“500 dias com ela” surpreende e fascina

This is not a love story. It is a story about love.

(Essa não é uma história de amor. É uma história sobre amor.)

Vejamos….

Começo por um dos elementos mais importantes do filme: a trilha sonora. Composta de acordo com o gosto musical dos personagens e seguindo o caráter leve, melancólico, às vezes, mas principalmente carinhoso da linha narrativa. Dentre as principais canções, estão The Smiths, Regina Spektor, Pixies, Carla Bruni, Paul Simon e a própria banda de Zooey Deschanel: She & Him.

O filme de estréia de Marc Webb como diretor nos dá a oportunidade de acompanhar o processo do relacionamento de Tom Hansen e Summer Finn.

500DaysPosterOs tais 500 dias são a duração desse ciclo: rapaz conhece moça, rapaz se interessa, moça fica intrigada, um beijo acontece, um beijo leva a dois, três e quando vêem estão se beijando na horizontal. Da cumplicidade e do riso se faz a careta e o drama por algo que você nem entende. Do término vem a dor e a vontade da reconquista. Quando esse desejo não se realiza e você percebe que é incontornável, vem o buraco, o fundo e a subida. A necessidade de mudança e de perceber que aquilo foi só uma dificuldade, uma tristeza, uma das muitas que sentirá, mas que de forma alguma deve ser visto como o fim do mundo e nem como algo ruim.

E um dos grandes méritos do filme é conseguir mostrar todos esses procedimentos de forma descontraída, simples, mais realista do que normalmente vemos: a antecipação, as expectativas, aquele começo quando aceitamos tudo que o outro diz porque não queremos estragar nada, mesmo que saibamos que podemos nos machucar mais tarde, a conquista e todas as investidas que saem pela culatra. Os constrangimentos e a obsessão de interpretarmos cada palavra ou ato do alvo de nosso interesse. Em suma, o período de descobrir o outro: suas manias, suas marcas, seus segredos, as semelhanças entre os dois, as convergências de gostos, etc. Depois da aparente conquista, vem o momento tão esperado de se sentir a pessoa mais feliz do mundo.

Duas pessoas se conhecendo. Não sabem o que o outro vai dizer ou fazer. Aquela insegurança de estar se entregando a um recém desconhecido.

Summer lhe diz, depois de um desentendimento, que não pode prometer nada, não pode dar garantias de que vai acordar todos os dias sentindo a mesma vontade de estar com ele (ninguém pode). E diante da necessidade de alguma consistência, como ele mesmo diz, reafirma que não é um rótulo de namorado(a) que lhes dará isso.

Apesar dos empecilhos e da aparente certeza de que Summer não quer se envolver, Tom percebe seu processo de desabrochar acontecer na frente de seus olhos. Ele, indivíduo naquela dupla que, como quase sempre há, está mais apaixonado do que ela, nota as barreiras desmoronando e acredita que em algum momento será correspondido com um sentimento tão forte quanto o seu. Mas as coisas não são simples assim na vida e nem sempre acontecem como queremos….

Ao que nos leva ao segundo e grande mérito do filme. Seu conceito de amor, de final feliz não segue o mainstream de comédias românticas americanas, em que quase sempre podemos adivinhar os passos seguintes e certamente o desfecho.500-days-of-summer-0609-lgjpg

Diferente do que comumente vemos, “500 dias com ela” defende que não há apenas uma pessoa para cada um. Achar que só existe UMA, alma gêmea, a ser encontrada e capturada é esperar um par idealizado e se fechar para qualquer outra possibilidade. Como um dos melhores amigos de Hansen mesmo diz, a mulher IDEAL dele provavelmente seria muito diferente daquela com quem está, mas ele prefere essa, por ser REAL.

Há uma cena em que Tom está prestes a se demitir, coração partido e indignado com a falsidade de dizeres dos cartões que têm ajudado a escrever e vender. Diz que é culpa de filmes, músicas e cartões como esses que sempre esperamos algo que acabamos por não encontrar. Por mais que essa reação seja um certo exagero, fruto de sua desilusão, há um fundo de verdade nisso. Somos muito influenciados por aquilo que vimos e ouvimos. Essas representações do que seria amar, estar apaixonado, ter um amigo, ter um término, sofrer, etc… que só fazem nos confundir.

