A alma brasileira contra os monstros de preto

Por Gustavo Conde

Gilberto Gil encarna uma das vozes mais importantes do país, tanto no quesito musical, quanto no quesito político. Sua dicção natural é política, é densa, é premonitória, é investida de consequência, de memória, de combatividade, de resistência, de beleza. 

O timbre de Gilberto Gil é indefectível e pleno de significados a priori. Gil é força, é raça, é a voz granulada que transpassa a musicalidade espontânea do português brasileiro, é a afinação precisa, a paleta de cores frequenciais, a transgressão, a multivocalidade, a polifonia de ritmos, a democracia dos sons.

Quando Gil fala, tudo se ilumina. Sua verve coloquial é geradora de inícios, de realizações, de tomadas de posição, de humildade, do filosofar real e profundo oriundo da sabedoria popular aliada ao notável conhecimento literário e rigoroso dos pressupostos mais sofisticados do pensamento soberano europeu e de seus desdobramentos teóricos mundo afora.

Gil é um patrimônio da cultura brasileira e só isso já lhe bastaria como espólio existencial: sua maneira de ser, de compor e de cantar. Mas Gil quis mais do que isso. Ele não se acovardou diante do desafio de gerenciar talvez o mais importante ministério da república, o ministério da cultura, hoje completamente sucateado e devastado.

Gilberto Gil fez a mais importante gestão da cultura brasileira. Foi o ministro da cultura mais importante, muito a frente de seus pares, muitos deles igualmente investidos de profunda legitimidade e conhecimento de causa. Mas Gil foi além.

A passagem de Gil pelo ministério marcou e marcará para sempre o Brasil. Gil distribuiu a verba do ministério de maneira democrática pela primeira vez na história. Descentralizou a receita e empoderou cabeças pensantes Brasil afora, inclusive e sobretudo, a de seu genial secretário, Juca Ferreira, outro gestor investido de profundo conhecimento das singularidades artísticas de um país continental e imenso como o Brasil.

A dedicação de Gilberto Gil no MinC foi tal que ele chegou a perder a voz, essa mesma voz que hoje toma corpo em defesa intransigente da democracia perdida. O fenômeno foi técnico: a colocatura vocal de um ministro, instado a falar pelo Brasil inteiro – a ‘falar’ e não a ‘cantar’ – exige uma energia distinta da utilizada para as técnicas do canto popular. Ao cantar menos e falar mais, Gil sofreu uma perda vocal, felizmente já superada com a re-educação vocal através da fonoaudiologia.

O empenho pela democracia de Gil se confunde, portanto, com sua própria arte, com sua própria identidade de artista e de cidadão. A doação foi imensa e Gil a fez valer com todas as honras, honras que só um quadro político sério e dotado de humanidade pode sonhar ter.

Quando Gil pede por Lula Livre não é um pedido qualquer. É preciso respeitar a memória e a densidade que ele traz. Aliás, ele deixa clara sua predileção por enunciados densos e dotados de sentido histórico. Ao pedir Lula Livre, Gil afirma que seu dizer não é superficial ou ‘motivado’.

Ele evoca a ancestralidade espiritual de seu dizer, cava-o do fundo de sua existência, busca-o na mais estreita convergência entre a transfiguração política e a substanciação estética, tomado pelo momento que precede seu ato sagrado de ‘subir nesse palco’ (Gil ‘corporificou’ o Lula Livre momentos antes de seu show em Lisboa).

Na boca e na alma de Gilberto Gil, o ‘Lula Livre’ ganhou uma nova dimensão, a dimensão filosófica das grandes causas humanitárias internacionais. Antes de enunciar ‘Lula Livre’, Gil significa o caminho pregresso do dizer.

Gil significa Lula, significa ‘povo’, significa o país, significa a história, significa a violência judicial de que Lula é vítima, significa  o recado contundente – via pesquisas eleitorais – que o eleitor brasileiro dá neste momento histórico.

