Diakonia na cidade

Na escatologia cristã, a cidade ocupa um lugar central. Sabemos desde o início do século XX que o eixo da toda a revelação cristã é a escatologia. Tudo se vincula com ela e a escatologia constitui a referência de todos os tratados da teologia cristã: a doutrina sobre Deus, Cristo, o Espírito Santo, a Igreja, o homem e o seu destino, tudo é visto a partir da escatologia.

A escatologia cristã alcança a sua formulação mais ampla no Apocalipse de João. O profeta cristão mostra como a história culmina no confronto crescente entre duas cidades, Babilônia e a nova Jerusalém, sendo a antiga Jerusalém o lugar da luta entre as duas cidades. Para João, Babilônia está encarnada em Roma. Roma é o centro de tudo o que se opõe a Deus. É o lugar da dominação, do orgulho, da afirmação da criatura que se torna um deus rival do verdadeiro, é a opressão dos pobres, a cidade que mata os mártires, que são as testemunhas de Jesus Cristo.

Onde está Babilônia hoje em dia? Podemos dizer que está em parte em todas as nossas cidades no mundo inteiro, porque todas manifestam alguns dos seus atributos. No entanto não podemos fechar os olhos e deixar de ver que Babilônia está com mais intensidade lá mesmo onde se produz a maior concentração de orgulho, de dominação e de violência para com os pobres. Não diremos que tudo em Nova Yorque ou em Washington é Babilônia porque há valores humanos autênticos mesmo nessas cidades que tanto poder de fascinação exercem sobre o mundo inteiro hoje em dia. A cidade de Babilônia também está em construção e não alcançou a sua forma completa em nenhuma cidade do mundo atual. No entanto, há lugares do mundo que mais se aproximam do modelo de Babilônia.

Lembremo-nos de que Babilônia era Roma para os primeiros cristãos. Não era uma pura abstração ou um modelo ideal. Era uma cidade bem concreta. Hoje em dia também, Babilônia está em realidades bem concretas. Não deixa de ser significativo que há na atualidade nos Estados Unidos autores que ensinam que já está na hora de os Estados Unidos assumirem a sua vocação histórica, tomarem o lugar de Roma e renovar a vocação de Roma, que é vocação de conduzir o mundo inteiro, impondo a paz universal graças ao seu poder quase ilimitado.

Já que a Babilônia toma desde já feições concretas, podemos assinalar alguns lugares nos quais se pode mais claramente identificar os lugares em que a presença de Babilônia se torna mais evidente: Wall Street, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Pentágono, a Organização Mundial de Comércio (OMC). Não há dúvida de que desde ali se exerce a maior afirmação de orgulho na humanidade atual e a maior concentração de forças que jamais existiu. Estas forças exploram a humanidade inteira e exigem dela as provas da adoração numa subordinação completa. Quando chega a um país um representante do FMI, como muitas vezes sucede na América Latina com a sra. Ann Kruger, não há dúvida: o Satanás está chegando ao nosso país: chega com bilhões de dólares, mas com a exigência de adorar a Besta.

E a nova Jerusalém, onde está? Ainda está nos céus e será manifestada no final dos tempos. Mas ela já está presente em forma inicial, principiante, ainda fraca e quase clandestina, escondida dentro da comunidade das testemunhas de Jesus. Estes são os que dão testemunho na terra seguindo o caminho de Jesus, caminhando para o martírio, mas com a certeza de que já estão na nova Jerusalém.

O que é a cidade da nova Jerusalém? O que é que a caracteriza e a distingue da Babilônia? A nova Jerusalém é a cidade do povo de Deus. Ali o que se manifesta não é o poder e sim o povo: “Eis a morada de Deus com eles. Eles serão o seu povo e ele será o Deus que está com eles (Ez 37,27)” (Ap 21,3).

Este é o núcleo central da revelação cristã sobre a cidade: a cidade é morada de um povo, do povo de Deus. Na cidade, Deus e o povo são uma realidade só. Deus está dentro do seu povo. Por isso, aliás, não há nenhum templo na cidade. Se houvesse templo como morada de Deus seria sinal de distancia entre Deus e o povo. Não há templo porque Deus está dentro do povo, como o esposo e a esposa são um.

A realidade da nova Jerusalém não está no poder, na dominação, mas no povo que não é nem poder nem dominação. Não vou repetir aqui tudo o que escrevi sobre esse povo de Deus no meu último livro publicado pela Paulus. A cidade está centrada no povo, a serviço do povo, conjunto das condições materiais e culturais para sustentar a vida do povo de Deus.

