Brasil – Sociedade e Igreja: Impasses, desafios e perspectivas

Como poucas vezes em sua história, o Brasil vem enfrentando uma conjuntura ético-política e sócio-econômica das mais complexas e desafiantes. Sabemos, todavia, que realidade semelhante não é exclusiva da sociedade brasileira. Enfrentam-na também, cada qual ao seu modo, todo o continente americano, a Europa e demais continentes. Aqui, focamos mais especificamente o caso da sociedade brasileira e suas interfaces com a(s) Igreja(s).

Não bastasse a profundidade da crise internacional, a golpear duramente povos e nações, a sociedade brasileira vem atravessando, nesses últimos anos, uma das maiores crises de sua história, seja pela sua complexidade, seja pela sua extensão, no tempo e no espaço. Nas linhas que seguem, tratamos de exercitar uma leitura crítica, a partir da perspectiva das classes populares e de setores cristãos ligados à “Igreja na Base” (CEBs, pastorais sociais, CEBI, etc.).

Começamos por assinalar algumas observações que nos parece oportuno ter presentes, no início de uma análise de conjuntura, por tratar-se de obviedades não raro esquecidas ou negligenciadas, essas ocasiões. Em primeiro lugar, convém atentar para a presença significativa de fatores ou componentes estruturais que costumam incidir no espectro conjuntural. Com efeito, fatores econômicos (por ex., gigantescas práticas de desperdício de água, de energia, de alimento, de recursos públicos para a péssima gestão dos mesmos, enorme desperdício de recursos públicos com propagandas governamentais , as cifras alarmantes de desemprego…), políticos (por ex., sistemática violação de critérios republicanos, manutenção/ampliação de privilégios…) e culturais (por ex., “naturalização” de preconceitos e discriminações de classe, de gênero, de etnia, de procedência geográfica, de crenças, etc.) – devendo todos esses fatores ser percebidos em sua dinâmica interação – apresentam raízes estruturais, que têm a ver com toda uma história secular, a se refletirem também nas cenas conjunturais. Outra observação: importa ter presente aí a produção de um desencadeamento articulado das várias esferas da realidade social.

Em vão, tentaríamos compreender mais a fundo o que se passa no Brasil, contentando-nos com uma análise circunscrita exclusivamente a uma única esfera da realidade, seja ela a econômica, política ou cultural. Mesmo reconhecendo a relevância de qualquer uma delas, resulta imprescindível constatar a dinâmica interação que perpassa as esferas econômica, política e cultural. Outro registro digno de nota refere-se à necessidade de buscar as verdadeiras raízes desta crise, para além de sua imediatez, isto é: é ilusório pretender-se dar conta da atual realidade brasileira, analisando-se o que nela se tem passado apenas de três anos para cá, desde o desfecho das eleições presidenciais de 2014. Nestes últimos anos, reside apenas o epifenômeno ou a ponta do “iceberg”, insuficiente para se dar conta, de modo consistente, da realidade observável, já que se deve tomar em conta fatores relevantes que se acham na raiz do atual desfecho da mencionada crise. Em vão, repete-se que a crise atual tenha tido origem com a divulgação do resultado das eleições presidenciais de 2014, sem negar, porém, seu peso específico no contexto da mesma crise. Sem dúvida, o processo eleitoral de 2014 comporta marcas importantes para o desenvolvimento ulterior ao resultado das urnas, desde que o associemos a outros elementos não menos necessários à análise do caso em tela.

Uma última observação a fazer, busca responder à expectativa e à legítima cobrança quanto ao referencial de análise aqui exercitado e já anunciado. Nosso olhar pretende ser o das classes populares, isto é, faz-se a partir dos interesses das necessidades e das aspirações da Classe Trabalhadora, comprometida com o processo de construção de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, em consonância com respeito e a dignidade da Mãe Terra e de toda a comunidade dos viventes, numa perspectiva alternativa ao Capitalismo e ao o espectro metabólico do Capital.