Gil não usa atalhos, ele toma para si, investido de humanidade e projeção subjetiva, o lugar ‘quase que insondável’ de sua ‘própria interioridade’ para forrar um contexto especial de escuta e afirmar com todas as suas forças espirituais e existenciais: ‘eu quero Lula Livre porque eu quero Lula Livre’, franzindo o cenho, elevando o tom, desaveludando o timbre naturalmente doce, para deixar estampado e realçado em seu ser o desejo profundo de buscar a mais contundente forma de subsidiar a própria fala.

Pode parecer banal, mas o fato é que dizer ‘Lula Livre’, todo mundo diz. Dotar esse enunciado de significações poderosas é outra dimensão das articulações humanas de sentido.

Gil dá uma senha importante para a classe artística brasileira, toda ela. Ele tem densidade para elaborar esse recado macro. Ele demarca – porque pressente – um ‘ponto de basta’, uma saturação elementar e decisiva que se debruça sobre a discussão acerca da liberdade de nosso maior líder político de todos os tempos.

Não há mais ponderações a se fazer. Não há mais dúvidas. Não há mais hesitações diante da violência que um brasileiro logrou sofrer de uma classe que tanto soube respeitar e celebrar, o poder judiciário.

Gil demarca esse momento de esgarçamento discursivo da perseguição a Lula. Ele capta, como artista de extrema sensibilidade política que é, que a convergência em torno deste enunciado fundamental – ‘Lula Livre’ – ganhou a adesão da maioria esmagadora da classe artística brasileira.

Gilberto Gil sabe do volume e da densidade de adesões ao Festival Lula Livre, que aponta no horizonte com um dos momentos mais importantes da democracia brasileira. Gil sabe que um Festival organizado por um coletivo de artistas (e não por um partido político) tem o poder descomunal de mobilizar o país inteiro através da classe artística e intelectual, tomada de assombro com uma violência institucional que não cessa de se inscrever na realidade cotidiana do país.

As assinaturas concretas deste que anuncia ser o maior Festival de celebração da democracia que o país já assistiu, revelam o sentimento que ora prevalece no país, ainda não totalmente prospectado pelas mídias sociais e digitais: a opção pelo Lula Livre não é mais uma bandeira da esquerda.

É uma bandeira da civilização. São artistas e intelectuais das mais variadas colorações partidárias e ideológicas que já assinaram a lista, lista essa que vem se tornando pública aos poucos, através das mídias alternativas e dos jornalistas tradicionais de posse de suas fontes.

O clima, portanto, é muito favorável ao enunciado profundo e filosófico que Gil produz, diante da emergência histórica pela volta da democracia.

O horizonte mostra, a despeito do ceticismo residual que ainda impera em alguns nichos da esquerda, uma mobilização massiva e tomada de densidade por ‘Lula Livre’ e eleições diretas.

Vai ficando cada vez mais claro que Lula acertou em ‘bater pé’ e resistir ao assédio degradante e mau perdedor dos segmentos conservadores e sem imaginação do país, transversalizados por um poder judiciário acovardado e passivo diante das chantagens das mídias corporativas e do empresariado obsoleto e especulador de sempre.

Lula, como se sabe, não dá ponto sem nó. Ele tem uma conexão especial com a história, com o povo e com a realidade factual dos discursos e das demandas sígnicas e ideológicas deste país chamado Brasil. Não há adversário para ele neste quesito.

O adensamento deste Festival, aliado aos adensamentos dos enunciados transversais da classe artística vai emergindo com um grande e poderoso cenário de embate e de desenlace final para a nossa situação político-social.

Agora, é a alma brasileira conta os monstros de preto, a memória democrática contra a amnésia totalitária, a criatividade e a luta contra a obtusidade e o oportunismo judicial, os gigantes da cultura contra os ditadores togados.

Gilberto Gil nos deu a senha. Tanto melhor seria se não a desprezássemos.

Fonte: Brasil 247

https://www.brasil247.com/pt/colunistas/gustavoconde/360264/A-alma-brasileira-contra-os-monstros-de-preto.htm

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