Por sujeitos revolucionários de novo tipo: ponderações e questionamentos para debate

Para nós, que nos queremos integrantes de forças protagonistas de profundas mudanças sociais, quê sentidos vimos conferindo a conceitos tais como “Revolução”, “Revolucionária/o”? Ou nos bastaria seguir caminho com o conceito convencional de “Militante”?

Diante dos desafios hoje enfrentados, que tipo de protagonistas se faz historicamente necessário? Nossos atuais procedimentos organizativos têm respondido a contento à complexidade dos novos tempos? E quanto à (falta ou insuficiência de) formação, que lugar isto tem ocupado na atual crise? Que tipo de tarefas organizativas e formativas somos chamados a priorizar? São perguntas que tais, que nos animam a propor essas breves notas. Cuidamos de distribuí-las em três momentos: partimos de uma pequena amostra de fatos atinentes ao modo de gestão, no âmbito ético-político; em seguida, tratamos de problematizar corriqueiras versões desses fatos, do ponto de vista das classes populares, no que diz respeito à gestão societal; enfim, esforçamo-nos por trazer ao debate algumas pistas de enfrentamento desses desafios.

Partindo de alguns fatos ético-políticos atinentes ao modo de gestão societal

Em notas precedentes, temos insistido na urgência, para as organizações de base de nossa sociedade, de se empenharem mais e mais em construirmos – ou, mais precisamente, em irmos construindo – um novo modo de produção, um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal, com a convicção de que se trata de uma mesma tarefa – de tríplice dimensão, cada uma delas a ser necessariamente articulada em vista de um todo. Unidade que resulta ser fundamental ter em conta, ainda quando, por razão didática, se tome à parte cada uma dessas dimensões, como ora cuidamos de fazer, nesta introdução, com relação à gestão societal, aqui acentuando o componente ético-político na gestão societal.

Múltiplas, de fato, são as razões da urgência de lidarmos, em bases alternativas ao “establishment”, com as práticas e concepções convencionalmente instaladas e reproduzidas de gestão societal, que, por sua vez, comportam distintos ângulos, dos quais aqui nos limitamos ao de natureza ético-política. Atenhamo-nos, por exemplo, ao extenso conjunto de formas de desperdício das riquezas socialmente produzidas. Algo que, de tão rotineiro, passa, não raro, a ser “naturalizado”, por mais profundamente danosos que se mostrem seus efeitos. A cultura do desperdício, assume, com efeito, uma infinidade de manifestações, em nosso cotidiano, recobrindo diversas esferas de nossa realidade (econômica, política, cultural…), implicando desperdícios: de água como o de energia; de alimentos, de numerosos bens supérfluos; desperdícios decorrentes (via extorsão) de tantas formas de privatização de bens, de recursos, de tempo e de espaços públicos, de variadas formas: amoldando o horário do serviço público aos meus interesses particulares e/ou aos meus próximos); servindo-nos, de modo aético, de tantos bens e recursos de repartições públicas. E o quê dizer das várias formas de desperdício, na esfera macroeconômica? Estas se dão, por exemplo, via graves e socialmente injustificadas renúncias fiscais, em favor, não apenas de grandes empresas, mas também de outros segmentos indevidamente favorecidos; via remessa de lucros; desperdícios das riquezas do tesouro via sonegação fiscal, especialmente por grandes fortunas, a não taxação de grandes heranças; a sobrecarga de impostos em cima dos segmentos mais vulneráveis dos contribuintes, ao lado de uma subtaxação dos grupos e maior remuneração; a devastadora cultura da propina reinante em nossa sociedade, não apenas (embora sobretudo) nos altos escalões político-empresariais, mas também em outros âmbitos de nossa sociedade; os assombrosos desperdícios de propaganda paga com dinheiro público, a destinação perdulária de centenas de milhões de Reais a campanhas suntuosas, via “caixa dois” e esquemas de propinas, inclusive com a intervenção de “marqueteiros” regiamente pagos; a própria consagração do expediente abominável do “Caixa Dois”, o escandaloso financiamento de partidos e campanhas via grandes empresas públicas e empreiteiras; o desperdício do tempo parlamentar, a exemplo dos muitos dias não trabalhados durante o ano; os sucessivos escândalos que, além dos nababescos roubos (em bilhões de Reais!) ao tesouro público, ainda travam, impedem ou retardam o fluxo econômico ordinário, durante meses, anos…