A cidade da nova Jerusalém é cidade de Deus. O que quer dizer cidade de Deus? É uma cidade em que Deus está presente e que se enche da presença de Deus. Deus é liberdade e essa liberdade tem como efeito o deixar-existir de toda uma criação. A presença de um Deus livre faz com que exista a criação. Se Deus está na cidade, isto significa que ele é quem faz subsistir a cidade. Ele não se diz presente em cada indivíduo isolado, mas na cidade. A presença de Deus na cidade significa que ele está ativo produzindo liberdade e vida em cada pessoa relacionada com as demais. Deus é quem constrói ou, melhor dito, deixa construir a cidade como sistema de laços entre os habitantes, cada um relacionando-se com os outros no sentido de dar-lhes vida e liberdade. Deus está presente no conjunto de ações pelas quais cada habitante dá vida aos outros e desperta a sua liberdade. A cidade está aí para multiplicar os contatos e as relações e fazer com que essas relações sejam de serviço mútuo, de dedicação de cada um à vida e à liberdade dos outros.

O que é que o conceito de cidade acrescenta ao conceito de povo? Fundamentalmente nada, mas destaca um aspecto: um povo precisa de um suporte material, histórico, de um espaço e de uma história. Tudo isso está numa cidade. A cidade é todo o mundo material, o cosmos condensado num lugar de tal modo que as pessoas possam estar juntas e agir umas sobre as outras. Sem cidade o povo ficaria no ar, numa indefinição, no mundo das idéias e não na realidade. Pois, o povo de Deus é realidade corporal, material e não é feita somente de puros espíritos isolados do mundo material. O povo de Deus reúne-se corporalmente e comunica mediante o corpo. Esta é a cidade. Na cidade os corpos estão reunidos. Se os homens fossem puras idéias ou espíritos poderiam comunicar por Internet que é como uma antecipação de uma falsa cidade. O problema de Internet é que poderia pôr em perigo a cidade. Ora, a prioridade da história humana é o crescimento de uma verdadeira cidade, na qual estaria uma imagem cada vez mais aproximativa da nova Jerusalém.

Na escatologia cristã o povo de Deus caminha neste mundo, construindo a imagem do seu destino final. Durante séculos o cristianismo sofreu uma deformação terrível. Ensinaram que os cristãos deviam olhar somente para a realização final, o céu. E para alcançar o céu, era preciso usar os meios que as Igrejas colocavam à disposição dos seus fiéis. Esses meios eram realidades criadas, objetos, ritos, atos, comportamentos. Por exemplo, era preciso ser batizado porque Jesus e a Igreja mandam. Em si ninguém se importava por saber qual era a relação entre o batismo e a cidade nova de Jerusalém. O batismo tinha o seu valor em si mesmo. Da mesma maneira tudo o que as Igrejas oferecem, é alheio à vida da cidade. São símbolos ou realidades materiais exteriores à caminhada do povo de Deus. Os cristãos entendiam isso como necessidade de submissão da sua vontade à vontade de Deus. Achavam que fosse um sacrifício oferecido com agrado graças à promessa de vida eterna que seria a recompensa da sua fidelidade.

Se os Reformadores ensinaram que somente a fé salva, os seus sucessores bem depressa deram a entender que para se salvar era preciso fazer o que a Igreja mandava. Entendendo no sentido popular, o que salva é a obediência, disposição em si alheia à construção da cidade de Deus, expressão do extrincesismo típico do cristianismo dos últimos séculos e causa da imensa apostasia das elites e das massas.

Na escatologia cristã a cidade de Deus está presente, nascendo nas construções das suas imagens aqui na terra. O que salva é a caminhada do povo de Deus para o seu destino final, a marcha da cidade até a sua plena realização. Não sucede assim como se a caminhada atual fosse merecer a entrada na nova Jerusalém. Já é a nova Jerusalém. Quem caminha nela, já pertence à cidade e não precisa entrar mais uma vez nela. Pois o que fica, o que permanece desta vida, é o amor e o amor é a construção da cidade. O resto é passageiro, transitório. Claro está que o que subsiste não são as cidades materiais, mas o amor que construiu essas cidades e que se viveu nelas.
Dentro deste contexto é que devemos estudar a diakonia na cidade.

