As estruturas eclesiásticas são mesmo reformáveis, em suas entranhas burocratizantes?

“Reforma” ou (re)conversão ao Movimento de Jesus?

Difícil é saber qual dessas duas alternativas se mostra mais resistente a mudanças: a(s) sociedade(s) ou a(s) igreja(s)… No caso específico da Igreja Católica Romana, é pacífica a avaliação de que sua estrutura organizativa se acha, de longa data, escancaradamente obsoleta e, em grande medida, infiel à Tradição de Jesus. O Cardeal Carlo Martini, em agosto de 2012, meses antes da eleição do Papa Francisco – e isto é eloquente, quanto a possíveis efeitos sobre o perfil profético-pastoral do atual Bispo de Roma! -, concedeu a Georg Sporschill, seu confrado jesuíta, e Federica Radice, uma entrevista (cujo teor ele próprio leu e aprovou, como se fora parte do seu testamento!), e assim também considerada, a justo título: parte do seu testamento de um pastor-profeta. Recomendamos vivamente a (re)leitura desta entrevista: cf. http://www.corriere.it/cronache/12_settembre_02/le-parole-ultima-intervista_cdb2993e-f50b-11e1-9f30-3ee01883d8dd.shtml? à qual retornaremos mais detidamente, no tópico final destas linhas.

Por enquanto, limitamo-nos a assinalar que, nela, o Cardeal Martini chegou a dizer que a Igreja Católica está atrasada duzentos anos…

O Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, tinha como objetivos, entre outros, o de corrigir tão grave atraso, bem como o refontizar-se da/na Palavra de Deus, o de colocar-se em dia com a humanidade, o de colocar o Povo de Deus (e não a hierarquia) na centralidade de sua estrutura organizativa e de seu modo de gestão. Para tanto, apontava o caminho das decisões tomadas colegialmente, como um primeiro passo, nessa direção. Tentativa que não prosperou, ou que alcançou um tímido resultado, em relação à grave defasagem. À exceção de alguns aspectos, como o de dar passos em direção a um diálogo com a modernidade (ver, por ex., a Gaudium et Spes). Buscava-se um “Aggiornamento”, uma atualização. Mas, pouco depois do encerramento do Concílio Vaticano II, o que se teve foi uma onda reacionária da qual escaparia a Igreja da América Latina, graças especialmente a uma geração de bispos profetas e de leigas e leigos, religiosas e religiosos e parte do clero, decididos a ensaiar passos em direção a uma Igreja pobre e a serviço da humanidade, tendo sido a opção pelos pobres a marca principal registrada, por ocasião da Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (Colômbia, 1968). Sucede que nos pontificados que antecederam a chegada de Francisco, Bispo de Roma, observou-se um longo retrocesso, alcançando, finalmente, com o Papa Francisco, novo tempo de esperança, ainda que saibamos que “uma Andorinha só não faz verão.”

Por outro lado, também sabemos que, por mais profética que seja a atuação de um papa e de um pequeno grupo de bispos, não é suficiente para garantir mudanças organizativas estruturais, sem o protagonismo de amplos setores de Católicos, especialmente de Leigas e Leigos, que mais sofrem com a obsolescência das estruturas vigentes. Tem sido amplamente reconhecido o esforço profético–pastoral do Papa Francisco, testemunhado por gestos, palavras e escritos. Quanto a estes últimos, vale destacar, por exemplo, seu promissor e fecundo programa de governo eclesial, presente em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, na qual salienta, dentre outros pontos capitais, a centralidade, não da hierarquia, mas do povo de Deus, na organização da estrutura eclesial. Com base neste efetivo apoio, bem como em vários pontos do Concílio Vaticano II, longamente relegados a segundo plano ou ao esquecimento, vários movimentos e organizações de Católicos e Católicas de dezenas de países, vêm buscando exercitar seu protagonismo, em busca de efetiva renovação.

