A Mística como oxigênio de nossa Práxis de cada dia: considerações em torno da relação entre Ética e Mística, no horizonte cristão

Nosso dia-a-dia pode ser assumido como uma complexa malha composta de uma infinidade de fios existenciais, que somos chamados a tecer, e a conferir sentido aos mesmos. Disto tomando ou não consciência, estamos sendo continuamente interpelados por esse desafio existencial, ao longo do nosso processo de humanização.

Com efeito, o existir humano – na verdade, um coexistir – comporta, a cada instante, uma variedade de escolhas, muitas das quais embaraçosas, em especial, em circunstâncias complicadas. Trata-se de escolhas, não raro, envolvendo problemáticas cruciais, cujas consequências podem ser decisivas para a nossa vida e a dos outros, além da do Planeta. Em razão disto, importa o exercício contínuo de discernimento e auto-vigilância. Tanto mais, quando implicam perguntas do tipo: “Eu quero?”, “Eu posso?”, “Eu devo?”, questões, todas elas, situadas no campo da Ética, portanto concernentes à condição humana, independetemente de credos. Respostas a estas questões passam pela adoção de critérios fortemente influenciados, condicionados – mas não determinados – por um conjunto de fatores culturais, histórico-conjunturais, sócio-econômicos, enfim, existenciais.

Com efeito, não se ignora quão influente é a vida social, a convivência familiar, comunitária sobre o conjunto dos seus membros, desde a infância. Inseridos no mundo da Cultura, tornamo-nos, do nascer ao último suspiro, animais aprendentes por excelência, de valores, de costumes, de crenças, de normas. Aprendizes de bons e de maus costumes, de bons e de maus valores, passando a incorporá-los e a reproduzi-los. Num primeiro momento, de forma inconsciente ou acrítica. Por meio do exercício da observação crítica e do discernimento, deles passamos a tomar consciência de sua natureza ética, podendo ou não reproduzi-los, sendo que agora tendo consciência ética das escolhas feitas. Então, já não nos é indiferente, do ponto de vista de nossas responsabilidades, fazer esta ou aquela escolha. Passamos a entender que cada escolha, boa ou má, produz consequências igualmente boas ou más.

Ainda assim, a tomada de consciência não determina, por si, nossas boas escolhas, embora constitua um pré-requisito decisivo. A satisfação a este pré-requisito não apaga as boas ou más influências que continuam tendo sobre nós os costumes, os valores, as crenças, as normas em que vivemos inseridos. Estas continuam, de qualquer modo, a nos condicionar, de formas diversas. O simples fato da convivência já exerce sobre nós uma pressão contínua, no sentido de propiciarem uma acomodação às normas vigentes, chegando até, algumas vezes, a conduzir-nos a uma síndrome de normose, isto é, rendemo-nos de tal modo à pressão das regras vigentes, que delas não conseguimos força para tomar distância. Esta é uma possibilidade, mas não alcança nenhum grau de determinismo, uma vez que, sujeitos éticos, também somos capazes de forjar contrarregras ou alternativas a tal tendência.

Nas presentes notas, nosso propósito é o de ensaiarmos passos em busca de exercitarmos, no chão do dia-a-dia, nossa capacidade de resistência à normose, bem como de irmos forjando condições de alternatividade mais consistentes e de crescente alcance, no sentido de atrairmos mais pessoas, mais grupos, mais comunidades, nesta direção, mas sempre partindo de nós, de mim. Eis por que, nestas mesmas linhas, cuidamos, inicialmente, de focar nossas considerações estritamente em torno do horizonte ético, para, em seguida, ensaiarmos uma articulação orgânica entre Ética e Mística, no horizonte Cristão.