1. Principais marcas do quadro conjuntural

Alguns sinais mais impactantes da atual realidade brasileira, concernentes às suas distintas esferas, podem nos ajudar, como ponto de partida, nosta análise. Os índices oficiais de desemprego revelam-se aterradores: cerca de 12.3 milhões de desempregados! Cifra que pode alcançar o dobro, se incluídos no parâmetro de mensuração, certas variáveis de estimativa de desemprego não consideradas pelos critérios oficiais de mensuração do mesmo fenômeno. Situação ainda mais impactante, quando considerados certos segmentos demográficos mais afetados pelo desemprego, tais como jovens, mulheres, negros…
Outro sinal preocupante tem a ver com o crescente sucateamento dos serviços públicos essenciais (moradia, saneamento, saúde, educação, transporte público, segurança pública…). Ao mesmo tempo, há de se reconhecer as graves consequências resultantes do desinvestimento em políticas sociais essenciais, a exemplo da reforma agrária e da agricultura familiar, com pesadas consequências para a agroecologia, em contraste com o apoio e financiamento pelo Estado do hidro-agronegócio e das desastradas políticas de mineração e de manejo florestal. Não menos danosa se tem mostrado a atual política de endividamento, da qual decorrem o vertiginoso crescimento da dívida pública e seus respectivos serviços, sem esquecermos a exorbitante lucratividade obtida pelo setor financeiro e pelas transnacionais que atuam nos setores estratégicos da economia brasileira. Eis alguns traços de nossa economia, a indicarem um quadro tenebroso para a enorme maioria de nossa sociedade. Quadro fortemente alimentado pela cultura do desperdício e da corrupção sistêmica envolvendo altos setores empresariais, grandes empreiteiras, altos funcionários das empresas estatais e políticos de referência nacional, de modo a comprometer profundamente qualquer projeto de recuperação econômica de curto prazo.

Ainda na esfera econômica, este mesmo quadro sombrio é agravado por várias outras políticas econômica em curso, tais como a política tributária, a política trabalhista e a política previdenciária. Sobre a primeira “a tributária” recai a responsabilidade por uma marcante participação no aprofundamento da desigualdade social, à medida que por um lado isenta de impostos setores econômicos privilegiados cometendo em seu favor seguidos atos de renuncia fiscal e outros do gênero; por outro lado, penaliza os setores mais empobrecidos e a classe média seja infligindo-lhes pesada carga de impostos indiretos, seja atribuindo à classe média pesada carga do Imposto de Renda, por meio de uma taxação relativamente regressiva, isto é, os segmentos assalariados acabam pagando proporcionalmente mais do que os segmentos economicamente privilegiados.

No âmbito político, não são menos graves as injustiças e contradições imperantes, a começar pela atual organização político-partidária, marcada pela atuação nociva de dezenas de siglas partidárias (muitas delas conhecidas como “partidos de aluguel”). São, em grandíssima parte, partidos desprovidos de perfil ideológico, de compromissos programáticos republicanos, tendo como meta principal a de extrair vantagens, tais como fatias do fundo partidário, arrancar benesses, durante as campanhas eleitorais, em suas negociatas com os “grandes partidos”, seja por meio de cessão de seu tempo de propaganda oficial de rádio e televisão, seja por meio de acordos inconfessáveis com setores partidários detentores de maiores chances de vitória eleitoral.

A isto se agrega um vício eleitoral recorrente, trata-se do financiamento espúrio, pelas grande empresas e empreiteiras, de partidos e de candidatos, do que decorre a instalação de uma concorrência extremamente desigual em relação a partidos e candidatos ética e politicamente comprometidos com as classes populares, já durante a campanha eleitoral. Após esta, é apresentada, pelos financiadores aos “eleitos” a cobrança de compromissos com os interesses e prioridades, em projetos e votações ligados aos interesses de quem os financiou, pois, como diz o Adágio popular, “Quem come do meu pirão, prova do meu cinturão”…

Importa sublinhar que, dos cerca de trinta e cinco partidos com representação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, é prática corrente destes partidos, com uma ou outra exceção, a conformação a essas regras do jogo, o que é facilmente atestado pela pratica costumeira do aliancismo: Com o objetivo de vencer, a qualquer custo o processo eleitoral, são capazes de fazer aliança com Deus e com o Diabo.

