Entrevista com o Papa Francisco, no avião, de volta da Armênia

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(Seleção de trechos, por: Alder Júlio Ferreira Calado)

Principais pontos tocados na entrevista do Papa Francisco, feita no vôo de retorno da Armênia

Como em ocasiões precedentes, em seus retornos de viagens apostólicas mundo afora – o que se vem tornando uma fecunda oportunidade, especialmente pela força da espontaneidade que tais circunstâncias propiciam -, o Papa Francisco, desta vez, retornando da Armênia, concedeu a vários jornalistas, que o acompanhavam, no voo de regresso a Roma. Vejamos os principais pontos presentes, na referida entrevista:

Sobre sua experiência com o Povo Armênio: marcas do seu passado e votos e orações pelo seu futuro

Primeiro em relação ao seu futuro. Oro pelo Povo Armênio, desejando-lhe justiça e paz. O Presidente da Armênia, em seu discurso de boas-vindas, foi bem claro: “Vamos fazer as pazes, vamos nos perdoar, e vamos olhar para o futuro.” Quando eu orava, hoje, vinha-me à lembrança um ícone do Povo Armênio: uma vida revestida de pedra e uma ternura de mãe. Tem carregado a cruz – uma cruz de pedra – mas não perdeu a ternura, a arte, a genialidade de sua música. Muito sofreu, em sua história, mas manteve em pé a sua fé. O fato de ser a primeira nação cristã não basta, pois também é uma terra abençoada por Deus: teve muitos santos e mártires; é um povo revestido de pedra, mas que guarda uma ternura de um coração de mãe.
Com relação à primeira pergunta, sim, desde a Argentina, tive muitos amigos armênios. Quero dizer-lhes que mais importante do que a pertença seja à Igreja Apostólica, seja à Igreja Católica, é a armenidade.

Sobre o que vai dizer ao Povo do Azerbaijão, que visitará, em breve:

Cuidarei de promover a paz. Falarei, como em outros países, sobre o que vejo e o que sinto. Direi o que me vier ao coração, mas sempre buscando ressaltar as positividades, sugerindo soluções viáveis. Direi que sigam adiante!

Outro jornalista, inclusive falando em nome de um colega seu, de “La Croix”, saúda e agradece ao Papa Francisco, pela brisa primaveril que sopra sobre a Igreja, e lhe pergunta se ele acha que terá sido “útil para a paz”, o emprego do termo “genocídio”, em seu discurso pronunciado no palácio presidencial

Na Argentina, sempre que se referia ao extermínio armênio, sempre se empregava a palavra “genocídio”. Eu não conhecia outra. E na catedral, em Buenos Aires, em um dos altares, se vê um crucifixo de pedra com a indicação: “o genocídio armênio”. (…) Quando chego a Roma, é que escuto outro termo: “o grande mal” ou “a tragédia terrível”. Então, dizem-me que o termo “genocídio” não se deve usar, por ser ofensivo. Eu havia falado em três genocídios ocorridos, no século passado: o armênio, o de Hitler e o de Stálin. Houve outras, também, de menor intensidade (como na África), mas na órbita das duas grandes guerras mundiais. Perguntei, então, por que eu não devia usar aquele termo. Dizem que não é verdade que tenha havido, enquanto um “genocídio”… Esta é uma palavra técnica, dotada de uma tecnicidade, que at[e se ´pde dizer “extermínio”, mas não “genocídio”, porque esta palavra implica medidas de reparação ou coisa do gênero. Quando eu estava preparando aquele discurso, descobri que o Papa São João Paulo II empregou o termo “genocídio” e empregou também a expressão “o grande mal”. Acabei usando a primeira. Não caiu bem. O Governo turco fez uma declaração, depois a Turquia chamou para Ancara o embaixador, que é um bravo homem, um embaixador de luxo, aquele da Turquia.Depois, voltou. Mas, isto é um direito, o direito de todos ao protesto. De início, aquela palavra não se achava naquele discurso – daí a pergunta sobre por que eu “acrescentara” aquela palavra… Mas, depois de ouvir o tom do discurso do Presidente, e considerando o que eu trazia do passado sobre esta palavra, na Argentina, e após haver pronunciado esta palavra, de público, ano passado, entendi que soaria estranho não empregar a mesma palavra, na ocasião. Mas, também eu gostaria de sublinhar outra coisa: tanto nesse “genocídio” como nos outros dois, as grandes potências internacionais só olhavam o outro lado… (…) Eu não pronunciei esta palavra, para ofender, a disse objetivamente.

Na pergunta da Jornalista, sobre o Papa Emérito Bento XVI, ela queria saber de uma suposta declaração de Francisco (ou do Papa Bento?) sobre sua alegria em “condividir” a condição de papa: “haveria, então, dois papas?