Nas linhas que seguem, buscamos refletir, à luz da Palavra de Deus e da Tradição de Jesus, 1) sobre a (in)consistência ou pouca fecundidade dos esforços em busca de reformas estruturais da(s)/na(s) Igreja(s); 2) sobre a necessidade de avançarmos, não em busca de “reformas” pontuais, mas, antes, de ousarmos dar passos na busca de nos (re)convertermos ao Movimento de Jesus, na perspectiva do anúncio e dos sinais do Reinado de Deus e de Sua justiça e misericórdia; 3) cuidamos de apontar pistas ou passos ou experiências já em curso nesta direção, nas “correntezas subterrâneas”.

1) As estruturas organizativas da(s) Igreja(s) são mesmo reformáveis?

Um exame mais acurado da história recente e menos recente das Igrejas cristãs nos permite, de um lado, alegrar-nos com fecundas experiências reformadoras, excepcionalmente observáveis, aqui e ali, na história recente e menos recente, e, por outro lado, alertar-nos, na grande maioria das experiências reformadoras, para o risco de reformas superficiais, mantendo inalteradas (ou pouco modificadas) as estruturas organizativas centralizadoras. Se estendemos o mesmo exame às experiências de reforma societal, não encontraremos grandes diferenças, “mutatis mutandis”. Mas, o foco aqui exercitado restringe-se ao âmbito eclesiástico.

Embora não seja a oportunidade – em poucas linhas – de pretendermos um exame mais acurado de sucessivas experiências reformistas de estruturas eclesiásticas, convém assinalar que, ao longo de sua história, muitas tentativas foram feitas, nesse sentido. E que vão aquém e além das grandes experiências de Reforma, como a(s) que teve/tiveram lugar, a partir do século XVI. Nesse sentido, os concílios constituíram e constituem espaços emblemáticos, na trajetória da Igreja Católica, enquanto as Igrejas Reformadas contam igualmente com espaços semelhantes. Não se deve ignorar um número de alterações consideráveis, que, ao menos em parte, responderam aos clamores do seu tempo. No que toca, porém, ao formato de organização estrutural e sua gestão, a despeito do apelo a neologismos ou a nova nomenclatura, não se alcança substancialmente a estrutura verticalista e androcêntrica da tomada de decisões.

Tão enraizada é, na(s) Igreja(s), a cultura hierarquizante, que se tenta em vão substituir por nomes pomposos velhas práticas e normas ditadas de cima para baixo, os próprios órgãos “colegiados”, salvo raras exceções, funcionam “pro-forma”, uma vez que seu presidente (o bispo ou o pároco) acaba tomando a decisão final, legitimada pelo conjunto dos membros do órgão colegiado. Não por acaso, em mais um gesto profético-pastoral, o Papa Francisco aludia, recentemente, à figura da pirâmide organizativa dos seus sonhos: gostaria de ver a pirâmide invertida, tendo na base o Bispo de Roma e os demais bispos, enquanto no topo o Povo de Deus. Com suas próprias palavras: “Mas nesta Igreja, como numa pirâmide de cabeça para baixo, o vértice se acha na base. Por isso, aqueles que exercem autoridade se chamam ‘ministros’ porque, segundo o significado original da palavra, são os mais pequenos de todos. É servindo o Povo de Deus que cada Bispo se torna, para a porção do Rebanho a ele confiada, vicarius Christi, vigário Daquele Jesus que na última ceia se enclinou para lavar os pés dos apostolos (cf. Jo 13,1-15). E num horizonte semelhante, o mesmo sucessor de Pedro outro não é senão servus servorum dei.

Nunca esqueçamos isto! Para os discípulos de Jesus, ontem, hoje e sempre, a única outoridade é o serviço, o único poder é o poder da cruz, segundo as palavras do Mestre “Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e os chefes e seus chefes as tiranizam. Entre vocês não será assim; mas quem quiser se tornar grande entre vocês, será o servidor de vocês e quem quiser ser o primeiro entre vocês será seu servidor.” (Mt 20,25-27).”