A luta contra o individualismo

O individualismo alcançou uma dimensão desconhecida até agora na história da humanidade Desde as origens, o capitalismo foi um poderoso fator de individualismo, o mais poderoso sem dúvida. No entanto, nunca tinha chegado à profundidade que alcançou desde o estabelecimento do neoliberalismo como norma para as nações, como sucedeu a partir da década dos 80. Quem não está convencido ainda, que leia o último livro do grande ideólogo do neoliberalismo, primeiro promotor do seu culto, Francis Fukuyama.4
As cidades, sobretudo as cidades novas ou os novos bairros das cidades mais antigas constituem uma excelente imagem do individualismo. A rua, que era lugar de encontro e de contacto, desaparece, sendo substituída pelo autopista que penetra cada vez mais nas cidades, imitando o famoso modelo de Los Angeles. As moradias são apartamentos dentro de imensos edifícios. Cada um busca o seu carro na garagem subterrânea e se dirige ao seu destino sem ter que conversar com ninguém, sem ter que olhar ninguém. Basta apertar alguns botões. A moradia é feita para evitar qualquer contato humano.

No trabalho vigoram as leis da competitividade. O ritmo é tal que não é possível ter contatos humanos com aqueles que trabalham na mesma empresa. As compras fazem-se em supermercados anônimos que excluem qualquer relação humana. O comércio é cada vez mais automatizado. Da mesma maneira os serviços bancários são automatizados e não permitem nenhuma conversa. O horário de trabalho, estudo, formação, diversão, esporte, exercícios físicos é tão apertado que não sobra tempo para conversar nem sequer na família e as refeições são também exercícios solitários. São milhares comendo juntos no mesmo refeitório, mas sem tempo para conversar ou criar relações sociais. Todos os progressos tecnológicos têm por resultado um maior isolamento do sujeito e a substituição do tempo de relação humana por relações de produtividade.

Cada um tem o seu carro, o seu telefone, o seu televisor, e last but not least o seu computador. Graças a Internet o sujeito relaciona-se somente com fantasmas, seres virtuais sem contatos humanos. Há pessoas que podem fazer todo o seu trabalho em casa diante do computador, fazendo compras pelo computador, relacionando-se com milhares de empresas por computador, mas sem achar quinze minutos na semana para conversar com uma pessoa.

Claro está que tal sistema pode funcionar perfeitamente nos Estados Unidos, onde todos devem levar o sistema à sério. No Brasil subsiste a lei da avacalhação universal e ninguém respeita as regras de modo perfeito. Abrem-se brechas dentro do tecido do sistema. Assim mesmo o sistema não deixa de produzir efeitos desastrosos.

Contatos humanos superficiais não faltam: no metrô, no ônibus, nas filas do supermercado, do cinema, do estádio, na vizinhança com milhares nos estádios, nos shopping centers, nos supermercados, na universidade, etc. Sempre contatos superficiais, sem conteúdo, de comunicação prática, informal. Não se cria uma relação humana em profundidade nem sequer entre pais e filhos, entre colegas, entre vizinhos, nem sequer entre membros da mesma igreja. Existem meios materiais de multiplicar as relações humanas, mas os meios são usados para a maior produtividade.
No sistema neoliberal o que vale é o lucro, a vantagem financeira ou física ou psicológica que se busca. Nada é gratuito. Desaparece a gratuidade. Ninguém faz nada sem lucro. Tudo se faz por dinheiro. Não há mais relação que não se possa expressar em dólares. O dinheiro é o símbolo da sociedade, ou, melhor dito, da falta de solidariedade gerada por esse tipo de sociedade.

De certo modo podemos dizer que felizes são os povos, os setores, os homens e mulheres subdesenvolvidos porque ainda não são integrados no sistema. É verdade que são excluídos, mas assim mesmo estão numa sociedade em que há relações humanas. Há mais humanidade numa favela do que nos bairros residenciais perfeitamente integrados na sociedade atual mais avançada. Diante desta situação podemos dizer que o maior serviço, a melhor diakonia consiste em refazer laços humanos, refazer sociedades humanas, refazer relações horizontais e gratuitas. A melhor diakonia é recriar um mundo de gratuidade: fazer com que haja mais serviços gratuitos. São os serviços voluntários. Existem e crescem em certos setores. Tudo o que é gratuito, humaniza as pessoas que atuam gratuitamente. Os primeiros beneficiários não são os que recebem, mas os que oferecem.