Sobre este último, importa ainda sublinhar um ENORME dano para a nossa sociedade: atendo-nos apenas ao caso dos parlamentares, sendo eles regiamente remunerados como “representantes do Povo”, supostamente para trabalharem em prol do bem público, eis que, depois das últimas eleições, não apenas trabalharam minimamente, nesses quase dezoito meses, como têm passado e seguem passando a maior parte do seu tempo, em sucessivas sessões para investigarem inúmeros e graves malfeitos cometidos por parte expressiva de seus pares… Dificilmente nos detemos a avaliar essa dimensão gigantesca do dano: eleitos e nababescamente remunerados (um deputado como Eduardo Cunha custa perto de meio milão/mês ao erário…)

Eis uma pequena amostra das distintas formas de desperdícios extremamente corriqueiros e recorrentes neste País… Importa, por conseguinte, repensarmos os caminhos eticamente descabidos, tomados pela nossa gestão societal, nesta e noutras dimensões, de organizarmos a produção, circulação, distribuição e uso de nossas riquezas.

(Re)examinando interpretações e versões de práticas e feitos, à luz da dimensão ético-política do que fazer gestionário alternativo à ordem estabelecida

Em face do agir característico da ética capitalista, especialmente em tempos de crise aguda, que critérios parecem corresponder melhor ao agir das forças que se insurgem contra tal modelo, inclusive seu “modus operandi”? É legítimo pretendermos enfrentar o projeto capitalista de organização, valendo-nos de suas mesmas práticas e de suas mesmas armas, sob o pretexto de que, em vista da justeza dos nossos fins, e, portanto, da razão aí implícita, sendo nós a usarmos daquelas armas e expedientes, nossa luta se torna legítima, porque “nossa moral é superior à deles”? Será que tal argumento é mesmo eticamente sustentável? Eis alguns questionamentos cuja discussão há de nos ajudar a (re)examinar nossas práticas e concepções revolucionárias.

Não é principalmente o impacto deletério, produzido pelo furacão do atual contexto sócio-histórico, sob o qual nos movemos, que nos leva a (re)propor esta reflexão, por mais que o mesmo furacão a reforce. Há, com efeito, algum tempo, nos quedamos inquietos ante a questão ora (re)proposta ao debate. Em várias ocasiões, tivemos oportunidade de externar nossas inquietações com relação a um novo modo de produção, a um novo modo de consumo e a um novo modo de gestão societal, fundado no “Bem Comum da Humanidade” (François Houtart cf. http://web.ua.es/es/giecryal/documentos/ponencia-houtart.pdf?noCache=1361258372640) com toda a comunidade dos viventes. Ousamos, desta feita, dar sequência a inquietações que nos desafiam, cada vez mais, e que vale trazer de volta ao debate. Trata-se, aqui, de retomar a discussão sobre que sujeitos revolucionários são historicamente requeridos para fazer frente aos novos desafios, somados aos antigos, remanescentes. Sobre este ponto, não se trata de subestimá-los, mas de buscar novos procedimentos de enfrenta-los. As velhas ferramentas, por si só, já não respondem, com eficácia. O certo é que vêm irrompendo desafios de novo tipo, cujo enfrentamento com maiores chances de sucesso requer, não apenas uma análise objetiva da realidade concreta, como também o reconhecimento e adequada resposta à urgência de um novo perfil de sujeitos revolucionários (coletivos e individuais – “militantes”, “protagonistas”…), de modo a fazermos justiça aos grandes clássicos, que não querem ser reproduzidos, mas reinventados, e de modo a atualizarmos as chaves de compreensão e de intervenção sobre a realidade atual e seus desafios candentes, que já não têm como ser enfrentados apenas com as mesmíssimas ferramentas do século XIX ou do século XX, até porque outra, sob vários aspectos, é a realidade atual.