(cf. o “link”: http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2015/october/documents/papa-francesco_20151017_50-anniversario-sinodo.html)

A posição do Papa Francisco porém, soa como uma voz no deserto.

Outro exemplo deste hábito nominalista se dá nas chamadas visitas “ad limina”, quando os Bispos diocesanos vão a Roma, para relatarem ao Papa o estado geral, de suas respectivas dioceses. Rarissimamente, Os fiéis tomam conhecimento – na maioria, não tomam sequer a iniciativa de cobrar junto ao bispo -, nem, por sua vez, os bispos dão conhecimento público do resultado de suas visitas.

Outro clamor que se levanta, já de algum tempo, é a praxe seguida de nomeação e transferência de bispos (De uma diocese para outra). Também aqui, cabe a um minúsculo grupo da hierarquia responder por tais nomeações e transferências, cuja palavra final costuma ficar na Alçada do Núncio Apostólico. Em que pese, a sucessão de graves incidentes- Afinal, os fiéis ficam excluidos de qualquer consulta prévia)-, e, em plena era do Papa Francisco, tal prática segue vigente.

Nunca é demais reconhecer a excepcionalidade do perfil do Papa Francisco, uma figura reconhecida como portadora de atitudes profético – pastorais. Isto, porém, não impede o perfil reacionário da Cúria Romana e seus pomposos dicastérios a gerirem o cotidiano da burocracia eclesiástica que, ao longo de séculos, segue tendo o poder de determinar, com base no famigerado, Código de Direito Cannonico (por vezes a substituir o Evangelho…), os destinos de dioceses e paroquias, que em sua enorme maioria, refletem a mesma estrutura de poder. Será mesmo reformável esta estrutura de poder, ou devemos, antes, apostar em nosso processo de (re)conversão à Tradição de Jesus? Caso entendamos possível conciliar os dois caminhos, nada a objetar, contanto que nosso compromisso invista fundamentalmente no que mais importa: o Reinado de Deus e Sua justiça!

2. Nosso compromisso de (re)conversão ao Movimento de Jesus

Apesar dos esforços envidados, durante décadas, mesmo quando, investem formalmente ao interno da organização, como se deu no caso da Igreja Católica, por exemplo, em seu documento conciliar – Constituição Dogmática Lumen Gentium, ao antepor o capítulo concernente ao Povo de Deus ao que trata da hierarquia, ou como sucede com o tema da “Colegialidade”… com ressonância nos órgãos colegiados diocesanos e paroquiais, funcionando mais pela magia do nome do que pela sua força decisória…

Na era pós-conciliar, vem se verificando o despontar de múltiplas iniciativas de organizações de Leigas e Leigos (e, em menor escala, também de Religiosas e Religiosos e de Presbíteros e Diácono). Tentando fazer valer sua participação nas decisões. Com efeito, os católicos, engajados em várias iniciativas de reforma da/na Igreja Católica Romana constitui mais uma iniciativa de ir abrindo caminho para convocar o conjunto de Batizados a darem “razão de sua fé”, isto é, a contribuírem para sensibilizar o conjunto dos membros da Igreja Católica, a clamarem por urgentes reformas. Em tempos de Francisco, Bispo de Roma, não se admite que os discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré, não se empenhem em pronunciar sua palava, e em esboçar passos concretos, no sentido das inadiáveis urgências de renovação eclesial, desde suas estruturas organizativas que já não atendem aos apelos do Reino de Deus e Sua justiça.
É assim que, recentemente reunidos em Würzburg, na Alemanha, dezenas de grupos clamando por urgentes reformas na Igreja.

