedade ou angustia, prende-se à nossa tendência a superestimar o alcance de “grandes” eventos, de acontecimentos espalhafatosos como sendo os que realmente fazem a diferença. Ledo engano! Sem ignorar ou subestimar o alcance de grandes acontecimentos, corremos o grave risco de subestimar fatos, gestos, iniciativas, acontecimentos que têm lugar em espaços pouco conhecidos, protagonizados por gente simples, em seu dia-a-dia, em mais uma prova de que o grande equívoco de nossa parte – o que sucede tão frequentemente – é o de estabelecermos um muro entre o “macro” e o “micro”, quando, na realidade, um está contido no outro, de algum modo. Em vez de uma avaliação disjuntiva  (“ou isto ou aquilo”), acabam ganhando a parada aqueles e aquelas que preferem o exercício da interconexão (salvo casos de fato antagônicos). As linhas que seguem, têm o propósito de trazer à tona a potencialidade revolucionária dos “pequenos” gestos e iniciativas praticados no anonimato do dia-a-dia, por gente simples, vivendo em lugares pouco conhecidos e realizando coisas maravilhosas.

Influenciados pelo domínio das aparências – daí o sucesso extraordinário da publicidade e da propaganda comerciais -, acabamos perdendo de contemplar a força revolucionária de “pequenos” gestos, de iniciativas moleculares portadoras de sementes de inovação, em todos os planos da realidade. Quantas vezes, graças ao barulho da propaganda oficial, somos induzidos a alimentar grandes expectativas em grandes eventos, do tipo Encontro do G-8 e similares, enquanto que bem perto de nós, estão se dando tantas coisas de grande potencial transformador, seja em relação à Mãe-Terra, seja em relação a sinais extraordinários de uma sociabilidade alternativa à barbárie capitalista!

Nesse sentido, os exemplos ilustrativos que aqui compartilhamos correspondem a apenas um pequeno aperitivo ao que cada leitor, cada leitora dessas linhas teria a acrescentar ainda com maior propriedade. Vejamos alguns exemplos.

No campo das iniciativas comunitárias ou de organizações de base de nossa sociedade civil, despontam, com efeito, impactantes iniciativas, a exemplo daquelas coletivamente compartilhadas recentemente, num dos encontros de associações ligadas à ASA.

Quanto menos afeitos  observação do que se passa nas “correntezas subterrâneas”, mais vulneráveis nos tornamos aos efeitos deletérios da publicidade e da propaganda, almas do negócio da lógica capitalista. Basta que observemos a eficácia da propaganda nababesca do agronegócio, a convencer milhões e milhões de telespectadores incautos de sua excelência, de sua tocante sensibilidade ecológica, e até de sua ética… Novos discípulos de Goebbels, seus protagonistas sabem que uma mentira – ainda quando misturada de traços secundários de verdade -, quando e se repetida mil vezes, acaba passando por verdade, ante olhos e ouvidos controlados pela normose, sem condições de perceber o que se esconde por trás de sua estratégia. Ao contrário desses efeitos, funciona  o jeito próprio das ações protagonizadas nas “correntezas subterrâneas”, desprovidas de propaganda e publicidade, acessíveis àqueles e àquelas que as acompanham de perto, no laborioso silenciamento do dia-a-dia. Só quem tem olhos para ver tais experiências frutuosas, é capaz de sentir seus impactos revolucionários. Delas pouco ou nada se ocupam os grandes meios de comunicação de massa.

A seguir, cuidamos de compartilhar algumas dessas experiências e algumas pistas voltadas a sensibilizar e a potenciar tais iniciativas. Com a mera intenção de provocar um desencadear – da parte de cada uma, de cada um, um sem-número de exemplos ilustrativos, destaquemos, de passagens, alguns casos, nas mais distintas esferas de nossa vida social e pessoal, abrangendo igualmente os mais diferentes campos da realidade.

Não faz muito tempo, sem terem muito a esperar de governos descomprometidos com pautas populares, as forças vivas de nossa sociedade colheram promissores frutos, em sua ousadia de investir o melhor de si em fortalecer as condições de protagonismo de nossa sociedade civil, tendo conseguindo proezas, em sua ação molecular, sem negar também seus limites. O Semiárido é apenas um desses exemplos. Ainda nos anos 90, graças ao investimento maciço de nossas organizações de base em empoderar nossa sociedade civil, de dotá-la de instrumentos de considerável alcance transformador, vale a pena destacar um sem-número de iniciativas de convivência com o Semiárido, haja vista o sucesso de planos voltados à construção em mutirão de centenas de milhares de cisternas, de barragens subterrâneas, de aplicação de tecnologias alternativas, na área da agroecologia, do reuso de águas, de tecnologias à base de fontes alternativas de energia, e pequenos projetos de produção comunitária nas áreas rurais… só para mencionar uns poucos exemplos. Para se ter uma ideia do alcance socioeconômico e cultural destas inciativas, basta que comparemos os efeitos deletérios de grandes estiagens no Nordeste, nas décadas 70 e 80, por um lado, e por outro lado, os efeitos de longas estiagens recentemente ocorridas no nordeste.

