“Sem teoria revolucionária, não há ação revolucionária”

Efeitos perniciosos da descontinuidade ou do abandono do processo formativo das forças protagonistas da construção de uma sociabilidade alternativa ao modelo imperante

A despeito de reservas que possam despertar especialmente algumas figuras clássicas do Marxismo, segue vigendo a afirmação medieval, de que “Não importa por quem seja dita, a verdade procede do Espírito Santo” (“Omne verum, a quocumque dicatur, a Spiritu Sancto est.”), Parece-nos ser o caso da afirmação que encima essas linhas.

Vamos partir de uma constatação relativamente reconhecida entre as forças progressistas: ao longo da história, recente e menos recente, as transformações societais substantivas têm sido protagonizadas fundamentalmente pelas organizações de base de nossas sociedades. São elas as principais interessadas em mudanças, até porque os setores dominantes não têm interesse em mudar sua situação de privilégios… Ainda quando estes irrompem eventualmente com discurso mudancista, isto corresponde à iniciativa daqueles segmentos dominantes não satisfeitos com o volume de benefícios recebidos, em relação aos segmentos mais privilegiados. Em certos momentos da história, eles podem até aparecer com uma retórica de mudança, mas, sempre,”mudança no sistema”, que lhes permita conservar seus anéis, ante o risco de perderem os dedos…

As mudanças substantivas pelas quais lutam as organizações de base de nossas sociedades, nunca vêm – vale sublinhar – como resultado de uma dádiva ou uma concessão dos setores dominantes, mas fundamentalmente como decorrentes de um processo de lutas e conquistas. Isto, por outro lado, demanda uma série de condições objetivas e subjetivas – como se sabe, mas se pode esquecer… Que tal refrescar a memoria, em relação a algumas delas? Cuidemos de fazê-lo, a partir de um princípio cujo abandono ou negligenciamento tem custado caro às forças protagonistas de mudanças societais. Rememorando tal princípio, cuja formulação embora mais ligada a um dos clássicos do Marxismo, tem origem nos próprios fundadores da Filosofia da Práxis. Com palavras outras, este princípio pode ser assim enunciado: “Não há ação revolucionária sem teoria revolucionária”. Convém, desde logo, explicitar o que estamos entendendo por “teoria revolucionária” e “ação revolucionária”. Comecemos por esta última. Trata-se de implementar processualmente, no terreno da prática prática (organicamente vinculada à respectiva prática teórica), iniciativas ou atividades portadoras de alternatividade ao atual modelo de produção, ao atual modelo de consumo e ao atual modelo de gestão societal, que se dêem em consonância com a dignidade do Planeta e de toda a comunidade dos viventes.

No tocante à expressão “teoria revolucionária”, destaca-se a necessidade de precisarmos melhor o sentido de “Revolução”, no qual destacamos aspectos como processo ininterrupto e em constante mudança; dimensão do horizonte de totalidade e interconexão das relações sociais (nas esferas econômica, política e cultural), razão pela qual cuidamos de e evitar um trágico reducionismo – usado e abusado -, qual seja, o de se associar, de modo tal, o sentido de “Revolução” à tomada do poder, que aquela dimensão passa a ter mais a ver com uma empreitada substancialmente militar. Em verdade, estamos entendendo “ação revolucionária” toda iniciativa prenhe de sentido de alteração substantiva da ordem vigente, como alternativa à mesma e como expressão de ensaio efetivo da nova ordem, que se quer alternativa ao sistema imperante. Isto implica, entre outras consequência, que se trata de algo que vai além de uma mera iniciativa de resistência ou de ação reativa, à medida que, para além da resistência, se busca manifestar, ainda que molecularmente, sementes da nova ordem societal.

Em décadas passadas, era relativamente consensual o entendimento de que em vão se apostaria no ativismo, sem ter um horizonte teórico servindo de bússola as atividades rotineiras dos militantes. Aqui, ali, havia alguma resistência por parte de militantes mais apressados e indispostos a pensar sua pratica: “Para que estudar?”; “O que importa é a pratica, não a teoria.” Não se davam conta de que prática e teoria, queiramos ou não, são dimensões inseparáveis, ainda que distintas. Na verdade, ambas são expressões da prática, ou melhor, da “Práxis”. Aqui se tem sempre uma prática: A prática teórica e a prática prática. São dimensões de tal modo indissociáveis, que poderíamos afirmar: “Mostra-me a tua prática, e eu te digo a teoria que a alimenta.”.