Semelhante clamor deve extender-se, na verdade, ao conjunto das Igrejas Cristãs. Aqui, porém centramos nossa atenção à Igreja Católica Romana, ou mais precisamente, à urgência de profundas reformas em suas estruturas organizativas. Estas são protagonizadas pelos principais interessados: As organizações leigas, secularmente tratadas como meras figurantes às quais se atribuem tarefas rotineiras, sem qualquer participação significativa nas decisões estruturais da Igreja.

Um exame mais detido destas organizações e grupos que reivindicam urgentes mudanças das –nas estruturas organizativas vigentes, permite-nos conhecer os principais pontos de suas reivindicações.

Todas elas partem de um argumento incontestável, o de seu direito de na condição de batizados – ainda há pouco tempo o Papa Francisco se referia ao batismo como “o primeiro sacramento da fé” (E não o da Ordem) -, participarem nas decisões organizativas da Igreja, fazendo jus ao que a Evangelii Gaudium, exortação programática do Papa Francisco dispõe sobre a centralidade do povo de Deus, e não da hierarquia, na estrutura organizativa Eclesial. Com efeito, a despeito de sua inconsistência doutrinal, tem prevalecido, na pratica, o entendimento de que não é o Batismo, mas a Ordem o principal dos sacramentos. Com base neste e noutros fundamentos, estas mesmas organizações, espalhadas por diferentes continentes vêm avançando no aprofundamento de suas propostas de renovação. Não se trata de poucas organizações. Uma lista confiável dá notícias de centenas, conforme se pode verificar pelo acesso ao “link”
http://www.catholicchurchreform.com/reformGroups.html

É compreensível a multiplicidade de reivindicações propugnadas por estas organizações e movimentos. Todavia, convém sublinhar algumas dessas principais reivindicações. Uma delas tem a ver com a necessidade de respeitar o direito do conjunto dos membros da Igreja – e não apenas da hierarquia – de participar das decisões centrais da Igreja. Para tanto, insistem na condição comum de igualdade recebida pela conjunto dos batizados e batizadas, sendo o Batismo o primeiro dos Sacramentos.

Outro ponto axial reclamado por várias destas organizações corresponde ao respeito da igualdade dos filhos e filhas de Deus, de responderem ao Seu chamado. Isto significa o reconhecimento efetivo de que, de um modo ou de outro, Deus chama a cada um, a cada uma, ao cumprimento de sua vocação para os mais diversos ministérios, ordenados e não ordenados, do que resulta inadmissível o privilégio dos varões aos ministérios ordenados. Neste sentido, soaria como uma exclusão – e, por tanto, uma discriminação sem base evangélica – das mulheres vocacionadas também ao exercício de algum ministério ordenado (Diaconado, presbiterado, bispado), de exercerem sua vocação, donde Deus.

Por outro lado, já não é mais razoável a exigência do celibato ou do casamento para o exercício de qualquer ministério – eis mais uma reivindicação, dentre tantas outras. Há um clamor contra o modo verticalista de gestão eclesial, simplesmente por não corresponder ao espirito evangélico de partilha e comunhão, tão característico das comunidades cristãs primitivas e do Movimento de Jesus. Este se faz em pequenas comunidades, em pequenos núcleos (Do campo e da cidade), nos quais seus integrantes são chamados á partilha de bens materiais e espirituais, à inter-ajuda, a solidariedade, estimulando-se o protagonismo de todos, inclusive nas decisões. Núcleos que não atuam isoladamente, mas conectados, configurando uma unidade na diversidade.

3. Dos esforços por reformas das estruturas eclesiásticas, em busca do que nos inspira o Espírito do Ressuscitado e do Seu Movimento… Sinais do que já anda acontecendo…

A despeito de um triste saldo global dos frutos das experiências de reformas, ressalvadas fecundas exceções, não devemos perder de vista alguns avanços pontuais, a serem consolidados e ampliados, na perspectiva da retomada ou do reavivamento da Tradição de Jesus. Não se trata de negar a importância dos esforços de reformas, mas, antes, de focar frutuosas experiências, de renovação alcançadas, e ousarmos dar passos mais audaciosos, cuidando de articular organicamente os esforços de reformas a iniciativas concretas já em curso, correspondendo ao espírito da Tradição de Jesus.