Para tanto, estamos conscientes de que a questão ora (re)proposta só vale ser enfrentada, com fecundidade, em dinâmica conexão com outras questões correlatas, do tipo: “Modo de Produção”, “Modo de Consumo”, “Modo de Gestão Societal”, “Revolução”, “Revolucionária”, “Revolucionário”, entre outros conceitos. Como em outras ocasiões, já enunciamos algumas delas, cuidamos, nestas breves notas, de compartilhar apenas a que trata da urgência histórica de um novo tipo de sujeitos revolucionários.

Se o que analisamos acerca da realidade social, em tempos corriqueiros, traz sempre a marca do provisório, cautela extraordinária nos é exigida em tempos atípicos. Não é infelizmente o que se vem constatando da parte de parcela expressiva de analistas de referência. Há, com efeito, uma tendência ao fascínio por posições “definitivas” ante um quadro profundamente complexo. O caminho mais fácil segue sendo, com raras exceções, a tomada de posição escancaradamente favorável ou incondicionalmente contrária a processos profundamente ambíguos. Nada a estranhar, quanto a isso, da parte de analistas da mídia comercial: isto, salvo exceções, faz parte do seu ofício ordinário. O problema se dá quando isto é feito por figuras de reconhecida contribuição às análises com perspectiva das forças de esquerda, a boa parte das quais passa despercebido que, nos atuais embates da cena político-econômica, tornam-se extremamente temerárias análises “acabadas”, com tom definitivo, à medida que, dada a dinâmica dos fatos em cena, os acontecimentos posteriores se encarregam de desmentir ou de desmontar as bases de tais análises.

Uma das consequências de tal atitude temerária é sucumbir-se às armadilhas de uma ética da conveniência, isto é, de forjar-se uma justificativa artificial a cada constatação de cometimento de equívoco de interpretação, sem que se admita qualquer parcela de responsabilidade na incidência do equívoco. Clara falta de autocrítica, que acaba a lançar sempre ao “inimigo” (à burguesia) a culpa exclusiva pelos malfeitos.

A este propósito, é oportuno que nos sirvamos do elenco de casos ilustrativos acima utilizado como uma amostragem de numerosas incidências de práticas ético-políticas falaciosas, tendo como foco as mais distintas formas de desperdício por conta de má gestão societal. Comecemos pelos de caráter macroeconômico.

O sistema da dívida, em pleno vigor – e do qual o Brasil, a despeito de ser um dos países mais profundamente golpeados, segue sendo um histórico refém resignado – constitui uma das expressões de maior referência do espírito capitalista. Aqui, resulta inevitável que nos remetamos às pesquisas e estudos conduzidos pelos integrantes da respeitável Equipe da “Auditoria Cidadã”, cf. http://www.auditoriacidada.org.br/trabalhos-academicos-divida/ , da qual Maria Lúcia Fatorelli é uma referência emblemática (cf. inclusive várias palestras suas, sobre o tema). Um combate eficaz às grandes falcatruas das contas públicas brasileiras passa inafastavelmente pelo reexame crítico dos graves fatores que estão por trás do sistema da dívida pública brasileira, como de outros países. Com uma diferença: países bem mais modestos, do ponto de vista econômico, em relação ao Brasil, ousaram organizar auditoria da dívida pública, a exemplo do Equador, e tiveram excelente resultado, enquanto o Brasil segue destinando cerca de 500 bilhões de Reais, por ano, só para os serviços dessa dívida “eterna”, em relação à qual se referiu um Poeta popular, por meio do mote: “Paguei mais do que devia / Devo mais do que paguei”…

Outra fonte de gigantescos desperdícios, a qual, combinada com péssima gestão societal – implicando inclusive múltiplos expedientes de corrupção – finca-se no sistema tributário brasileiro. Sistema iníquo, não tanto pela carga tributária que impõe, mas sobretudo em razão da péssima gestão (e, portanto, desastrado e DESIGUAL retorno). À diferença de países (como os da Escandinávia), que aplicam alta carga tributária, assegurando, entretanto, razoável retorno em serviços públicos de qualidade, no caso do Brasil, pouco tem a ver a esdrúxula carga tributária com o retorno da qualidade social dos impostos arrecadados. No caso do Brasil, um dos fatores decisivos dessa colossal iniquidade social reside no expediente perverso dos chamados impostos indiretos, cobrados, de forma igual, ao conjunto dos contribuintes, sejam eles assalariados ou desempregados ou sejam eles contribuintes milionários (sem esquecermos que há bilionários que muito pouco ou quase nada pagam de impostos ) a isto se soma. Uma outra face da iniquidade de nossa política tributária reside nos critérios vigentes de cobrança adotados na Declaração de Renda (Imposto de Renda), gravando extraordinariamente faixas de contribuintes de menor renda, enquanto pouco se cobra proporcionalmente de faixas privilegiadas de contribuintes.