“Dois ou três… Houve uma época em que houve três…” Não me lembro dos termos desta declaração… já faz tanto tempo… Benedito é papa emérito! Ele o disse claramente, naquele dia 11 de fevereiro, que se resignaria, a partir de 28 de fevereiro, e que iria recolher-se para ajudar a Igreja, pela oração. Benedito se encontra, pois, no Mosteiro, a rezar. Nós nos encontramos muitas vezes, nos telefonamos. Ainda há pouco, ele me escreveu uma cartinha, com aquela sua assinatura, desejando-me boa viagem. Tenho dito que é uma graça ter em casa um avô sábio. Para mim, ele é o papa emérito, o avô sábio e aquele que me protege com suas orações. Nunca me esqueço do que ele disse, naquele dia 28, aos cardiais: ante meu sucessor prometo-lhe obediência. (…) Numa dessas oportunidades, agradeci publicamente a Bento XVI, por ele ter aberto a porá aos papas eméritos. Há setenta anos, não tínhamos papa emérito. E hoje, há. (…)

Qual sua avaliação do encontro, em Cuba, com os Patriarcas Kirill e Bartolomeu?

Faço uma avaliação positiva. Foi dado um pequeno passo. Não se obteve cem por cento, mas foi passo adiante. Foi um encontro com pessoas sinceras. Foi um primeiro passo. Num primeiro passo, faz-se o que se pode. Foi feita uma comunicação conjunta. Fizemos o que pudemos. Eu estou contente.

Sobre a saída do Reino Unido da Comunidade Européia: pode significar um risco de guerra?

Guerra já há, na Europa. Respira-se um ar de divisão, não apenas na Europa. Haja vista a Catalúnia, a Escócia, no ano passado… Não digo que se trate de casos perigosos, Digo que é preciso estudar mais, antes de se dar um passo adiante na direção da divisão.O que importa é buscar soluções viáveis. (…) A busca de unidade é sempre melhor do que o conflito. A busca de fraternidade é melhor do que o distanciamento. Fazer pontes é melhor do que construir muros. (…) Importa buscar criatividade, assegurar mais liberdade, buscar a unidade na diversidade. (…) É preciso ser mais criativo. Criativo no assegurar mais postos de trabalho, criativo na condução da economia, haja vista a necessidade de trabalho para os jovens, que enfrentam altas taxas de desemprego. (…) Hoje, as duas palavras-chave para a Europa são: criatividade e fecundidade.

Sobre a relação da Igreja Católica com as Igrejas Reformadas: que tal a suspensão da condenação a Martinho Lutero? (Convém lembrar que o Papa Francisco estará em Lund (Suécia), a convite de Igreja Reformada, por ocasião dos 500 anos da Reforma)

Creio que as intenções de Martinho Lutero não eram erradas. Ele era um reformador. Talvez seus métodos não fossem precisos. Naquela época, a Igreja não era um modelo a ser imitado. Havia corrupção na Igreja. Muito apego ao poder. Então, ele deu um passo adiante, justificando por que fazia isto. E hoje, Católicos, Luteranos, Protestantes, estamos de acordo com a doutrina da justificação. Depois, as coisas vão se complicando, encerradas numa disciplina envolvendo vários aspectos, inclusive com distintas posições – Cavino, Zwingio… e por trás deles, os príncipes: “Cuius régio, eius religio” (os súditos devem professar a religão dos respectivos governantes)… Olhando hoje a história daquele tempo, fica difícil entender. Mas, hoje, é preciso retomarmos o caminho do nosso reencontro, 500 anos depois. Eu creio que é importante, primeiro, rezarmos juntos; depois, que trabalhemos juntos pelos pobres, pelos perseguidos, por tanta gente que sofre… os refugiados… tanta gente. E que os teólogos estudem juntos. É um longo caminho… (…)

Sobre as Mulheres: a importância na Igreja, ordenação de Diaconisas, o papel da Teólogas…

Em resumo, o Papa sublinha a importância da Mulher, enfatizando mais seu modo singular de pensar, de sentir, do que sua funcionalidade. Para ele, é muito mais importante reconhecer a contribuição da Muher, no que diz respeito ao seu modo de pensar, que é diverso dos homens… acha mais importante isto do que sua funcionalidade, isto é, seu lugar como ordenada. Mesmo assim, a despeito de incertezas quanto às afirmações de que, nos primeiros séculos, tenha havido propriamente Diaconisas (ordenadas), ele autorizou o empenho de especialistas na área, para estudar melhor o caso, em listas formadas por mulheres, com o acompanhamento de um cardeal… (Nota de quem resumiu: a impressão é de que muito pouco se caminha, nessa área, em relação a passos enormes dados pelas mulheres, inclusive as teólogas…)

Sobre os homossexuais

A pergunta refere-se ao Cardeal Marx, para quem a Igreja deve pedir perdão pelas discriminações cometidas por ela contra as pessoas homossexuais. O Papa Francisco reforça esse mesmo sentimento, inclusive relembrando declarações suas sobre o caso: “Quem sou eu para julgar?”

(Nota de quem resumiu: Aqui se tem um ponto de avanço considerável, inclusive na posição pessoal do Papa Francisco).

https://www.youtube.com/watch?v=BWHm71WiZG8

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