Nesse sentido, tratemos de reavivar nossa memória em relação a alguns sinais emitidos por experiências de comunidades cristãs e de figuras profético-pastorais – mulheres e homens – que, por seus gestos, palavras e escritos, se acham prenhes de sinais da Tradição de Jesus, a fazer-se presente mais em forma de um movimento – o Movimento de Jesus, das discípulas e discípulos de Jesus do que sob a forma de estruturas de poder.

Sem pretensão de copiar belas experiências do passado recente ou remoto, mas com o propósito de recolher delas seu espírito inovador e fiel ao que o Espírito Santo as chama a viver e testemunhar, ontem e hoje, cuidemos de destacar, de passagem, algumas dessas experiências. Como não nos entusiasmar com o jeito organizativo assumido pelas comunidades cristãs primitivas, sempre numa dimensão de movimento? Aqui se atua em pequenas comunidades de iguais, de irmãs e irmãos a partilharem o pão da Palavra e da Vida, em celebrações, em que todas, todos se sentiam convidados a participar. Pequenas comunidades constantemente em ação e reflexão, conectadas entre si e com o mundo, do qual se punham servidoras, para além de suas tantas limitações. Séculos depois, quando densas eram as trevas lançadas pelas estruturas eclesiásticas de poder, eis que o Espírito inspira pessoas e grupos. Como não nos emocionarmos com o conhecido sonho de Francisco de Assis, chamado a ajudar a reconstruir, não a igrejinha de São Damião, como a princípio interpretara, mas a Igreja viva de mulheres e homens do seu tempo, oprimidos pelos práticas antievangélicas da grande hierarquia da época? Como não nos sentimos positivamente provocados pelo testemunho dos movimentos pauperísticos da Idade Média? Como não reaprender do testemunho das Beguinas?

Mais recentemente, temos a rememorar tantas experiências fecundas, que se dão sobretudo nas “correntezas subterrâneas”. Com efeito, como ficarmos indiferentes à experiência dos padres operários? Como não reconhecer o alcance da Ação Católica especializada (JAC, JEC, JIC, JOC e JUC? Como não compreender o profundo alcance do “Pacto das Catacumbas”, inicialmente firmado por quarenta participantes, nos arredores de Roma, em 16 de novembro de 1965, pouco antes do encerramento do Concílio Vaticano II?
Como subestimar o marco representado pela Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (Colômbia, 1968)? Como esquecer as sementes plantadas pelo Movimento Sacerdotes para o Terceiro Mundo? Como não valorizar o que representaram (e, em menor escala, seguem representando) as Pequenas Comunidades de Religiosas Inseridas no Meio Popular – as PCIs? Como não reconhecer o impacto renovador de experiências como as CEBs, o CEBI, várias Pastorais Sociais e serviços e associações (Cáritas, Comissão de Justiça e Paz, Centros de Defesa dos Direitos Humanos? Como não reconhecer o impulso missionário junto aos pobres exercido por várias associações leigas de missionárias e missionários, no campo e nas periferias urbanas? Como não valorizar fecundas experiências ecumênicas, espalhadas pelo mundo, para além inclusive das Igrejas cristãs componentes do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristrãs?

Ao lado dessas e tantas outras fecundas iniciativas comunitárias, no meio popular, convém ainda reconhecer a relevância de muitas figuras profético-pastorais – mulheres e homens – que animam, com seu testemunho, aquelas experiências grávidas dos valores da Tradição de Jesus. Lembremos, de passagem, algumas delas, começando pelo próprio Bispo de Roma. Além dos exemplos acima mencionados, destaquemos mais um: Seu papel inovador no chamamento de católicos e de outros cristãos, no sentido de se abrirem para um enfretamento comum dos desafios de toda a humanidade, chamamento expresso por seu insistente convite a todos, a uma “saída em missão”, fazendo questão de declarar que prefere uma Igreja que se arranhe por estar a caminho, a uma Igreja que adoeça por fechar-se em ambientes enclausurados. Seus escritos, inclusive, também atestam esta inquietação, haja vista sua iniciativa de, por meio da Laudato sì, convocar todos os seres humanosa a cuidarem de nossa “Casa comum”.