Ainda no âmbito do sistema tributário brasileiro, resultam igualmente devastadores os estragos causados pelo volume e pela frequência de casos de sonegação fiscal, em especial ligados a grandes empresas e ao mundo das finanças. Um rombo gigantesco nas contas públicas! Expediente que, por sua vez, implica um multiforme esquema de corrupção envolvendo agentes econômicos e atores de órgãos estatais. Outra sangria do dinheiro público se dá via distintos mecanismos de renúncia fiscal, em várias esferas de Poder, num sem-número de casos onde reina, com raras exceções, a impunidade. A isto também cumpre acrescentar a derrama de dinheiro não declarado ou ilegalmente depositado em diversos paraísos fiscais (inclusive por meio de remessas de lucro) , aqui envolvendo organismos e expedientes alimentados pela fina flor da ética capitalista internacional… Em suma, trata-se de uma enorme sangria das riquezas públicas a depor diretamente contra o atual modo de gestão societal. Se esta não for superada, de pouco ou nada adianta a mera providência corrente de se lutar pela simples bandeira de “aumento de verbas para a saúde”, “aumento de verbas para a educação”, etc., etc.

Em relação aos espaços micro-societais, é também vasta a gama de casos de desperdícios rotineiros, resultantes do tipo de gestão societal em vigor. Em notas precedentes, já tivemos oportunidade, mais de uma vez, de focar esta dimensão da gestão societal, como o fizemos, por exemplo, no texto intitulado “Cidadania proativa à contracorrente da ordem hegemônica” (cf.
http://consciencia.net/33880-2/ ), ou também noutro texto sob o título “Nem privatismo nem Estatolatria: o Público como centralidade ético-política, na gestão da sociedade” (cf.
http://consciencia.net/nem-privatismo-nem-estatolatria-o-publico-como-centralidade-etico-politica-na-gestao-da-sociedade/ )

Há, por conseguinte, de se reconhecer a força transformadora das ações moleculares do cotidiano, impregnadas que se acham do DNA de iniciativas gestionária de caráter macro-relacional. Tal incidência concreta não se restringe ao modo de gestão societal, no campo estritamente econômico-administrativo. Também incide com força nas relações ético-políticas. Fazemos questão de sublinhar este entendimento tanto mais enfaticamente, quando corremos o grave risco de subestimar tal incidência, no atual contexto, sob o pretexto de não sucumbirmos ao moralismo. À parte, com efeito, posições extremadas de caráter moralista, não parece eticamente sustentável negligenciarmos o peso decisivo da infindável sucessão de falcatruas e escândalos. Não bastasse seu caráter ético-político evidente, também tem sérias implicações gestionais e econômicas, no atual quadro. A soma dos valores surrupiados do tesouro público, graças ao conjunto de crimes levantados contra o patrimônio público resultaria algo astronômico, de modo a inviabilizar qualquer plano razoável de combate à desigualdade social. Por outro lado, estamos cansados de saber que a realidade, sendo uma e indivisível, em vão buscamos tomar suas interfaces em separado. Um minúsculo exemplo: ao analisarmos os graves escândalos em série envolvendo agentes econômicos, agentes políticos e outros segmentos – por exemplo, no caso do Legislativo -, podemos perceber que, desse jogo corrosivo, não escapa sequer a Natureza, por razões distintas. Pensemos num caso-miniatura – a quantidade de celulose consumida em forma de centenas de resmas de papel para registrar infindos malfeitos de toda ordem cometidos por quem foi eleito para promover o Bem Público…