Os partidos de esquerda, liderados pelo PT, até aos anos 80, mostravam-se mais vigilantes com relação aos critérios de aliança partidária. A partir dos anos 90, tais critérios foram sendo cada vez mais relativizados e abandonados, o mesmo acontecendo à sua relação orgânica com os movimentos sociais e as organizações populares, que foram sofrendo uma sangria pelo crescente abandono de milhares de militantes qualificados, que passaram a ser arregimentados como assessores e quadros atuando quase que apenas nos espaços estatais. Tal foi o golpe sofrido pelos movimentos sociais populares e sindicais, que também estes passaram a alterar perigosamente seu modo de agir, de se organizar e de se formar, cada vez mais inebriados pela aposta em seus parceiros agora atuando nos vários aparelhos de Estado, fazendo retroceder toda uma trajetória de lutas e de conquistas, bem como seu compromisso com processo organizativo e formativo de base.

No plano estritamente ético da ação política, partidos de esquerda historicamente reconhecidos pela sua lisura (ficou marcada, por exemplo no imaginário popular brasileiro, a campanha intitulada “Ética na política”, protagonizada pelo PT, nos anos 90), passaram a descuidar-se deste compromisso e a resvalar em sucessivos casos de corrupção, em conluio com altos funcionários de empresas estatais e com grandes empreiteiras contratadas pelo Governo, para atuarem em obras públicas, especialmente na área de petróleo. A este respeito, tornaram-se famosos os casos julgados na Ação Penal 470 (mais conhecida como “Mensalão”) e o caso da Lava-Jato ainda em curso, em ambos os casos envolvendo diretamente grandes executivos empresariais, altos funcionários de empresas estatais, figuras operadoras do setor financeiro e lideranças políticas de vários partidos.

No plano mais diretamente cultural, importa acentuar, pelo menos, 2 elementos relevantes: Um, que incide no plano dos valores e outro correspondente ao da mídia comercial e das redes sociais. O primeiro elemento –o dos valores- põe a nu um nítido processo de degradação ética do tecido social, grandemente influenciado pelas atitudes eticamente comprometidas de lideranças históricas de referência. Tal processo de degradação pode ser atestado pelo comportamento cada vez mais distanciado de valores éticos almejados. Isto se materializa em exemplos do cotidiano, tais como: a compulsão por extrair vantagens e privilégio no portar-se a uma fila de banco, ao aguardar sua vez no atendimento hospitalar, ao conduzir-se no trânsito ao aceitar a cordos ilícitos de compra e venda de votos, ao privatizar espaço e recursos públicos, no âmbito de sua respectiva instituição de trabalho (privatizando tempo, recursos, materiais, equipamentos, etc..). Não se trata de insinuar que tal processo tenha sido desencadeado a partir destes últimos anos. De fato, aqui se trata de uma cultura que tem raízes históricas mais profundas. Sustentamos apenas que, nas últimas décadas, tal tendência se vem acentuando sobremaneira, graças às condições favoráveis aí encontradas.