Porque na verdade o que mais vemos são falsas interpretações que se pretendem verdadeiras. Filmes hollywoodianos que escolhem UM dos milhares de caminhos possíveis, mas que não necessariamente é o certo. Ao invés de vermos filmes e ouvirmos músicas que nos ajudem a lidar com nossas situações, questionamentos e sofrimentos, vemos espelhos que não nos representam e achamos que os errados somos nós. Estamos incessantemente a espera de algo que vimos antes, de um pré-conceito. Achamos que a não ser que sintamos aquilo que Hannah Montana ou Julia Roberts disse sentir, não deve ser verdade.

Depois desse grande desvio de caminho, (dês)abafado, continuo na exposição dos meus elementos favoritos:

Quando Tom conversa com sua amiga mais nova e sábia, muito importante para sua recuperação, ela lhe diz para parar de pensar apenas nos momentos bons e em quanto eles combinavam, mas pede para que ele dê uma vista geral, mais minuciosa e perceba que nem tudo era tão perfeito e incrível como imaginava. Ao pensar com mais atenção, Tom vê que realmente ouve momentos bons e ruins. Não necessariamente Summer era tão compatível assim e o simples fato dela não corresponder seus sentimentos como ele precisava, já indica um bom motivo de separação.

Porém não há necessidade de melodrama. Como os personagens dizem numa de suas conversas:

Todas essas pessoas que você namorou parecem bacanas. O que aconteceu?

O que sempre acontece. A vida aconteceu.

Na vida, passamos por períodos difíceis, desilusões, sofremos! Mas seguimos em diante! E aprendemos.

O que me leva ao terceiro grande mérito do filme: a aproximação dos personagens na tela com nós mesmos e nossos amigos. Eu estar citando as situações do desenrolar ficcional é apenas um artifício para mostrar o quão parecidas com nossa vivência essas são.

As brigas e as motivações que os unem são muito mais próximas da nossa realidade. Assim como essa não definição de relacionamentos, resultado de um fenômeno recente, que se recusam a colocar rótulos.

A intimidade que permanece quando os dois voltam a se encontrar, o carinho que não se desfaz. A dor que sentimos ao ouvir que um novo alguém é capaz de oferecer o que nós não pudemos. A mão sobre a mão de desfecho.

O momento em que a tela é dividida entre realidade e expectativa é sensacional. Todos já sentiram isso.

500DaysOfSummerTheKiss-450x606O que a uma hora e quarenta nos mostra é que a experiência que ambos tiveram juntos valeu a pena. Esse momento que dividiram serviu para que aprendessem, se divertissem e conhecessem uma outra pessoa que sempre irão admirar e amar.

Uma quarta conseqüência desse encontro foi um ter ajudado o outro a mudar, a enxergar certas coisas que antes não viam. Conclusão essa que podemos tirar tanto da atitude de Hansen…

…é necessário estar bem consigo mesmo, sozinho, autosuficiente para que outra pessoa possa nos dar valor e para que possamos olhar ao redor. O amor que ele sentia por ela equilibrava todas as imperfeições de sua vida. Contanto que os dois estivessem bem, ele podia estar num emprego que não gostava. Percebe então que estar com outro deve ser um complemento a uma já contentação pessoal.

… quanto da de Summer, que percebeu que pode ser surpreendida pelo inesperado.

A narração vem dos momentos mais pertinentes, viradas importantes na vida de Hansen, com um caráter muito narrativo e quase irônico, em harmonia, mais uma vez, com a sensação leve do filme.

Como o narrador diz logo no início temos duas situações opostas que podemos dizer ao final serem ambas incorretas.

  • ele achava que a vida seria realmente feliz e completa somente quando encontrasse a mulher ideal.
  • ela não acreditava que houvesse nada tão forte ou significativo quanto a idéia de amor que todos disseminam.

Depois de tantos aprendizados que podemos captar, um dos que mais gosto é que não há caminho certo. Não há fórmula ou receita para saber o que sentimos e o quão verdadeiro o sentimento é. O que há é o acaso. Encontros, coincidências…

Mas a vida é assim, uma série de encontros e desencontros imprevisíveis. E o que fazemos dessas coincidências é que muda nossas vidas.

Um filme delicado, que não precisa inventar grandes eventos, reconquistas ou finais tradicionalmente felizes para mostrar o que bem estar pode ser. Um filme com o qual muitos vão poder se identificar, que fala mais diretamente e abertamente ao público e que gera finalmente um pouco de conforto, ajudando esse público a compreender e se recuperar de suas próprias dificuldades. Ainda, um filme sobre amor sim. Pode não ser o tipo convencional que acaba em casamento, mas amor de amizade, de alegria, de amar.