Sem ignorar o alcance dos fatores exógenos na determinação dos processos de crise do Capitalismo, não podemos nem devemos subestimar a incidência dos fatores endógenos nesse processo. Consideremos, de passagem, alguns deles. Dado o progressivo abandono ou negligenciamento do processo organizativo e do processo formativo que orientaram, até certo ponto, as praticas das forças sociais, no Brasil do final dos anos 70 e começos dos anos 80, tal entendimento foi desaparecendo do cotidiano dessas organizações, implicando trágicas consequências.

A grande força transformadora das organizações de base de nossa sociedade reside, pelo menos, em três condições fundamentais: sua forma de organização, o investimento contínuo em seu processo organizativo e sua capacidade mobilizadora.

No plano organizativo, destacam-se alguns princípios, tais como:

– um dos segredos do sucesso organizativo das forças de base funda-se no investimento continuado na criação e crescente fortalecimento de núcleos (conselhos, círculos, coletivos ou que outros nomes tenham), espalhados pelos mais diversos ambientes – nos lugares de moradia, nos espaços de trabalho, nos ambientes estudantis, ambientes pastorais, etc., etc.). Esses núcleos assemelha(va)m-se a verdadeiras células, entendidas como vitais à saúde do corpo, isto é, desde que funcionem com autonomia e de modo interconectado a outros núcleos e a distintas instâncias;

– No âmbito dos núcleos, eram compartilhadas as mais distintas questões: informes nacionais, internacionais, regionais, locais; análise de conjuntura; planejamento de iniciativas e intervenções; avaliação, com discussões acaloradas e com votações pela base, encaminhadas a outros núcleos e instâncias;

– Aí era também decisivo o princípio da Delegação, em virtude do qual as decisões tomadas eram levadas pelo Delegado ou Delegada a outras instâncias, tendo-se o cuidado, da parte do Núcleo e da parte dos delegados/delegadas, de repassar fielmente as decisões tomadas pelo Núcleo, e, nas votações, acompanhar os encaminhamentos tomados pelo Núcleo, ainda que tal não fosse o pensamento do delegado, da delegada.

– Associado ao principio de Delegação, os núcleos também trabalhavam com o mecanismo revolucionário de alternância de cargos e funções, nos órgãos de coordenação dos núcleos. Sempre escolhidos a partir da base, os coordenadores e coordenadoras eram eleitos por um prazo determinado, findo o qual voltavam para a base, enquanto da base eram escolhidos outros coordenadores e coordenadoras, não se permitindo o continuísmo nem a perpetuação.

* Autonomia é condição essencial às forças que se pretendem alternativas ao sistema imperante – o princípio de autonomia, com efeito, corresponde a uma dimensão nuclear do processo organizativo das forças de transformação que se pretendam alternativas aos sujeitos da ordem hegemônica vigente, à medida que:
– tratam de se organizar enquanto sujeitos alternativos à ordem vigente;
– mantêm-se independentes, seja do Mercado, seja do Estado, aos quais se opõe;
– estão convencidos de que aceitar financiamento ou vantagens do sistema imperante (Mercado + Estado) implica, mais cedo ou mais tarde, uma retribuição comprometedora do seu projeto, pois, como diz a sabedoria popular, “Quem com come do meu pirão, prova do meu cinturão.”;
– conferem uma importância capital ao autofinanciamento de suas próprias atividades, recorrendo as contribuições voluntarias e periódicas do conjunto de seus associados.

No plano formativo – Ao cuidado com aquela forma organizativa, que se pretend(e)ia alternativa à ordem estabelecida, vincula(va)-se orgânicamente o cuidado com o processo formativo tanto da base quanto da direção dos distintos membros de nossas organizações de base. Tal processo formativo, não se confundindo com a educação escolar, mas indo além desta, e(ra) tomado como parte substancial do próprio processo de humanização, razão por que devia ser assumido ininterruptamente.