Nunca desapareceram os serviços gratuitos, mas eram feitos com vergonha, como se alguém tivesse que se justificar por não ganhar dinheiro. Qualquer serviço gratuito valoriza a pessoa que o realiza.

Pois, o serviço gratuito estabelece relação humana desinteressada. Não se trata de se tornar escravo de outros, mas de restaurar relações horizontais de reciprocidade. Qualquer relação de reciprocidade, ou seja como se dizia outrora de amizade, valoriza, humaniza. Pode tratar-se de relações de uma pessoa com uma, de muitas com muitas, não importa.

Com certeza há alguns espaços da vida contemporânea que serão doravante vazias de comunicação humana, puramente automáticas. Mas é possível abrir espaços em que se multiplicam as comunicações horizontais.

Às vezes podemos inclusive descobrir que dentro da própria Igreja as relações pessoais desaparecem e que as igrejas também se transformam em agencias de distribuição automática de serviços nem sempre gratuitos. As antigas relações humanas desaparecem, substituídas por tecnológicas psicológicas ou psico-sociais que supostamente fabricam felicidade, otimismo, bem-estar, numa palavra, salvação individual. São técnicas de criação de felicidade individual. Há uma imensa literatura sobre esse assunto. Muitas pessoas acham que podem construir-se uma felicidade seguindo receitas individuais, quando a felicidade se acha nos laços livres, autônomos, múltiplos com outros.

As próprias Igrejas podem ser redes de comunicação entre pessoas, unidas pelo que têm de mais profundo que é a fé, a esperança e o amor, em lugar de oferecer receitas de pseudobem-estar mental ou psicológico. A diakonia dentro das próprias Igrejas terá por objeto criar ou desenvolver relações horizontais, grupos formados de irmãos e irmãs iguais que se ajudam mutuamente. No mundo atual isto é particularmente difícil.

Entre os pobres, além das relações de vizinhança que são espontâneas, é necessário promover associações com objeto mais definido. Pois os pobres não podem salvar-se sozinhos ou esperando uma ajuda caída do céu ou oferecida com motivos interessados por um político. Para conquistar e defender direitos, precisam aprender a atuar em conjunto, em colaboração. Esta aprendizagem é justamente o que humaniza, desenvolve a inteligência e a capacidade de agir. A sociedade não lhes fornece muitas entradas. Eles têm que criar entradas por si próprios.

Não é fácil aparecer grupos espontâneos no meio dos pobres sem que alguém tome a iniciativa e tenha todo o trabalho de formar a associação entre pessoas que não foram educadas para isso, inclusive que não receberam nenhuma educação que lhes ensine a agir dentro da sociedade em que vivem. Quem vai dedicar livremente o seu tempo, a sua energia, a sua paciência para ajudar os pobres e excluídos a promover-se humanamente lutando por uma vida melhor?

Há uma multidão de instituições governamentais ou não governamentais que pretendem assumir essa função. Quase sempre elas são um desastre, porque os seus funcionários são mercenários. Fazem isso como profissão, sem a força de convicção que consegue realmente despertar as energias dos excluídos. Precisa de algo mais.

Faz 50 anos que inúmeras instituições, inúmeras organizações, inúmeros projetos se dedicam à alfabetização de adultos. Depois de 50 anos estamos ainda ante o desafio de alfabetização de adultos e, se tudo continua do mesmo jeito, daqui a 50 anos ainda subsistirá o mesmo desafio. Falta a convicção que faria com que os pobres realmente quisessem aprender. Não aprendem porque não são convencidos de que devem aprender. Quem está convencido de que deve aprender, aprende. Mas quem dará essa convicção ?

Neste mundo dedicado ao individualismo, as formas mais simples de associação constituem problemas insuperáveis. Por isso somente a força do Espírito pode gerar uma ação eficaz.

A diakonia política

Se a democracia funcionasse, não haveria necessidade de diakonia política. Se as cidades estivessem governadas ou administradas democraticamente e se as instituições funcionassem corretamente, não haveria espaço para a diakonia. Esta intervém exatamente nos espaços em que a democracia não funciona. De modo geral podemos dizer que não funciona quando se trata da relação entre pobres e ricos, fracos e poderosos. Então as instituições ditas democráticas são desviadas, manipuladas, distorcidas.

Os ricos podem pagar bons advogados que sempre conseguem um hábeas corpus, uma libertação condicional, um regime privilegiado. Os pobres muitas vezes não têm advogados e podem passar anos na cadeia sem sequer ser julgados. Estão ali como esquecidos.