1. Que condições nos favorecem e nos propiciam uma práxis ética no chão de nossas relações cotidianas?

Sem desconsiderarmos a dimensão individual, temos que reconhecer que nossa práxis no dia-a-dia ultrapassa o alcance estritamente individual, ainda que sem dispensá-lo. É, sobretudo, no horizonte das relações comunitárias, que vamos nos tornando capazes de distinguir comportamentos animais determinados pela natureza e comportamentos humanos orientados pelo horizonte da cultura. Como animais, integramos esses dois mundos; como animais humanos, por outro lado, nos tornamos capazes de distinguir natureza de cultura. É, sobretudo, no horizonte desta última, que passamos a tomar consciência de nossos limites e de nossas potencialidades. Nesse sentido, muito contribuem – negativa ou positivamente – as formas de organização societal. Dependendo do modo de produção, do modo de organização, e do modo de consumo de determinada sociedade, temos condições melhores ou piores de lidar com a nossa condição ética. Por exemplo, no contexto capitalista atual, torna-se extremamente difícil a um jovem comum reunir as melhores condições de uma conduta ética que faça justiça à sua vocação ontológica para a liberdade, posto que vive cercado constantemente de sedutores apelos a conformar sua vida aos valores, normas, crenças e costumes dominantes, numa sociedade em que é regra o chamamento a uma vida de duplicidade, de conduta esquizofrênica, torna-se extremamente difícil – ainda que não impossível – comportar-se à contracorrente. Numa sociedade em que se torna regra sentir-se uma coisa, pensar-se uma segunda, querer-se uma terceira, fazer-se uma quarta e comunicar-se uma quinta, torna-se extremamente atípica ou excepcional a escolha de quem investe em atitudes de integralidade, buscando, no chão do dia-a-dia, articular organicamente sentir-pensar-querer-agir-comunicar.

Sobre isto, Ivandro Sales da Costa, entre outros, tem chamado à atenção. A título de ilustração, pensemos a conduta ética no quadro da atual realidade brasileira, mais especificamente no âmbito político-partidário. Diariamente bombardeados pelas notícias da mídia comercial em cima de sucessivos escândalos financeiros, praticados por executivos de grandes empresas, por agentes políticos das distintas esferas de poder e por operadores financeiros, quê horizonte ético pode inspirar tal situação ao conjunto de cidadãos e cidadãs, em seu agir cotidiano? De que modo o cidadão comum, diante dessas mazelas gravíssimas, de brutal pilhagem das riquezas nacionais, pode sentir-se estimulado a um comportamento alternativo? Pergunta que colocamos como um desafio, pois nos recusamos a assumir tal contexto como um determinismo, nem como uma prática exclusiva desses agentes. Tal como as notícias vêm expostas, cria-se, não raro, a impressão de que a corrupção endêmica se limita a um setor exclusivo da sociedade – o das grandes empresas, o dos agentes políticos e o dos operadores financeiros, pouco ou nada tendo a ver com o agir do conjunto dos cidadãos e cidadãs. Numa reflexão crítica, não tardamos a perceber que os escândalos denunciados constituem a ponta de um iceberg, tendo por trás a responsabilidade do conjunto dos cidadãos, inclusive dos acusadores ou denunciantes.

Chegamos a tal conclusão, ao examinarmos mais detidamente como se dá a cidadania no chão do cotidiano. Como se comporta, com raras exceções, o cidadão, a cidadã, ante a fila de um hospital, de ônibus, de banco? Que atitude apresenta em situações corriqueiras, em que pretende tirar vantagem e obter privilégios diante dos outros, seja no trânsito, no ambiente de trabalho, nas ocasiões de diversão, etc.

O mesmo se passa, quando examinamos mais detidamente qual o nosso comportamento no ambiente de trabalho ou nos espaços institucionais de que participamos.
Tantas anomalias ante os nossos olhos e mal percebemos sua gravidade. Quantas ocasiões de apropriação indébita do tempo do trabalho, dos recursos públicos disponíveis, das vantagens tantas que acabamos forjando, de modo a nos apropriarmos dos espaços e dos bens públicos. Seria infinda a lista de exemplos. Nosso propósito, porém, é o de refletirmos sobre as condições que permitem um movimento alternativo a tais práticas, e nisto nos fixamos, nas linhas seguintes.

Como acima assinalado, por piores que sejam as condições de vida e de trabalho, elas não são determinantes. Há sempre uma margem de escolha alternativa. É o caso daquele trabalhador sueco da Volvo que, oferecendo carona a outro trabalhador brasileiro, surpreendeu, ao estacionar o carro em local mais distante da entrada da fábrica, o que obrigava a ambos um percurso a pé maior, em estação invernosa. Pretendendo saber a razão de tal escolha o trabalhador brasileiro foi surpreendido com a resposta: “Nós chegamos bem antes da hora. Há outros que chegam em cima da hora, sem tempo hábil de locomover-se para o trabalho.”.