Os protagonistas são os próprios sujeitos componentes dessas organizações de base. Tais sujeitos – coletivos e em individuais; formandos e formadoras; mulheres, homens, de distintas etnias, idades, procedências geográficas, de distintas opções filosóficas, – eram assumidos como protagonista desse processo formativo, em todos os seus momentos, sob múltiplos aspectos. Assum(e)iam esse protagonismo, desde a concepção,do referido projeto, passando pelo planejamento, pela execução, pela metodologia, pela avaliação…

Outra característica desse processo de formação se faz presente pelo continuo esforço de articular três dimensões: Memoria histórica, Práxis e Utopia. Que significados atribuímos aqui a essas expressões? Começando pela última, trata(va)-se de manter-se sempre aceso o horizonte de sociabilidade para o qual se pretend(e)ia caminhar. Aqui se cuidava de alimentar a esperança, buscando-se compor, de forma aproximativa, provisória e processual, quais os traços principais dessa sociabilidade alternativa ao modelo vigente. Nesse sentido, vivencia(va)m-se, dois momentos significativo: o exercício frequente da mistica revolucionária, bem como a ilustração de uma afirmação recolhida de um filme muito conhecido da geração de militantes dos anos 70, do filme “Queimada”, uma de cujas personagens, José Dolores, costumava pronunciar: “É melhor saber para onde ir, sem saber como, do que saber como e não saber para onde ir.”.

Ainda quanto ao horizonte a ser alcançado – dizendo mais precisamente: o horizonte a ír sendo alcançado – era comum afirmar-se a convicção de que em vão se pretenderia alcançar um horizonte de liberdade ou uma sociedade alternativa ao Capitalismo, a não ser por caminhos também de liberdade. Aí residia, uma crítica ao chamado “Socialismo Real”, de feição burocrática que, a despeito de sua retorica em contrário, em vez de combater os vícios do antigo regime, acabava objetivamente fortalecendo-os, ao substituir a Classe Trabalhadora por membros dos aparelhos do Estado ou do Partido (único, aliás).

Outra marca deste processo formativo é (ou era) o investimento pelos sujeitos implicados na memoria histórica. Aqui se parte da constatação de que, até para se construir uma sociabilidade alternativa, é fundamental contemplar e analisar os momentos mais densos do legado da humanidade, perguntando-se coisas do tipo: em outros tempos e lugares, como é que as mudanças sociais foram organizadas? Tiveram êxito? Fracassaram? Que lições podemos recolher do seu legado? Também no Brasil, como se deram as lutas sociais, em diferentes séculos e regiões? Como se comportaram seus protagonistas (coletivos e individuais)? Aqui desponta como fundamental o estudo (pessoal e coletivo) de figuras emblemáticas, capazes de ajduar o processo de formação dos protagonistas de hoje, sem se pretender reedita-las… Nesse sentido, o legado biobibliográfico de figuras clássicas e contemporâneas de referência reconhecida cumpre um papel relevante, à medida que não se pretenda repeti-las, pois isto não teria seu próprio apoio. Tais figuras não querem ser copiadas, desejam ser reinventadas…

A terceira dimensão a ser enfatizada no processo formativo dos sujeitos históricos de novo tipo, é a dimensão práxica, no sentido bem empregado,por exemplo, na produção de um Adolfo Sánchez Vázquez, além de autores clássicos como Rosa Luxemburgo, Gramsci, entre outros. Dinamicamente articulada às dimensões antes focadas, a Práxis constitui a força motriz que, conectando passado – presente- futuro, faz do cotidiano o terreno propicio para nele irem-se forjando relações de novo tipo, alternativas ao modelo hegemônico vigente trata-se de relações sociais protagonizadas pelos sujeitos comprometidos com a implantação processual dessas relações. No transcorrer dessas, importa ressaltar a prevalência da Tese 2, dirigida por Marx, em crítica formulada a Feuerbach, segundo a qual o critério de verdade não é o discurso, mas a prática.

É no terreno da Práxis, que se dão os embates decisivos, tanto no âmbito coletivo quanto no âmbito pessoal, em busca de se lançar e de fazer germinar as sementes de uma sociabilidade alternativa ao modelo vigente, cabendo-lhe ainda, constituir-se no fio condutor e conectivo entre os feitos do passado e o quefazer de um novo tempo. É, também, na Práxis do cotidiano, que se vão forjando as condições e as circunstâncias propícias, em busca do horizonte desejado. Dentre essas condições podemos destacar algumas dela:
* continuo exercício da criticidade – É no exercício constante da crítica e da autocritica – pois sem autocrítica, a criticidade perde parte substantiva do seu vigor -, que se vão aprimorando as potencialidades transformadoras dos sujeitos históricos. Isto implica o ensaio vigilante de passos relevantes tais como: o esforço pessoal e coletivo de acercamento progressivo e processual da realidade, em busca de apreender/compreender sua complexidade como condição essencial para uma adequada intervenção sobre a mesma. Para tanto, é fundamental ousar passos de um continuo aprimoramento da capacidade perceptiva do conjunto dos protagonistas, isto é, criar condições para que eles e elas vejam melhor, hoje, o que antes não eram capazes de perceber; que eles e elas escutem o que antes não ouviam ou ouviam mal; que eles e elas sejam capazes de sentir e intuir o que antes eram incapazes de fazer;