Outro aspecto a merecer destaque, no plano cultural, prende-se à estruturação e ao funcionamento dos grandes meios de comunicação (jornal, rádio e televisão), bem como ao comportamento das chamadas redes sociais. No primeiro caso, tem-se toda uma vasta população refém da difusão e da recepção acrítica dos interesses e valores ideológico de uma meia dúzia de jornais, de canais de rádio e televisão, monopolizados por uma dezena de famílias. Esdrúxula situação em curso, já há décadas, a contrastar com o que dispõe a Constituição brasileira, que define a exploração destes meios de comunicação como serviços submetidos ao interesse público, razão por que sua exploração se dá como uma concessão pelo Estado, ao qual cabe regular, acompanhar e avaliar sua qualidade social, podendo inclusive renovar ou não tal concessão. Grande expectativa se alimentou, durante o relativamente longo período de gestão dos governos do PT, sobre a abertura de discussão pública e de controle social da exploração de tais serviços, o que não se deu…

Com relação âs redes sociais, conta-se, por um lado, com uma conquista social a ser celebrada, no campo da comunicação, em razão de seu crescente alcance social, e, por outro lado, dadas as condições de escassa criticidade da enorme maioria dos seus usuários, elas acabam, por vezes, tornando-se uma faca de dois gumes: tanto podem servir aos interesses dos “de baixo”, como podem propiciar um uso perverso dessas ferramentas, como se costuma observar na frequente circulação de mensagens, imagens e vídeos com uma terrível carga de preconceitos e discriminações de classe, de gênero, de etnia, de procedência geográfica, etc., um quadro pantanoso a favorecer o desencadeamento de campanhas de alto teor misógino, homofóbico, racista, xenófobo, preconceituoso contra os presos, assim mantendo e ampliando, objetivamente, a grade de valores dominante. A respeito deste último ponto, por exemplo, não é gratuito o espectro tenebroso do sistema prisional brasileiro, sobre o qual se tornou famosa uma declaração do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, do Governo Dilma, de que preferia morrer a experimentar as condições desumanas do sistema prisional do Brasil… O mais recente drama de sucessivos massacres de presos, em alguns Estados da do Brasil, só confirma este trágico espectro.

Este é um desafio ingente, em especial, para as forças sociais comprometidas com mudanças estruturais, a exemplo dos movimentos sociais populares e de outras organizações de base.

2. Como se situam neste contexto a(s) Igreja(s) e outras forças sociais comprometidas com a construção de uma nova sociedade?

Comecemos por explicitar o que aqui estamos chamando “Igreja” e “outras forças sociais”. Tomada como um todo – não é o que aqui fazemos -, a Igreja Católica, instituição complexa, multissecular, multinacional, pluriclassista, reflete, em geral, as contradições que conformam todo o tecido social. Nela, podem encontrar-se as mais díspares posições, não apenas socialmente diferentes, mas por vezes, também antagônicas. Aqui lidamos, antes, com um setor dela e de outras Igrejas cristãs, que podem ser abrigadas sob um guarda-chuva conceitual – a chamada “Igreja na Base”, cujo perfil se inspira mais fortemente nas primeiras comunidades cristãs, marcadas por valores como o compromisso com as causas libertadoras dos pobres, com a solidariedade, com a partilha, com o bem comum, com o respeito às diferenças, com a compaixão em relação aos desvalidos, aos mais vulneráveis da sociedade, aos doentes e marginalizados, com os injustiçados, mas fazendo-o, de modo a tomá-los, não como alvo de dó, mas como protagonistas de sua libertação, nos termos como os assumiu, por exemplo, a Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín (Colômbia, 1968) e a de Puebla (México, 1979). Trata-se de um setor da Igreja Católica, contando com a solidariedade de setores de algumas Igrejas evangélicas (Metodista, Anglicana, por exemplo), que se constituiu numa relevante referência para a caminhada dos pobres, na América Latina, graças ao protagonismo de uma geração de bispos pastores-profetas, vários dos quais foram signatários do emblemático “Pacto das Catacumbas” (Roma, 16.11.1965, pouco antes do encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II), circundados por uma multidão de leigos, leigas, de religiosas, de religiosos, de padres…), que conseguiram dar um novo rumo e novos caminhos de discipulado e missão, de que foi o maior sinal a opção pelos pobres. Deste setor de Igreja(s) faziam parte as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), as Pequenas Comunidades de Religiosas e Religiosos inseridas no Meio Popular (PCIs), as pastorais sociais – o Conselho Indigenista Missionário (CIMI, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Encontro com Irmãos, a Ação Católica Operária (ACO)/Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC), a Comissão Pastoral Operária (CPO), a Pastoral de Juventude do Meio Popular (PJMP), a Pastoral Universitária (PU)/Movimento dos Cristãos Universitários (MCU), a Comissão Pastoral dos Pescadores (CPP), a Comissão de Justiça e Paz, os Centros de Defesa dos Direitos Humanos (CDDH), Movimento Fé e Política (e suas respectivas Escolas) o Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI), a Ação dos Cristãos no Meio Rural (ACR), o Movimento de Evangelização Rural (MER), a Teologia da Libertação (TdL)/Teologia da Enxada e tantas outras experiências eclesiais e variantes ou desdobramentos do mesmo gênero.

