À Esquerda, os vagabundos

Não devem ser muitos os malucos que, como eu, perdem seu tempo lendo comentários de matérias de jornais online. Mas aqueles que o fazem já devem ter notado que a experiência pode resultar em um enriquecedor estudo antropológico.

Um dos diferenciais desse tipo de análise é que o objeto em questão se apresenta, ao menos à primeira vista, de forma sincera e transparente, uma vez que, na internet, todos podem ter sua verdadeira identidade resguardada, evitando, assim, maiores exposições.

Com isso, os comentadores de plantão, que falam como verdadeiros juízes, costumam ser impiedosos em suas sentenças, pois sabem que não terão de se preocupar com eventuais reações a suas declarações – por mais estúpidas que estas sejam.

Recordo-me, por exemplo, de religiosos fanáticos que fizeram comentários ofensivos aos mortos na boate Kiss, em Santa Maria (RS), com base na premissa de que os jovens que estavam no local, à hora do incêndio, mereciam mesmo ser castigados por seu comportamento “pecaminoso”.

Recentemente, li comentários em matérias envolvendo a remoção de indígenas do antigo Museu do Índio, no Maracanã, no Rio de Janeiro, que apoiavam efusivamente a violenta ação do Batalhão de Operações Especiais da PM, o Bope, empreendida na semana passada.

Entre as frases registradas havia pérolas como “Tem que sentar a borracha mesmo nesses vagabundos!”; “Quem defende esses “indios” (sic) é porque já esteve lá fumando um com eles…”; “Derruba mesmo!!! ali é local da (sic) ladrão e maconheiro!!!”; “Bando de desocupados!”; e por aí vai.

Por mais absurdos que pareçam, os comentários em questão traduzem não apenas o que se passa no íntimo do imaginário de muitos brasileiros, mas algo que está, em certa medida, na essência do discurso reativo da Direita.

Para justificar privatizações, remoções e outras intervenções, como ações truculentas das polícias – seja em favelas ou durante manifestações públicas –, os liberais costumam recorrer a argumentos que dão a entender que todos aqueles que se opõem a essas medidas não passam de pelegos, hippies, drogados, baderneiros, idealistas ingênuos, defensores de bandidos (no caso de ativistas de direitos humanos), etc.

Já os mais radicais chegam a qualificar certos tipos de comportamento como ameaças aos três pilares da sociedade burguesa: Tradição, Família e Propriedade, que, em seu entendimento, correspondem a uma suposta ordem natural das coisas.

São análises dessa natureza que dão brechas para a recorrência de estapafúrdias associações que sugerem, por exemplo, que o reconhecimento dos direitos dos homossexuais ou a maior independência das mulheres oferecem riscos ao bem-estar social. Ou seja, visões eminentemente preconceituosas.

Cabe ressaltar que, quando o preconceito e a agressividade passam a dar o tom de uma crítica, há fortes indícios de que seu autor não está conseguindo encontrar argumentos lógicos para fazer frente ao discurso de oposição.

Além de desviar o foco do debate dos verdadeiros problemas, das questões que estão na raiz dos conflitos, tal atitude – que não passa de uma resposta covarde à sombra da alteridade – acaba semeando a intolerância, o ódio e a violência.

Aí sim podemos começar a falar em “riscos ao bem-estar social”.