Tendo como horizonte um modo de produção, um modo de organização e um modo de consumo societais, ensaiemos alguns passos de alternatividade. Num primeiro momento, acentuando a importância organizativa (pessoal e coletiva) nos vários espaços societais e comunitários dos quais participamos. A busca de alternatividade não se alcança apenas no âmbito individual, mas, sobretudo, no plano relacional. É participando de atividades grupais, comunitárias, que vamos tendo a oportunidade de observar melhor, de aprender e de compartilhar práticas que nos aproximem progressivamente do alvo almejado. Com efeito, é nas pequenas comunidades, é nos núcleos, é nos conselhos populares, que começamos a encontrar elementos experienciais de inspiração para o nosso agir em direção ao bem comum, em direção ao Público. É nessa “escola” que vamos observando, vamos ensaiando efetivos passos de alternatividade, a partir do jeito dessa organização. Jeito que se materializa de modo diverso: assegurando-se a participação de todos nas decisões; evitando o controle do grupo ou da comunidade por uma ou poucas pessoas; exercitando-se, em relação a outras instâncias, o princípio da delegação; garantindo a rotatividade, nos prazos firmados, de coordenação; exercitando-se a autonomia, inclusive mediante o autofinanciamento para as atividades programadas; garantindo a todos o processo formativo contínuo, sobre o qual nos estenderemos, a seguir.

É, com efeito, o processo formativo contínuo, que constitui o segundo principal vetor capaz de forjar condições propícias para o surgimento de práticas éticas compatíveis com o horizonte almejado de um novo modo de produção, de um novo modo de organização societal e de um novo modo de consumo. Não se trata aqui de escolaridade, por mais apreço que lhe tenhamos. Trata-se, na verdade, de assegurar formação não apenas a membros de coordenação ou direção, mas ao conjunto dos membros de base. Tal processo formativo contínuo comporta distintas e complementares características, dentre as quais:

– tem como protagonista o conjunto dos membros das organizações de base de nossa sociedade. Tal protagonismo há de se exercer em todos os momentos do processo formativo, desde sua concepção, passando pelo planejamento, pela execução, pela metodologia, pela avaliação…
– alimenta-se da memória histórica, (re)visitando constantemente os feitos, as lutas, as conquistas, as derrotas, as grandes aspirações da humanidade, em diferentes lugares e tempos, seja com relação à gesta coletiva, seja com relação às contribuições de figuras individuais (de referência ou anônimas!);
– empenha-se em analisar criticamente a realidade social (local, regional, nacional, internacional), buscando compreender a complexidade e a extensão dos grandes desafios, para o que se vale de instrumentos adequados de observação e apreciação (por ex.: não abrir mão da diversidade de fontes, de modo a buscar evitar a tendência preponderante a só vermos a nossa realidade com os olhos apenas dos nossos parceiros e aliados; sempre fundados nos fatos concretos, examinar se buscamos balizar nossas críticas e denúnicas nos fatos, independentemente de quem seja seus protagonistas (por ex.: nas décadas 80 e 90, sempre foram muito contundentes, a justo título, nossas críticas aos desmandos de então. Será que mantivemos essa posição, depois, diante de fatos graves?
– assegurar, permanentemente, espaços de formação para o conjunto dos movimentos sociais e organizações de base de nossa sociedade (São raríssimos as forças sociais que disto se ocupam);
– cultivar nossa atenção aos bons clássicos, com eles dialogando, e tendo em conta o espírito de suas análises, sem pretendermos (contra eles mesmos) tentar copiá-los;
– em vista dos novos desafios socioeconômicos e político-culturais, os movimentos sociais populares e demais organizações de base de nossa sociedade são chamados a reexaminarem seu projeto formativo que, durante décadas, priorizavam a educação política. Com certeza, esta continua importante, porém já não suficiente para enfrentar exitosamente os novos desafios, eis que, dada sua complexidade acrescida, urge uma proposta formativa integral, isto é, além de comportar a formação política (e esta, indo além da mera relação Sociedade-Estado, cuide também da Cidadania do cotidiano), demanda um permanente cuidado com as distintas dimensões do ser humano como um todo e de todos os seres humanos, de modo a implicar um articulado leque de aspectos, indo das relações sociais de gênero, de espacialidade, de etnia, passando pelas relações geracionais até às relações com o Sagrado;
– exercitar continuamente a autocrítica, menos nas promessas e discursos, e mais na prática do dia-a-dia. Neste sentido, importa tomarmos cuidado para que as balizas que adotamos para a crítica dos outros seja a mesma que utilizamos para a nossa autocrítica.