Como, pois, têm-se comportado esses segmentos, diante dos impasses da atual crise, seja quanto às suas relações “ad extra”, seja quanto às suas relações ao interno dos espaços eclesiais? Para uma melhor apreciação, importa ter aí presentes dois momentos de sua atuação, que, em poucas linhas, cuidamos de resumir. Um primeiro momento remonta às suas origens, ou seja, ao período que vai dos anos 60 aos anos 80, e o momento atual que recobre sobretudo as últimas décadas. Em suas origens, tais segmentos, seja pelo seu compromisso com os empobrecidos, seja pelo seu modo de atuar, de organizar-se, de prover sua formação e de se mobilizar, tiveram uma influência decisiva nas organizações de base de nossa sociedade. Não é, com efeito, por acaso que várias das atuais forças sociais civis nasceram daqueles ou naqueles segmentos eclesiais. Quem não sabe de onde vem o MST (da CPT)? Quem não se lembra do lugar ocupado por esses segmentos eclesiais na formação do PT e da CUT? De onde vieram numerosos dos seus militantes? Como se explica tamanha influência? Até que ponto esses mesmos segmentos souberam perseverar nesse seu modo de agir, de se organizar e de se formar? No tocante ao modo de atuação – organizativo, formativo de mobilização -, podemos resumidamente destacar algumas de suas características mais fortes: –a. No plano organizativo:

– relação constante e orgânica com as bases (com as “minorias abraâmicas, pequenas comunidades, círculos bíblicos…);
– horizontalidade nas relações (protagonismo, não de uma só pessoa, mas do conjunto dos participantes, nas discussões e decisões);
– esforço de autonomia e de interconexão (cada núcleo tinha vida própria e dinamicamente articulada com outras instâncias);
– zelo pela delegação, isto é, para a conexão com outras instâncias, em âmbitos diocesano, regional, nacional), cabia à(o)s delegados e delegadas transmitir, com fidelidade, as decisões dos membros locais, não o que bem lhes aprouvesse…);
– observância do rodízio ou da alternância de cargos de coordenação colegiada (ênfase, não sobre o desempenho individual dos coordenadores, mas no “co” de coordençaão): findo o prazo da gestão da equipe de coordenadores, estes voltavam ao trabalho como membros na/da base, enquanto gente da base era eleita para a coordenação;
– aposta no autofinanciamento: busca de fazer com que as atividades fossem financiadas pelos próprios membros do coletivo, evitando assim laços de dependência que lhes ferissem a automia;

b.No plano formativo:

– maior clareza sobre a importância fundamental do processo formativo, que devia ser contínuo e assegurado não só às lideranças, mas também ao pessoal da base;
– o processo formativo contínuo se dava a partir dos desafios do dia-a-dia, tanto os ligados à realidade social quanto ao aprofundamento da espiritualidade bíblica e temas ligados à caminhada do Povo de Deus, na história;
– um dos pontos altos desse processo formativo reside em sua metodologia de trabalho, feita a partir do conhecido méto de revisão de vida: o método “Ver-Julgar-Agir”, vindo da Ação Católica Especializada (JAC, JEC, JIC, JOC e JUC);
– em todos os ambientes formativos (em casa, no trabalho, na rua, nas lutas, nos espaços eclesiais…), todos se sentem aprendizes, a partilharem seus conhecimentos e experiências de vida, uns com os outros, ou seja, todos se sentem protagonistas do seu processo formativo, cada qual com sua contribuição;
– o foco maior dos participantes estava na incessante busca de transformação da realidade, a partir da mudança de vida dos próprios formandos, lá onde a vida os coloca;
– um lugar especial nesse processo formativo o exercício da memória histórica das lutas, das conquistas, bem como dos insucessos e reveses sofridos pela humanidade, em sua história;
– outro marco dessa formação está em manter acesa a esperança, a utopia, a partir da perseverança nas lutas do dia-a-dia, junto com os “de baixo” e olhos fitos na experiência do Movimento de Jesus de Nazaré, ao longo da história…

c. No âmbito da mobilização

– entendendo-se e comportando-se como segmentos a serviço das classes populares, as diversas expressões da “Igreja na Base” não atuam enquanto um movimento social autônomo, mas, antes, como fiéis aliados dos desvalidos e marginalizados, tratados, estes sim, como sujeitos de sua libertação, a quem tais segmentos ofereciam seu apoio, sua solidariedade;
– não têm reivindicação própria: assumem as demandas e as lutas dos distintos movimentos sociais populares e sindicais, bem como de forças partidárias aliadas aos interesses e aspirações dos “de baixo”;
– ao fazê-lo, não poupavam esforço nem perdiam oportunidade de testemunhar sua solidariedade, inclusive nos momentos mais arriscados das lutas populares. Vasta é a lista de mártires, de presos e perseguidos, ligadas à “Igreja na Base, por causa de seu efetivo compromisso com as lutas das classes populares.
Tanto as forças progressistas de maior referência, perante a sociedade civil, quanto os mencionados segmentos da “Igreja na Base”, durante o primeiro período (correspondendo ao de suas origens) nutriam sérias desconfianças e quase nenhuma expectativa na ação do Estado e seus aparelhos. Não só porque se tratava ainda de um Estado sob tutela militar. Sua desconfiança também se estendia ao Estado como órgão capaz de assegurar em processo digestão correspondente às aspirações dos protagonistas da construção de uma nova sociedade, alternativa ao Capitalismo.

Todos esses esforços empreendidos pela ”Igreja na Base” e seus aliados comportava, por certo, lacunas e limitações várias. Não obstante tal limitação, seu legado alcançou uma densidade tal que influenciou profundamente todas essas forças sociais então nascentes. O PT e a CULT, por exemplo em suas origens, se inspiraram profundamente nos processos organizativo formativo, característicos da Igreja na “Base”. Exemplos ilustrativos emblemáticos desta afirmação podem ser comprovado por exemplo, no forte investimento feito pelo PT e pela CUT na nucleação, nas decisões tomadas pela base, no autofinanciamento de suas atividades no combate à hierarquização e ao culto a personalidade, na gestão colegiada na aposta no processo formativa, no auto-financiamento, no zelo pela sua autonomia, frente ao Mercado e ao Estado, na aposta, na construção de uma nova sociedade, antes que no novo Estado…