Os juizes não aplicam as leis com o mesmo rigor no caso dos pobres ou dos ricos. Um homicídio cometido por um rico encontrará facilmente circunstâncias atenuantes, desculpas, interpretações benévolas. Para um homicídio cometido por um pobre sem a proteção de um patrão rico, vigora toda a severidade da lei.
As leis são sempre feitas com a possibilidade de abrir uma porta para não cumpri-las quando uma empresa ou um particular pode contar com um bom advogado que sabe justamente quais são as brechas que permitem não obedecer às leis.

Os ricos não pagam impostos. Esta é uma regra sagrada. É uma questão de honra. Os ricos têm direito a todas as regalias, mas nunca pagam. Tudo lhes é devido. Eles nunca devem. Então todo o peso dos impostos cai encima dos pobres.

Nos casos de corrupção, a impunidade está quase garantida, salvo quando os políticos decidem sacrificar um deles para dar satisfação à opinião pública. É o boi dado às piranhas para que todos os outros possam passar.

Não é preciso ter muita experiência para poder evocar muitos casos. Então pode um cristão afastar os olhos, fingir que não sabe nada como fazem os outros, fingir que as instituições praticam a justiça?

A diakonia é necessária porque a democracia funciona para favorecer os poderosos e sacrificar os fracos. Está ali para restabelecer uma certa igualdade acrescentando a sua força à fraqueza das vítimas da injustiça institucionalizada.

Esta diakonia toma diversas formas: assistência jurídica às vitimas de situações injustas, por exemplo, a situação de camponeses sem terra que querem a expropriação de uma terra não produtiva. Assistência jurídica a camponeses presos arbitrariamente por ordem dos proprietários. Assistência jurídica a posseiros expulsos da terra em que trabalhavam desde tempos imemoriais. Assistência jurídica a desempregados expulsos do seu trabalho sem atender às leis sociais. Assistência jurídica a grevistas. Assistência jurídica a presos torturados nas delegacias ou nos presídios.

A diakonia poder ser educação dos eleitores para que sejam capazes de usar os seus direitos: descobrir os casos de corrupção, malversação de fundos, desvio de verbas e outras manobras do poder executivo. Formação dos cidadãos para conhecer, fiscalizar e mover os seus representantes que foram eleitos para ser representantes do povo e somente representam os interesses da sua classe.
Numa palavra a diakonia será aqui a educação para a cidadania. Não adianta ter instituições democráticas se a maioria dos cidadãos nem sequer sabe como funcionam, porque não sabem quais são os direitos do cidadão, ou porque vivem num medo de tudo o que é autoridade, ou por inércia, preguiça, covardia.

Diakonia no trabalho

A democracia existe formalmente na vida política, mas ela ainda não existe nem sequer formalmente na vida econômica, no funcionamento das empresas. A participação dos trabalhadores à vida e ao funcionamento da empresa ainda é um sonho. No entanto, diante da arbitrariedade das decisões tomadas pela direção ou pelos acionistas, os trabalhadores devem ter os seus direitos respeitados. Como sempre destacou a doutrina cristã, uma empresa não pode ser apenas um meio para ganhar dinheiro, mas ela é uma comunidade de pessoas humanas, de trabalhadores, cada um no seu nível, mas todos colaborando para que a empresa funcione e preste serviços à grande comunidade nacional ou humana em geral.

Há diversas maneiras de realizar a participação dos trabalhadores na empresa. No meio do triunfo neoliberal que postula que a vida econômica deve ser automática, regulada pelo mercado que nunca erra, os trabalhadores estão numa situação difícil. São vítimas de uma campanha de chantagem permanente. Se alguma coisa não funciona na economia, a culpa sempre é dos trabalhadores que exigem demais. Intimidados pela chantagem dos patrões, os trabalhadores estão desanimados, curvam a cabeça e alimentam o rancor contra a sociedade que os maltrata dessa maneira.

Por isso, a melhor diakonia consiste em organizar os trabalhadores em todos os níveis para que recebam na economia a voz que devem ter. Quem se arrisca nesse setor, se expõe às represálias dos poderes econômicos. Quem assim se sacrifica pelo bem dos trabalhadores ficará marcado para sempre: será para sempre um agitador político, um elemento subversivo fichado em todos os registros das empresas. Esta é uma diakonia heróica. Nem sequer poderá contar com a ajuda dos próprios trabalhadores na hora do perigo. Fará a experiência de que na economia não existe democracia, nem direitos humanos, nem dignidade humana. Na economia reina a lei da selva e os leões são os donos da terra.