2. De que modo o exercício da Mística pode fortalecer nossas escolhas éticas do dia-a-dia?

Expressando todo o nosso apreço e respeito pelas mais distintas opções de credo ou pela opção de quem a nenhuma delas se afilia, tratamos, em seguida, de pôr em relevo aspectos das relações entre Ética e Mística, esta tratada sob uma perspectiva cristã. É sabido o amplo leque de opções místicas cultivadas pelos mais diversos povos, cada uma delas alimentada por uma figura de referência (Confúcio, Buda, Judaísmo, Islamismo, as religiões de origem africana, etc) mesmo entre figuras humanas que se reconhecem agnósticas ou ateias, também aí se pode observar uma presença da Mística, ao menos em sentido amplo. Cada ser humano sente-se animado, de certa maneira, por alguma força interior a inspirar escolhas e caminhos. Aqui tratamos especificamente da Mística entendida em sua vertente Cristã, ou seja, inspirada na figura de Jesus de Nazaré e do Movimento que O seguiu ou busca segui-Lo.

Neste sentido, que interação se pode observar entre a Mística Cristã e a Ética? Um primeiro ponto a considerar é que, do ponto de vista cristão, todo ser humano é chamado a viver eticamente, seja no plano comunitário, seja no plano pessoal. Em relação específica aos que se pretendem cristãos, a Mística cristã lembra aos seus seguidores que, mesmo do ponto de vista estritamente ético, os cristãos não conseguem sê-lo apenas por si mesmos, sem a ajuda do Sopro fontal que habita em cada uma, em cada um dos seres humanos, isto é sem a presença do Espírito Santo a conduzi-los. A Mística cristã sustenta que, sendo os humanos (inclusive, evidentemente, os cristãos) seres limitados, necessitam da força da Graça, esta força que habita o Universo (portanto, também ao interno dos seres humanos) que os inspira a fazerem boas escolhas. Sobre isto há uma sucessão de passagens bíblicas (especialmente do Evangelho) a lembrar os cristãos da necessidade de pedirem o apoio da Graça: “Não foram vocês que Me escolheram, mas fui Eu quem os escolhi e os enviei, para que vocês vão e deem fruto, e o seu fruto permaneça” (Jo 15,16).

Neste caso, o cumprimento de nossa vocação ética requer uma constante interação de natureza mística, visto que, reconhecendo nossas limitações, vamos precisar nutrir-nos constantemente dessa fonte de plenitude, desta força da Palavra. Sempre que nos recusamos a responder generosamente a estes apelos da Graça, acabamos pondo em risco ou até fazendo desabar nossos melhores propósitos de seres éticos.
O contínuo exercício místico constitui um nutriente indispensável para nos manter-nos fiéis aos apelos da Graça, que também age dentro de nós. Trata-se de um nutriente ou uma espécie de oxigênio, a manter-nos focados no alvo ou na direção das boas escolhas. Tal como um atleta – por exemplo, um arqueiro, a necessitar exercitar-se constantemente na arte de lançar ao alvo suas flechas, como condição de seu sucesso -, o contínuo exercício da Mística representa algo assim.

Nos relatos evangélicos, em distintas parábolas, são bem frequentes os exemplos ou as situações utilizadas por Jesus, neste sentido. O reino de Deus não se faz apenas pelos nossos esforços pessoais ou comunitários, mas sobretudo graças à inspiração do Espírito Santo, a Quem frequentemente invocamos, nos seguintes termos: “vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fieis, e acendei neles o fogo do vosso Amor. Enviai, Senhor, o Vosso espírito e tudo será criado. E renovareis a face da Terra.”. E continua a oração: “ó Deus, que instruístes o coração dos Vossos fiéis com a luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas, segundo o mesmo espírito, e gozemos sempre de Sua consolação. Por Cristo, nosso Senhor.”.