Tanto os segmentos da ‘Igreja na Base” quanto aquelas forças sociais da sociedade civil não deram salvo exceções, prosseguimento ao seu modus operandi. Em novo contexto inciado já nos anos 90, e a profundado nas décadas seguintes, todas elas cada uma ao seu modo, passaram a relativizar ou a negligenciar, não poucos dos seus compromissos de origem. A firme aposta na construção de uma nova sociedade foi cedendo e sucumbindo ao atalho, isto é, à progressiva aposta no suposto potencial transformador do Estado e seus aparelhos, antes objeto de desconfiança, dada a retrospectiva histórica das experiências totalitárias do chamado “Socialismo Real”. Inebriadas pelos efeitos pirotécnicos de sucessivos resultados eleitorais, nas últimas décadas passaram a distanciar-se, salvo exceções das lutas e Movimento Sociais, à medida que iam apostando todas as suas esperanças nas crescentes conquistas eleitorais e acesso aos espaços estatais (Câmaras Municipais, Prefeituras, Legislativo Estadual, Governos Estaduais, Senado Federal, Ministérios, Presidência…). No fundo, estavam convencidas – equivocadamente – de que, pelo fato de os novos ocupantes das instâncias estatais serem comprometidas com os interesses populares, uma vez instalados seus representantes nesses espaços estatais, as decisões de Estado, tomadas por meio das políticas sociais, teriam o poder de mudar as estruturas sociais iníquas. Sem negar avanços significativos alcançados, durante esses governos, há de se reconhecer, num balanço crítico e auto-crítico, que, ao fim e ao cabo a balança pesou mais para o lado adverso. Confiram-se os resultados, em itens tais como: quanto do bolo orçamentário foi destinado à Reforma Agrária e à Agricultura familiar, de um lado, e, do outro, quanto se destinou ao hidro-agronegócio? O que representa o montante do erário destinado aos programas sociais, quando comparado com os ganhos do setor bancário e outras grandes empresas, inclusive via isenção fiscal, sonegação e renúncia fiscal? Quais os frutos efetivos do aliancismo, no terreno ético-político? Quanto terá custado à credibilidade das forças de esquerda, aos olhos da opinião pública e mesmo dos setores populares, o vencer eleições com parceiros portadores, há muito tempo, de um perfil amplamente duvidoso, para se dizer o mínimo? Numerosos e frequentes foram os sinais, há muito tempo emitidos, sobre essa tragédia anunciada. Por que, inclusive em setores influentes da “Igreja na Base”, o pouco caso, a ausência de reação, no tempo devido? Quando começaremos a esboçar gestos convincentes em direção ao exercício (coletivo e pessoal) de uma autocrítica? Os questionamentos são tantos….

3. CENÁRIOS PROSPECTIVOS

No horizonte da história, movemo-nos nos limites da provisoriedade. Sabemos que “tudo muda”, mas desconhecemos para que direção, em que proporção, se para melhor ou para pior… Isto vai depender de um conjunto de fatores objetivos e subjetivos, inclusive e sobretudo da qualidade social de nossas práticas, concepções e projetos. Nada está dado definitivamente. Convivemos no plano das possibilidades, até do imponderável. Ao mesmo tempo, dispomos de uma margem de previsibilidade, de probabilidades. Entre um âmbito e outro, é que ousamos projetar alguns cenários prospectivos, seja quanto a desafios de caráter societal, seja quanto a perspectivas eclesiais.

No plano societal, tanto podemos marchar em direção acenando para superação de impasses, apontando para um horizonte pós-capitalista e dos traços metabólicos do Capital, como podemos seguir dando passos em falso, ainda que com um discurso afiado, logo desmentido pela força do concreto. Neste último caso, como isto pode dar-se? Primeiro, se as forças de transformação, os movimentos sociais populares, sindicais, da esquerda consequente e outras organizações de base não assumirem, para valer, nosso compromisso de auto-avaliação (coletiva e pessoal), ante uma sucessão de graves desencontros e infidelidades ao nosso próprio horizonte. Tal decisão passa, por exemplo, pelo claro reconhecimento do progressivo distanciamento (por parte de dirigentes e de setores da base), em relação a diversos pontos axiais de nossas origens. Isto implica em reexaminarmos, com coragem e determinação, o que fizemos, ao longo dessa trajetória e deixamos de fazer, em consonância e em discrepância desses compromissos de base: tanto os de natureza organizativa, quanto os de caráter formativo, quanto os de mobilização.