É curioso, a propósito, constatar que até mesmo no campo da reforma agrária, nossas organizações de base conseguiram mais ganhos, durante governos liberais do que durante governos populares…

Lamentável, contudo, é constatar que, em não poucos casos, essas lições tendem a ser esquecidas, tal a voracidade de se apostar todas as fichas apenas no confronto com as pautas oficiais, restringindo, não raramente, as tarefas de nossa organização a oporem resistência pontuais, após cada ataque vindo dos “de cima”, sem centrarem forças em projetos de alternativos. Os resultados estão aí expostos a uma comparação… Não se trata de abdicarmos do dever de enfrentarmos a pauta oficial – isto também era feito, nos anos 90!

Trata-se também, no plano pessoal, de reacendermos nossa mística revolucionária, apostando nos gestos menos perceptíveis, mas de profundo impacto revolucionário. Há, com efeito, uma enorme série de “pequenos” gestos, que precisam ser reavivados em cada uma, em cada um de nós, no chão do dia-a-dia, tais como:

Ousar dar passos progressivos em busca de um estilo de vida sóbrio. Engano, pensar que isto “é coisa de sonhador”… Por exemplo, combater – dando exemplo! – o consumismo, nas mais distintas ocasiões do di-a-dia.

Ocorre-me pensar no caso do consumo excessivo de eletricidade nas salas de aulas de nossas escolas. Tempo houve – e não faz muito -, em que nossas salas funcionavam sem esse aparato generalizado de ar condicionado por todo canto. Se antes, sabíamos conviver com o ritmo sazonais da Mãe-Terra, em mossa região, por que hoje não podemos mais? Como vamos poder criticar, com autoridade, políticas governamentais que devastam povos e florestas, alegando que precisam construir mais e mais termelétricas, para responder às demandas de “desenvolvimento”.

Quantos gestos e iniciativas considerados “minúsculos”, também no âmbito pessoal, podem (e deveriam!) ser testemunhados, em nosso dia-a-dia, como livre opção nossa, inclusive sem qualquer necessidade de fazê-las na vista de outrem. Mais valiosos  se tornam, à medida que passam a figurar como parte de nossa rotina pessoal, verdadeiras zonas de reabastecimento e de exercício de nossa mística revolucionária. Exemplos poderiam ser arrolados, “ad infinitum”. Destaquemos, de passagem, alguns como ilustrações possíveis. Comecemos por uma pergunta talvez incômoda: “quanto eu custo à Mãe-Natureza? Quanto sou capaz de repor do que consumo, do que me beneficio? Por certo, a vida é gratuidade, não é objeto de cálculo, nem mesmo da relação custo-benefício. Por outro lado, também é certo que a  vida é movimento. É um constante ir e vir, um dar e receber. Neste sentido, pode fazer-nos bem perguntar-nos: nas mais diversas relações que teço com as demais pessoas, busco ao menos certo equilíbrio na balança do dar-receber? Ou, ao contrário, mesmo podendo tantas coisas, limito-me a receber da generosidade dos outros, pouco ou quase nada contribuindo com o que eu posso e devo? E não é preciso oferecer como uma troca comercial. Isto se dá espontaneamente, até sem que as pessoas percebam, dado meu empenho no silêncio das boas obras.

De modo similar, em minhas relações com a Mãe-Natureza, é útil fazer-me perguntas do tipo: no item água, como me comporto? Sou comedido, no uso da água, debaixo do chuveiro, ou, ao contrário, sou antes perdulário, aí permanecendo cinco, dez minutos, e com água aquecida? Como me comporto no controle da torneira, ao escovar os destes, ao lavar os pratos, ao lavar roupa…? Como me comporto em fazer meu prato: enchendo de tudo, para depois jogar fora metade? E por aí seguem os exemplos didáticos, dos quais sou chamado a extrair lição, também no último dia de 2018…

Cada gesto destes vem carregado de sementes – boas ou más, de sementes de joio ou de trigo, sinalizando o tipo de revolução em que me acho concretamente engajado, a ir realizando, desde o chão do meu dia-a-dia…