Não apenas nos evangelhos, como também nos demais livros do Novo Testamento, são igualmente recorrentes tais advertências. Uma delas nos é feita por Paulo. Esta mesma figura que nos propõe um belo caminho de vida: “examinem todas as coisas, e retenham o que é bom.” (1 Ts 5,21), tem consciência da dificuldade do que significa escolher “o bom”. Pela sua própria experiência – e nós somos testemunhas recorrentes, a partir dos nossos próprios exemplos –, tropeçamos no que ele próprio afirma de si: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço.” (Rm 7,19).

É o reconhecimento das próprias limitações, que os cristã(o)s, se sentem motivados a recorrerem, com humildade e confiança, à força da Graça, por meio do exercício da Mística, que avaliam como o oxigênio necessário à manutenção de sua práxis no cotidiano, como expressão de sua experiência ética. Isto se dá nas mais distintas situações concretas, enfrentadas em seu dia-a-dia. É a este “Oxigênio”, que atribuem o enfrentamento exitoso das mais complicadas situações. Quantas vezes, em sua condição de dirigente, de coordenador ou algo do gênero, é grande a tentação de fazer prevalecer seus interesses próprios sobre o conjunto dos membros da mesma organização, e, não confiando nas próprias forças, apelam à força da Palavra, e acabam superando tantas tentações de tirar proveito indevido de situações que lhes são colocadas. E o fazem, justamente recorrendo à Mística, por diversas vias. Uma delas consiste nos frequentes e perseverantes momentos de oração, mais precisamente da leitura orante da Palavra de Deus, ocasião em que se sentem fortalecidos com conselhos evangélicos, do tipo:

– Vigiem e orem, para não caírem em tentação” (Mt 26, 41)
– “Toda árvore se reconhece por seus frutos” (Lc 6,44)
– “Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha” (Mt 9, 16);
– “Ninguém pode servir a dois senhores.”
– “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas, sim, aquele que faz a vontade do meu Pai”” (Mt Mt 7, 21);
– “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração esá longe de mim.” (Mt 15,8);
– “Tomem cuidado com os falsos profetas: eles se vestem de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Pelos seus frutos, vocês os reconhecerão.” (Mt 7, 15-16);
– “Entrem pela porta estreita, porque larga é a porta e amplo o caminho que leva perdição.”(Mt 7, 13)
– “Onde estiver o seu tesouro, aí está o seu coração.”
– “Façam aos outros o que vocês desejam que os outros lhes façam” (Mt 7,12)
– “Sejam misericordiosos, como é misericordioso seu Pai. Não julguem, e não serem julgados. Não condenem e não seáo condenados. Com a mesma medida com que medirem, serão medidos.” (cf. Lc 6, 36-38);
– “Vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará.” (Jo 8,32);
– “Nada há oculto, que não venha a ser revelado.” (Mc 4,22)
– “Tire primeiro a trave do seu olho, e e então enxergará bem para tirar o cisco do olho do seu irmão.” (Mt 7,5)
– “Prova de amor maior não há do que aquele que dá sua vida pelos irmãos.” (Jo 15,13).
Apenas alguns poucos exemplos de passagens evangélicas que se têm prestado a inspirar e a fortalecer o ânimo de cristã(o)s, no enfrentamento cotidiano dos seus desafios éticos. A estes se somam belas parábolas e outras páginas inspiradoras. Páginas, por sua vez, complementadas com a leitura e meditação de relatos da vida de santos e santas, de textos devocionais muito apreciados, no Catolicismo popular. Os círculos bíblicos constituem outro momento forte de espiritualidade cristã, além de tantas outras práticas semelhantes.