Num exercício desse porte, muito teríamos a ganhar, se buscamos identificar a partir de onde, as coisas (e que coisas) começam a tomar um rumo e uma dinâmica discrepantes dos compromissos assumidos, tantas vezes e em distintas instâncias decisórias de nossa organização. Sem assumirem o compromisso de uma auto-avaliação, não apenas perdem ainda mais credibilidade perante a sociedade civil e perante os próprios setores das classes populares, de quem se dizem representantes, mas também já não merecem figurar entre os protagonistas fiéis à Classe Trabalhadora e seu projeto de transformação. Neste mister, vão ser suas novas práticas – e não mais seu discurso – a grande referência para as classes populares, que vão estar ainda mais vigilantes aos frutos concretos de sua autocrítica.

Assim, hão de conseguir “dar a volta por cima”, e retomar seus trabalhos, em novo estilo, junto com o conjunto de suas bases. Desde então, estarão mais sensíveis e solidárias a um amplo leque de lutas que andam acontecendo, no campo e na cidade. Saberão (re)descobrir a força transformadora – ainda que de modo molecular – que se acha em numerosas experiências populares, prenhes de alternatividade. Vão (re)descobrir um certo número de iniciativas em curso, ao longo do país. Desde o campo das experiências de convivência alternativa com o Semiárido, a elas se juntando e as fortalecendo e potencializando, a tantas outras similares que sinalizam, no conteúdo e na metodologia, práticas e concepções alternativas ao modelo imperante, sendo, elas próprias, seu antídoto, desde já, a médio e longo prazos.

No tocante especificamente à “Igreja na Base”, tem têm desafios semelhantes, a começar de sua disposição de fazer também sua auto-crítica, tomando como referencia práticas e concepções que foram decisivas em suas origens, com enorme influência sobre várias organizações de base da sociedade civil então nascentes. É possível que lhes sejam úteis perguntas do tipo:
– Até que ponto, a despeito de nossas predicas, estamos sendo coerentes com aquelas práticas e concepções que tanto alimentaram nossas origens, nas ações organizativas, formativas e de mobilização?
– Numa comparação (auto) crítica de nossas atuações antes e depois dos governos petistas, será que tivemos a mesma força profética de denúncia, em relação a fatos e mazelas da mesma natureza?
– Em que medida, em vez de influenciar positivamente várias organizações da sociedade civil junto às quais atuamos, acabamos, por vezes também sucumbindo às armadilhas ético-políticas que o modelo imperante nos infligiu?
– Em que medida terá sido benéfica uma aproximação demasiado íntima com as forças sociais partidárias ocupantes dos espaços estatais, em vez de preferimos manter o mínimo de distância crítica, como condição de exercício ético?
– Teremos sido suficientemente auto-vigilantes quanto ao esforço de renovação do nosso pessoal na prestação dos vários serviços as classes populares, inclusive de acessória?

Como dito, o exercício de autocrítico constitui o primeiro passo necessário, em vista de uma retomada consistente e credível das atividades, em novo estilo, junto aos diversos protagonistas do mundo dos pobres e das classes populares de cuja causa libertadora nos pomos a serviço. Retomada em novo estilo que se há de fazer, com destaque no processo organizativo, no compromisso formativo e na ação mobilizadora. Retomada em novo estilo não significa partir da estaca zero. Quantas lições podemos recolher de nossa atuação – seja no plano organizativo, seja no âmbito formativo, seja no terreno da mobilização – nos anos 80, por exemplo, e cuja eficácia transformadora foi testada, enquanto a elas nos mantivemos fiéis! Também, hoje, somos instados a reavaliar propositivamente nossa agenda, à luz de dezenas, cenas de experiências grávidas de alternatividade, espalhadas pelo Brasil e pelo Nordeste. Experiências que, em sendo por vezes moleculares, são portadoras de sementes da nova sociedade que buscamos construir, no chão do nosso cotidiano, para além de nossa cega teimosia em seguirmos apostando no que não dá certo – “pelos frutos se conhecem as árvores””…

João Pessoa, 14 de fevereiro de 2017.

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