Os donos do capital fazem tudo o que podem para impedir a associação dos trabalhadores ainda que ela esteja inscrita na Constituição “para inglês ver”. Nenhuma lei aplica a Constituição que permanece como puro monumento sem eficácia. Os donos querem um contrato individual com cada trabalhador para que este esteja desprovido de qualquer poder e tenha que se submeter a tudo o que o patrão quer. Esta é uma diakonia para heróis. Não é para todos os cristãos.

Diakonia na vida cultural

Na cultura atual, o mercado domina a cultura. Trata-se de fazer de todos os cidadãos consumidores de cultura. A televisão e agora Internet são os auxiliares mais eficazes. Graças a eles, o telespectador consome horas de espetáculos. É consumidor de esporte, de concursos, de jogos, de informações sobretudo sobre os crimes e todo o setor policial da vida. Sempre será informado se a polícia descobriu alguns quilos de cocaína, ou se houve seqüestro, assalto, tiroteio com a polícia. O consumidor é louco por tais noticiários. É uma delícia para ele.

O telespectador é consumidor de música, de imagens, de receitas esotéricas parta a saúde, o bem-estar, o equilíbrio psicológico. Esse consumo de cultura é individual, não põe as pessoas em relação com outras. Não produz cultura o que seria entrar em comunicação com outros. A indústria da mídia produz cultura, uma cultura de massa, preferentemente medíocre e vulgar porque é que mais chama a atenção do público.

A cultura tomada ativamente, ou seja, a produção de cultura, seja pelas artes, seja pelo esporte, seja pelos artesanatos, seja pela comunicação da palavra, cria relacionamento humano, cria intercâmbio, troca, enriquecimento mútuo porque há comunicação de pessoas mediante os objetos, materiais ou simbólicos.

Sucede que as crianças aprendem cedo a consumir passivamente uma cultura feita para elas, para estimular a atividade mais fácil, aquela que exige o menor esforço. As crianças não são estimuladas para produzir cultura. Se receberem estímulo, será para fazer da cultura um meio de fazer dinheiro. Fazer cultura é aprender para ser campeão, para ganhar do jogo, para produzir objetos que se vendem e valem muito no mercado, não é pelo bem da cultura em si, não é simplesmente para compartilhar com outros a beleza da criação e do espírito humano que leva a criação à sua maior perfeição.

Diakonia é estimular a fazer cultura pelo simples prazer de modo desinteressado, para oferecer a outros gratuitamente, para expressar um desejo, um projeto, uma aspiração a uma comunhão de pessoas no amor mútuo. A sociedade deveria fazer isso. Em outros tempos, isso acontecia espontaneamente, por exemplo, nas tribos indígenas. Mas com a cultura do dinheiro, somente merece estímulo o que dá dinheiro e somente é apreciado o que tem valor monetário.

Para concluir esta parte, podemos dizer que a diakonia consiste em refazer uma vida comunitária numa sociedade que se empenhou em destruir toda comunidade para que o indivíduo se dedicasse totalmente ao mercado. Com isso, desumanizou os trabalhadores e deixou fora da vida social todos os que eram “inempregáveis”, que não tinham as capacidades necessárias que permitem o acesso ao mercado. Há multidões que são excluídos do mercado do trabalho e, por conseguinte, de todos os mercados.