Outra figura emblemática a ser rememorada, na perspectiva do Movimento de Jesus, é a do Cardeal Carlo Maria Martini, cujo testamento aqui retomamos, destacando alguns de seus pontos axiais:

-“A Igreja está cansada, na Europa do bem-estar e na América. Nossa cultura envelheceu, nossas igrejas são grandes, nossas casas religiosas estão vazias e o aparato burocrático da Igreja a contamina, os nossos ritos e as nossas vestimentas são pomposos.”;
– “Nós nos encontramos como aquele jovem rico que foi embora triste, quando Jesus o chamou para fazê-lo tornar-se seu discípulo.”;
– “Sei que não podemos deixar tudo, facilmente. Assim, tampouco podemos ir em busca de homens que sejam livres e estejam mais perto do próximo. Como foi o Bispo Romero e os Mártires jesuítas de El Salvador. Onde entre nós estão os heróis em quem nos inspirar? Por nenhuma razão devemos limitá-los com os vínculos da instituição.”;
– “Eu vejo na Igreja de hoje tanta cinza sobre as brasas, que às vezes me assalta um sentimento de impotência. Como se pode retirar a cinza de cima das brasas? Em primeiro lugar, devemos buscar essas brasas. Onde se acham as pessoas cheias de generosidade como o bom samaritano? Que têm fé como o centurião romano? Que são entusiasmados como João Batista? Que ousam o novo como Paulo? Que são fiéis como Maria Madalena?”;
– “Eu aconselho o Papa e os bispos a buscarem doze pessoas fora das estruturas, para postos de coordenação. Homens que estejam próximos dos mais pobres, que estejam cercados de jovens e que experimentem cosias novas. Precisamos encontrar homens que sejam ardorosos, de modo que o Espírito possa difundir-se por toda a parte.”

Ao mesmo tempo urge reconhecer a enorme contribuição de teólogos e, sobretudo, teólogas, na indicação e no aprofundamento de questões-chave para os nossos dias. Sem esquecermos – mas, antes, instigados por eles – o denso legado de figuras tais como José Comblin, Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo, Jon Sobrino, Leonardo Boff, José Vigil, Pablo Richard, Eduardo Hoornaert, José Oscar Beozzo, José Antonio Pagola, Juan José Tamayo, Alberto Maggi, Sebastião Armando Soares, Marcelo Barros (para mencionar apenas alguns, quase todos de confissão católica) entre tantos outros, importa reconhecer e valorizar, à altura de sua qualiade, o legado de muitas mulheres teólogas, pela qualidade inventiva de suas contribuições. Dentre elas, destacamos, na atualidade: Elisabeth Schüssler Fiorenza, Ivone Gebara, Teresa Forcabes, Rosanna Virgili, dentre tantas outras.

Essas e tantas outras experiências em busca de reavivamento da Tradição de Jesus, também, se expressam em múltiplas iniciativas de várias Igrejas cristãs, espalhadas pelo mundo, representadas em parte, na lista acima mencionada de grupos e movimentos clamando por renovação. E, assim, vamos dando passos, nessa direção, sempre atentos, não apenas ao conteúdo de nossas práticas, mas igualmente tocados pelo jeito de caminhar, à semelhlança do que tantas vezes escutamos ou lemos, nessas “correntezas subterrâneas”: “Gente simples, fazendo coisas pequenas, em lugares pouco importantes, consegue mudanças extraordinárias”…

João Pessoa, 31 de março de 2017.

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