· Esforço continuo de analise de conjuntura, isto é, de compreender os desafios centrais de cada contexto histórico, como condição de nela intervir, desde a perspectiva dos protagonistas de uma nova sociabilidade;
· Necessário exercício de autocritica, isto é, de, em cada avaliação crítica de determinado contexto social, político e cultural, dar-se conta tanto dos fatores externos quanto dos fatores endógenos, responsáveis pela produção de determinado desfecho conjuntural;
· Não confundir origem de classe com posição de classe – uma coisa é um determinado sujeito da Classe Trabalhadora ter vindo das camadas mais pobres da população; outra coisa é nela permanecer e dela estar a serviço. O que importa fundamentalmente não é a origem de classe (não esquecer que não poucos revolucionários e revolucionárias vieram de camadas privilegiadas, havendo depois rompido com sua classe original e assumido os interesses dos “de baixo”) mas a POSIÇÃO DE CLASSE por eles e elas efetivamente assumida;
. Mais do que zelar pela fidelidade aos companheiros e companheiras de caminhada, é importante permanecer fiel à causa da Classe Trabalhadora – no transcorrer dos embates interclassistas, é frequente a observância de laços afetivos a companheiros e companheiras de classe (em tese…), a tal ponto que se corre, não raro, o risco de a eles e elas se afeiçoar, que se chega a um ponto de tudo relevar, inclusive em caso de deslizes ético-políticos de profundo alcance, sob a vã alegação de que, sendo “dos nossos”, só temos que defender, não importando o que façam. A posição deveras revolucionária vai em direção distinta: mais vale defender a causa, pelos caminhos da verdade – “só a verdade é revolucionária” – do que prestar solidariedade incondicional e indevida aos deslizes cometidos, durante a caminhada. A este respeito, tornou-se conhecida a afirmação de Aristoteles: “Platão é meu amigo, mas mais amiga é a verdade.”

Ainda no terreno da Práxis do dia-a-dia, três outros pontos merecem destaque: que processo formativo responde melhor aos desafios dos novos tempos? Que perfil de protagonista ou militante atende melhor às urgências dos novos tempos? Qual o lugar do estilo de vida (coletivo e pessoal) melhor corresponde às necessidades e aspirações desses tempos?

Com relação ao primeiro ponto – tipo de processo formativo , diferentemente de décadas passadas ou recentes, em que o processo formativo contemplava, quase exclusivamente, a dimensão política – e esta, tendente a limitar-se apenas às relações sociedade- Estado, com pouco ou nenhum foco no potencial transformador das relações cidadãs de cada dia -, desponta, cada vez mais, como fundamental enfatizar-se o caráter integral do processo formativo dos distintos sujeitos das organizações de base de nossas sociedades, into é, um processo formativo que se revele, além de contínuo, capaz de trabalhar o conjunto das dimensões do ser humano como um todo e de todos os seres humanos. Não se trata de desconsiderar ou de minimizar-se o papel da dimensão política no processo de humanização – alvo maior do processo formativo -, mas de reconhecer e levar a sério a complexidade e a inteireza de de suas dimensões. Conscientes do nosso inacabamento, mesmo sabendo que, em nosso percurso existencial, não atingiremos a plenitude de nossa condição humana, sentimo-nos, contudo, continuamente vocacionados a caminharmos em sua direção. Eis por que se nos impõe como meta ensaiarmos passos nessa direção, cuidando de trabalhar as mais diversas dimensões deste processo – cósmica, espacial, ecológica, gênero, etnia, geração, dimensões econômica, política, cultural, subjetividade… Relevante aqui notar é que essas (e outras) dimensões hão de ser trabalhadas, de modo articulado, como fios de uma malha, e não isoladamente ou de modo etapista (primeiro tal dimensão, depois a outra, a outra…). Isto, por uma razão fácil de compreender: por exemplo, quando trabalhamos a dimensão “Gênero”, convém sublinhar que, enquanto mulher ou enquanto homem, cada um de nós, cada uma de nós, não deixa de ser, ao mesmo tempo, negro/negra, criança/adolescente/jovem/adulto/idoso; sulista, nordestino ou de outra região, etc., etc.