Os serviços assistenciais

Há situações ou circunstâncias que exigem obras de salvação imediata. Há casos que precisam ser socorridos imediatamente. O mais urgente é a fome ou a sede. Desde cedo, as comunidades cristãs organizaram distribuições de pão aos famintos. Quando se desorganizou o Império Romano, muitas cidades ficaram praticamente sem governo e os bispos tiveram que assumir a distribuição de pão.
Esta distribuição de pão ainda é de suma atualidade, porque há milhões de pessoas que precisam comer e não podem comprar alimentos. De fato em muitos lugares há distribuição de pão ou de sopa ou de alimentos em geral. Podemos perguntar-nos como é possível que, num mundo que produz alimentos demais, o problema econômico seja o que fazer com tudo o que sobra. Mas a situação é assim. Não faltam alimentos no mundo e poderiam produzir o dobro de alimentos, mas falta dinheiro para comprar os alimentos. Em casos extremos, as autoridades civis organizam distribuição, por exemplo, de cestas básicas, mas isto se faz somente nos casos de desastre extenso, não na vida habitual em que os casos são numerosos. De fato as Igrejas cristãs ainda distribuem alimentos.
O problema da sede existe também. No sertão a sede é freqüentemente um problema. Falta água até para beber. No Nordeste ainda é lembrado o fato de padre Ibiapina, missionário do século XIX que estava na casa de caridade de Santa Fé (PB) no tempo da grande seca de 74 e seguintes.5 Ainda havia um pouco de água para os 200 habitantes da Casa de Caridade. Mas vinham do mais profundo do sertão milhares de flagelados pedindo água para beber. Disseram ao padre Ibiapina que, se desse água a todos os que pediam, não sobraria mais para a casa. Ele disse: Não vamos recusar água para ninguém. Se for preciso morreremos todos de sede com eles. Veio a chuva antes de que se esgotassem as reservas. Mais recentemente, na década dos 90, o velho mons. Expedito Medeiros de São Paulo de Potengi (RN) conseguiu pela sua insistência incansável que todas as autoridades do Rio Grande do Norte se unissem para construir uma rede de milhares de km de adutoras de água boa para o sertão. Antes disso havia apenas a água suja e contaminada distribuída pelos carros-pipa, e assim mesmo de maneira precária e irregular. Dar água aos que têm sede é obra de diakonia. Seria responsabilidade dos governos, mas estes não se movem até que vozes proféticas se levantem para exigir uma ação solidária.

Há pessoas incapacitadas por deficiências físicas ou mentais e que precisam de ajuda permanente. Em outros tempos as famílias assumiam os seus membros deficientes. Na cidade, as famílias perdem capacidade: de assumir muitos serviços: casas pequenas, obrigação de sair de casa para trabalhar, falta de recursos para sustentar uma pessoa deficiente. Algumas famílias ainda assumem com grandes sacrifícios. Nas outras, essas pessoas ficam abandonados.

Em princípio, o governo municipal assume a vida dos deficientes físicos ou mentais como serviço social. De fato existem muitos centros de acolhimento ou reabilitação de deficientes, manicômios para deficientes mentais, escolas e serviços para cegos, surdos e mudos, paralisados, e muitas outras deficiências. São serviços públicos que exigem dos seus funcionários muita dedicação, muito amor e muito carinho. Tudo depende do ambiente e das pessoas que criam o ambiente nessas instituições.

Sucede que sempre aparecem novas doenças, novas deficiências, novos problemas sociais. Há os meninos da rua, os moradores da rua, os drogados, os alcoólicos, os aidéticos, os antissociais. No início ainda não há serviços públicos organizados.

Da mesma maneira há desastres naturais, enchentes, terremotos, secas, incêndios, ou desastres provocados como guerras. Tudo isso supõe uma intervenção imediata, um serviço voluntário imediato antes de que possam intervir os serviços públicos.

Na idade média, a Igreja assumia uma infinidade de obras de assistência. Numa sociedade que se dizia totalmente cristã, foram instituições eclesiásticas que tomaram conta das misérias, sobretudo nas cidades, onde a família faltava. Naturalmente, muitas pessoas a título pessoal também ajudavam nas necessidades. As próprias obras eram sustentadas por inúmeras doações de particulares.

Depois da Reforma e a ruína da antiga cristandade, as Igrejas estiveram integradas dentro das monarquias absolutas e continuaram realizando as mesmas formas de ajuda até que a sociedade monárquica de Antigo Regime desaparecesse também, cedendo o lugar a sociedades secularizadas baseadas no princípio de separação entre Igreja e Estado.

A partir deste momento, houve duas redes de obras assistenciais, uma, pública, sob a autoridade do governo civil, e outra, eclesiástica, sob a autoridade das autoridades eclesiásticas. Nos países com multiplicidade de Igrejas houve até três redes: pública, protestante, católica, como na Alemanha, na Holanda, na Inglaterra, nos Estados Unidos.

Uma vez que se consolidou o paralelismo de redes, sucedeu que as Igrejas se dedicaram mais aos membros das suas comunidades, sentindo-se de certo modo dispensadas de atender aos outros porque existia uma rede pública para as pessoas que não pertenciam a nenhuma Igreja. Sucede que a rede pública não logra atender.