O efeito positivo do exercício contínuo da Mística – pelo que podemos escutar ou ler, a partir de vários relatos de experiência – sobre o agir de cristã(o), em seu dia-a-dia, se dá de múltiplas maneiras e nas mais variadas situações existenciais. Tomando aqui como referência a incidência dessa relação Ética-Mística, consideremos o caso da militância política, sabendo, porém, que tal incidência se faz presente igualmente nas mais distintas esferas da vida (pessoal e coletiva). Em tempos de crise, por exemplo, podemos eleger uma série de situações com que se deparam militantes. Uma delas: como acompanhar mais criticamente o desenrolar da realidade social? Aqui são muitas as escolhas possíveis. Uma tendência sedutora é a do atalho, isto é, a do caminho mais fácil. Isto pode dar-se de várias formas:

– desde o cômodo hábito de acompanhar os desdobramentos da conjuntura APENAS pelas fontes assinadas por nossos parceiros e aliados, sem qualquer empenho em confrontar tais posições com as de outras forças, mais à esquerda ou mais à direita. Hábito que resulta lacunoso perigoso, na medida em que nos recusamos a aceitar o caráter multifacetário da realidade concreta, o que nos induz a reducionismos comprometedores. Negar-nos, por comodismo ou por preguiça intelectual, a aceitar a natureza complexa dos fatos sociais, pode ser fonte de deliberações desastradas. É o exercício constante da Mística que nos ajuda a manter-nos mais vigilantes quanto a tal risco;
– a sedução nominalista constitui outra ameaça: não raro, pretendemos “provar” nossa pertença de classe apenas pela exibição de símbolos. Isto é: “Eu sou da Classe Trabalhadora, porque pertenço a tal partido, a tal sindicato, a tal movimento”, sem perceber que para tanto, não basta declarar-me tal, não basta ostentar uma carteira de trabalho, um boné, uma carteira sindical, um atestado de filiação partidária, ou “bater o ponto”, em reuniões e encontros da categoria ou nas convenções. Nosso compromisso com a causa libertadora da Classe Trabalhadora se mostra bem mais pelas nossas práticas de cada dia, pelo nosso estilo de vida (pessoal e coletivo). Esquecer isto induz a tremendos equívocos, inclusive o de negar pelas minhas práticas justamente o que digo ser, e por vezes até com certa arrogância, a acusar os outros de “burgueses”, de “classe dominante”, quando, até com frequência, meu estilo de vida me acusa ser mais “para lá” do que “de cá”…
– não raras vezes, sentimos que nossas apostas, ao passarem décadas, não dão os frutos almejados, a não ser minimamente. E, mesmo assim, seguimos apostando incessantemente, sob o pretexto de que “Não tem outro jeito… É melhor assim do que nada… Vamos votar no menos ruim”. E quanto mais avançamos no tempo, mais se agrava a situação… Quem ganha com tal teimosia? Certamente, não é a Classe Trabalhadora…
– Uma outra tendência frequente é a de nos acomodarmos a velhas e obsoletas ferramentas de luta, apesar dos reiterados sinais de fracassos. Ainda que não saibamos precisamente que ferramentas alternativas utilizar, temos certeza de algo: as atuais ferramentas de luta chegam à exaustão! Prova disto é a crescente reação de enormes parcelas da população, a esbravejarem contra certas manifestações, em especial as que as impedem de circular em direção ao trabalho. É urgente, sim, dedicarmos mais tempo à criatividade, à busca de novas formas de luta, eficazes e que se dirijam contra os principais responsáveis, e não contra as populações mais vulneráveis, que se revelam hostis a nossas velhas formas de luta.
– Aprendemos, em nosso processo formativo (infelizmente, em grande parte interrompido – que devemos sempre lutar associando as tantas denúncias, muitos anúncios de casos, de fatos, de situações ALTERNATIVAS ao modelo imperante, e que estão dando certo, ainda que molecularmente. Quando disto nos esquecemos, corremos o um duplo risco: o de irmos além das denúncias, apontando opções alternativas já em curso; de sucumbirmos ao pessimismo, ao derrotismo de quem só tem denúncias a fazer, sem propostas convincentes, que didaticamente estimulem a tantos e tantas a reacenderem a esperança, em cima do que já anda acontecendo…
Eis apenas algumas situações que tornam mais explícitas as relações entre Ética e Mística. Oxalá, tenham essas notas ajudado nessa direção.

Olinda, 10 de março de 2017.

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