No que toca ao aspecto concernente à necessidade de se ir forjando um perfil de militante de novo tipo, compatível com as urgências desses tempos, também temos muito a caminhar. Salvo exceções, nossas organizações de base são tributárias de experiências com militantes e dirigentes “liberados”, em decorrência de situações de clandestinidade. Sem ignorar o sentido de tal opção, dadas as circunstâncias históricas então vivenciadas, importa, por outro lado, reconhecer que isto não deveria tornar-se regra, como passou a ser. Que perfil de novo tipo há de se priorizar, ante tão complexa conjuntura? Seguem, a este respeito, algumas pistas, a partir de critérios defensáveis. Um destes é a necessidade de se entender um militante como um companheiro, uma companheira de base, antes de qualquer coisa, e assim seguir sendo, como regra. Se, em algum momento, as circunstâncias demandam um trabalho especial, da parte desses militantes, de animação ou de coordenação, eles são convidados e assumem tal encargo, por um período PASSAGEIRO, findo o qual, retomam seu trabalho de base, vindo outros membros de base a darem seguimento àquele encargo. Onde e quando esse critério não é cumprido, a tendência de tal inobservância é múltipla:

– aquele militante de base, agora “liberado”, dificilmente passa a comportar-se como um igual aos demais companheiros: assume, salvo exceções, uma atitude de “chefe”, a partir do que ficam abertas janelas para a instalação de privilégios;
– atribuições antes próprias de militantes de base passam a ser cumpridas pelo militante “liberado”, sem o suporte necessário do coletivo; agem “em nome do coletivo”…
– em vez de cuidarem da própria profissionalização, tendem a profissionalizar sua condição de “liberados”, passando a viver por longo tempo à custa de instâncias dessas organizações;
– se antes, como militantes de base, viviam do seu trabalho, e participavam, de igual para igual, das reuniões e encontros de seu núcleo, a quem também prestavam conta de suas atividades VOLUNTÁRIAS, agora já não se sentem comprometidos, a não ser com seus “superiores”, outros coordenadores de instâncias, também eles não vivendo do seu trabalho profissional;
– por outro lado, sua condição de “liberados” limita consideravelmente o exercício de sua própria autonomia, de sua liberdade de crítica ante as instâncias às quais devem satisfação…
– ainda que em escala menor, há casos de dirigentes e coordenadores que aparecem muito distanciados de suas bases, sobretudo no padrão de vida, à medida que se vão acumulando privilégios…

Ante tais riscos EVITÁVEIS, sente-se, cada vez mais, a necessidade de autocrítica também quanto a este quesito. Precisamos valorizar o esforço de cada militante por buscar consolidar-se profissionalmente, de modo a viver com autonomia, e prestar seu serviço de militância, de forma VOLUNTÁRIA. Será que, pelo menos em parte, uma significativa parcela de deslizes ético-políticos não tem a ver com esse jeito de organização acima ilustrado?

A consequência mais grave desse tipo de perfil de militante, toda via, não foi ainda tocada. Por conta fundamentalmente do progressivo hiato entre bases e dirigentes, estes passaram, em vez de implementar e zelar pelas decisões da base, a prescindir do controle da base, passando a controlar, na pratica, todo o movimento, ainda que mantendo afiada sua retorica de “representantes” das bases, enquanto estas se quedaram inertes ao avanço daqueles, razão por que nelas incide maior responsabilidade.

Chegamos, portanto à conclusão de que é imperioso às organizações de base irem forjando um perfil de militante e de dirigente de novo tipo atentando para, e tomando a serio os ensinamentos daqueles deslizes ético-políticos.

O terceiro ponto acima anunciado nos leva a problematizar o estilo de vida médio dos protagonistas de nossas organizações de base. Parcelas significativas das forças de esquerda pareciam espaço – e ainda parecem – fascinadas pelo estilo burguês de vida, fascinadas pelo, e não raro reféns do consumismo, sob a alegação de que o luxo da burguesia deve ser estendido para o conjunto de todos os cidadãos e cidadãs. Aí reside um gravíssimo equívoco que tem incidido sobre muitos casos de desvios ético-políticos. Como se trata de uma falácia inebriante para grande número de militantes, maior é o risco de se reeditarem praticas burguesas, “em nome da Classe Trabalhadora”. Nesse sentido, é imperioso combater vigorosamente esse tipo de prática e de concepção, à medida que um estilo de vida consumista agride não apenas a enorme maioria dos humanos (a grande maioria jamais alcançará padrão de vida semelhante ao da classe dominante dos Estados Unidos, da Europa e mesmo dos países periféricos), como também o Planeta Terra, nossa “casa comum”.

João Pessoa, 20 de outubro de 2016.