Na América Latina, houve no século XX uma explosão demográfica e um crescimento da população das cidades tal que as antigas instituições eclesiásticas ficaram totalmente ultrapassadas. Não puderam assumir essa nova e imensa população aglomerada nas novas cidades. As instituições de Igreja não puderam atender e permaneceram em ilhas pequenas isoladas dos grandes problemas e das grandes necessidades.

Por sua vez, o governo das cidades teve outras prioridades. Era preciso reservar todos os recursos aos bairros mais residenciais e pouco sobrava para as massas pobres das periferias. A maior parte da população migrante não tem contato nem com as Igrejas, nem com as administrações públicas.

Hoje em dia a situação é a seguinte: Não faz sentido as Igrejas querer assumir as tarefas de assistência às massas que chegam nas cidades. As Igrejas nunca mais terão recursos suficientes quer em pessoal, quer em dinheiro para atender às necessidades. A tarefa precisa ser assumida pelos poderes públicos. Porém, as Igrejas ou os cristãos podem ter um papel profético dentro das instituições públicas, tomando iniciativas, empurrando, movendo a opinião pública, oferecendo modelos de atuação no meio popular e sobretudo expressando o grito dos pobres. Não está excluída a parceria entre Igrejas e autoridades civis. Porém, sempre serão casos especiais e relativamente pouco numerosos.

O lugar da diakonia cristã neste setor assistencial estará na frente dos serviços públicos que precisam ser fundados ou ampliados ou melhorados. O testemunho cristão será dado dentro dessas organizações pela atitude dos cristãos inseridos nelas.

Recentemente, sobretudo nos últimos 50 anos, várias obras cristãs ficaram desviaram de seu sentido ou finalidade. Escolas, hospitais, fundados para socorrer os pobres totalmente abandonados pelos poderes públicos, pouco a pouco transformaram-se em obras reservadas a classe média ou a grupos mais privilegiados. O católico ou luterano ou metodista ou adventista tornou-se sinônimo de elitista. Recursos humanos e materiais foram, desta maneira, desviados do serviço aos pobres para o serviço aos privilegiados. Em lugar de diakonia, tornam-se aproveitadores do sistema injusto, cúmplices da exclusão dos pobres.

Sempre haverá lugar para o serviço individual dirigido a uma pessoa necessitada, uma família necessitada, por exemplo porque existe um laço especial entre quem dá e quem recebe (empregados particulares, vizinhos, conhecidos…). Sempre poderá haver obras próprias da paróquia ou da comunidade religiosa. Porém, aquilo será sempre secundário na diakonia cristã que está diante de um desafio imenso.

As cidades são imensos canteiros de obras. Estão cada vez mais divididas. Há os bairros residenciais feitos de edifícios altos com muitos apartamentos. Há para eles os supermercados, os shopping centers, os clubes de diversão, as garagens para os carros e uma rede de escolas, colégios, faculdades, hospitais e serviços de atendimento à saúde. Por outro lado há os bairros pobres infinitos de casinhas construídas pouco a pouco pelos próprios habitantes e os seus vizinhos, as favelas, os cortiços, tudo obra de um trabalho imenso quase sem recursos. Para as classes privilegiadas estão disponíveis o crédito, as facilidades de pagamento. Para os pobres o trabalho, o suor, a perseverança durante anos, sem ajuda, muitas vezes com materiais de segunda mão.

As cidades estão mudando sem cessar, estão em construção sempre. Uma boa moradia é o sonho de milhões e centenas de milhões de latino-americanos que lutam numa vida inteira para conquista-la. Esse é o mundo das cidades ao qual se dirige a mensagem cristã. O que será que vai ser realmente um serviço, uma ajuda, uma obra de libertação da vida, das energias, do amor numa situação dessas?

Muitas vezes dentro da rotina eclesial, os paroquianos perguntam-se: quais são os serviços que desejamos prestar? Muitas vezes esses serviços não são realmente serviços, mas apenas atos que permitem ter uma boa consciência. Precisamos partir da outra pergunta: quais são as necessidades mais urgentes? Muitas vezes são mais necessidades morais, coragem, paciência, perseverança, afirmação de si, do que necessidades materiais. O grande déficit dos pobres é a falta de confiança em si próprios, falta de esperança para esta vida, falta de ver grandes coisas, conformidade com o pouco que se tem.

Fonte: Diaconia no contexto nordestino, Sérgio Andrade e Rudolf von Sinner, (org.), Sinodal, p. 75-90, 2003