A arte de reclamar

Por Gustavo Barreto (*)

Foto da Rua Barão de Mesquita com a rua Uruguai, na Tijuca, Rio de Janeiro, em 1915. Crédito da foto: autor desconhecido.

Foto da Rua Barão de Mesquita com a rua Uruguai, na Tijuca, Rio de Janeiro, em 1915. Crédito da foto: autor desconhecido.

Conta um articulista do finado “Correio da Manhã” uma curiosa história sobre o atraso em obras realizadas pela prefeitura do Rio de Janeiro na rua Barão de Mesquita, no final dos anos 1920.

Ao ver a eternização das referidas obras na rua, um morador – Júlio Moura – resolveu enviar ao então prefeito Antônio Prado Júnior um telegrama de felicitações pela passagem do segundo aniversário das mesmas. O prefeito decidiu dar, então, um fim à gozação e, em poucos dias, o trabalho fora finalizado.

O nome do autor só foi revelado tempos depois e o próprio Prado Júnior afirmou que deu andamento imediato às obras pelo “ineditismo” do que qualificou como “a arte de reclamar”.

São outros tempos – menos “românticos”, certamente – mas cabe nos perguntar quais estratégias de comunicação deveríamos usar para ajudar a deter os atropelos da maior parte dos políticos contemporâneos.

Mais do que atrasos, estamos numa época dos excessos – os estádios para a Copa do Mundo, orçados inicialmente em R$ 2,2 bilhões, alcançam agora a inimaginável cifra de R$ 8 bilhões. Romário já havia alertado, talvez com certo exagero: este será o maior roubo da história do Brasil. Claro, não deve ser o maior. Mas, tratando-se de corrupção, nossos governos sempre batem o próprio recorde. Imagina quando estão unidos nas três esferas.

A “arte de reclamar”, hoje, tem o mesmo tamanho que tinha um telegrama criativo enviado ao prefeito nos anos 1920: são milhares de pessoas, nas ruas e nas redes sociais, pedindo o bom uso dos recursos públicos, entre outras coisas. Algumas vezes com muito bom humor – pelo menos até onde nos permitimos, diante de tanta violência.

Prado Júnior entendeu o recado. Não queria, imagino, virar piada. Nos dias de hoje, o humor é uma forma importante de protesto, como muitos têm demonstrado. Mas a grande piada parece ser, na verdade, nossa impotência diante de tantos desvios éticos.