Tal horizonte almejado, quais caminhos percorrer…

Muitos dentre nós, da geração dos anos 60 e 70, podem lembrar-se de uma série de inconsistências cometidas, por vezes com a melhor das intenções, enquanto outras vezes, com base numa perigosa autoavaliação, como se nos bastasse ser integrantes das forças populares e organizações de base, para nos sentirmos blindados do mal, portadores de qualidades eticamente superiores às forças adversárias… Critérios esses que também incidiam diretamente em nossas práticas e concepções acerca inclusive de questões pertinentes a um modo alternativo de gestão societal. Nestas notas, cuidamos de, ao revisitar noções tais como “Revolução” e conceitos correlatos, ousar um reexame, ensaiando pistas, em vista de uma necessária atualização de práticas e concepções das mesmas categorias. Aqui nos fazemos questionamentos do tipo: à vista da complexidade dos tempos de hoje e de seus desafios, segue suficiente o entendimento do conceito “Revolução”, do jeito que vimos trabalhando, há tanto tempo? Haveria algo, hoje, diante do que sentimos a necessidade de reexaminar este e outros conceitos correlatos (“Revolucionária”, “Revolucionário”…)? De modo semelhante, o que (sempre) aprendemos e cumprimos em relação a sermos “militantes”, será que este conceito também segue inalterado, ou sentimos necessidade também de revisitá-lo, à luz dos desafios atuais?

Buscando imprimir neste exercício de reexame crítico um procedimento didático, passamos a sublinhar aspectos mais destacados do que aprendemos por “Revolução” e termos correlatos. “Revolução”, de “re-volver”, à diferença de “e-volução” (progresso retilíneo, bem ordenado), sugere uma reviravolta, uma guinada radical de modo de produção: no caso, do Capitalismo para o Socialismo, passagem necessária para o Comunismo, uma sociedade sem classes, portanto sem Estado. Para tanto, urgia uma longa e intensa preparação das forças historicamente chamadas a protagonizar essa passagem. Isto implicava dotar os sujeitos revolucionários (individuais e coletivos) de instrumentos e predicados especiais, para a realização da tarefa de pôr abaixo a ordem vigente e implantar um modo de produção alternativo ao Capitalismo, de modo a permitir a transição, não apenas para o Socialismo (que ainda comporta traços de uma sociedade de classes, hegemonizada pela Classe Trabalhadora, por meio do seu Partido) em direção à nova sociedade, uma sociedade sem classes, sem Estado, a sociedade comunista.

Essa travessia – que aprendemos a buscar, inclusive junto aos clássicos (desde Marx e Engels) – só pode ser obra da Classe Trabalhadora (outro conceito a merecer reexame ou nova contextualização), razão por que é tarefa destes protagonistas ter assegurada sua ininterrupta formação. Há, sobre isto, um acúmulo teórico considerável, ainda que de qualidade heterogênea, tanto mais quanto se vai distanciando dos principais clássicos de referência (Marx, Engels, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Lukács…) em acolhimento a teóricos de perfil vanguardista ou, o que é pior, em substituição por uma espécie de vulgata do Marxismo, característica principal da herança stalinista, que, décadas a fio, orientou a política central, desde o Kremlin, dos partidos comunistas, mundo afora, inclusive no Brasil. Associam-se, direta ou indiretamente, a tal orientação, práticas, concepções, estratégias e táticas do tipo:

– é apanágio do Comitê Central do PCUS, porque detentor da correta interpretação da teoria marxista-leninista, determinar as linhas de trabalho e intervenção, bem como suas respectivas estratégias e táticas;
– a tarefa central dos revolucionários, enquanto classe, é derrubar o Estado burguês, e implantar o Estado socialista, recorrendo a todos os meios, em especial à violência, mas apenas quando o PCUS avaliasse o momento adequado, independentemente da avaliação endógena (dos dirigentes e militantes locais);
– tal era a ênfase emprestada ao fator militar como decisivo da superação da ordem capitalista (como de qualquer modo de produção), que se tornava impossível, para a maioria dos dirigentes e militantes, não apenas dissociar a luta armada como fator imprescindível do quefazer revolucionário, como também vinculava o conceito de “Revolução” principalmente à tomada violenta do poder, secundarizando ou empalidecendo marcas essenciais da nova sociedade, donde a centralidade alcançada por figuras talentosas para a arte militar, desprovidas, com frequência, de predicados humanistas, cegos que se tornavam, uma vez no poder, para a “arma da crítica”;
– cabe aos dirigentes e militantes indicarem ao povo qual é “o” caminho a seguir, já que o povo entra no processo, a reboque dos que sabem;
– cabe ao Comitê Cental do Partido ou a seus prepostos locais aplicarem as determinações vindas de cima para baixo e de fora para dentro;
– os dirigentes locais e seus militantes liberados ou remunerados pela estrutura partidária encarregavam-se também de planejar, executar e avaliar metas, atividades programáticas. Eis algumas medidas do receituário, graças ao qual uma avaliação crítica do legado geral da quase totalidade das experiências socialistas não indica saldo animador, com raras exceções. A que atribuir saldo tão preocupante? Em vez de respostas, mais vale perguntar:

* Ante o crescente agravamento da crise do Capitalismo, a despeito das lutas populares, sindicais e partidárias, é razoável seguir atribuindo responsabilidade por esse quadro apenas a fatores externos? Sem descuidarmos do peso dos fatores exógenos, que parcela de responsabilidade nos cabe, diante da ineficácia ou insuficiências de nossas lutas?
* Até que ponto as formas de nossa organização – centralizadora, determinista, fortemente hierarquizada, com militantes profissionais, tratando os organismos populares como meros alvos de nossas manobras, com profunda desatenção e descompromisso com o processo formativo contínuo de dirigentes (já que as bases quase sempre estão fora de nosso compromisso formativo, etc., etc.) vêm sendo corresponsáveis por tal situação?
* Será que nossa própria proposta formativa, tradicionalmente levada a termo, mesmo que tivesse continuidade hoje, estaria preparada para dar conta dos novos desafios? Que tipo de formação é hoje requerida aos protagonistas de uma nova sociedade? Seguiria suficiente uma formação estritamente política, ou uma proposta formativa à altura dos desafios dos nossos tempos teria que incorporar, além da dimensão política, diversos outros aspectos do processo de humanização (relações de gênero, de etnia, de geração, de espacialidade, de ecologia, de mística, de subjetividade), numa perspectiva de integralidade?

* Que tipo de militante ou de protagonista se faz necessário, para o enfrentamento exitoso de velhos e novos desafios? O perfil convencional de militante, inclusive o de tipo remunerado, e bem dotado de fundamentos estritamente políticos (relação sociedade-Estado) tem como responder à altura dos novos tempos?

* E quanto às estratégias e táticas convencionais, tais como a tendência a comportamentos formais (superestimação dos laços formais de pertença, de uso obrigatório de símbolos identitários (crachá, vestes, bonés, camisas vermelhas, etc.), os superdimensionamento da propaganda ideológica, táticas como a superestimação (para fora) dos próprios recursos (prometer mais do que se tem), inclusive nas superestimativas de números de participantes em manifestações ou algo do tipo – será que tudo isto não está a merecer uma apreciação crítica alternativa? Que as forças adversárias assim se comportem, nada a estranhar: são práticas que atendem à sua perspectiva continuísta. Mas, será assim também que devem comportar-se as forças que pretendem plantar sementes de uma nova sociedade, desde aqui e agora?

Nessa perspectiva, são inumeráveis os equívocos a superar, quase todos associados à nossa incapacidade de autocrítica, em especial no campo ético-político. Em primeiro lugar, sucumbimos com frequência à tendência nominalista, isto é: a uma complacente autoavaliação, segundo a qual bastaria nossa pertença a uma corrente política, a um movimento popular, a um sindicato ou partido de esquerda, para nos avaliarmos “superiores” aos adversários: “nossa moral é superior à deles”… Por sermos filiados à esquerda, estamos imunes aos vícios “dos outros”. Estamos blindados, por sermos “de esquerda”… Tanto é verdade, que não nos ocorre ousar a mesma régua para “medir” vícios nossos e dos que acusamos da classe inimiga. Isto é por demais frequente. Uns o confessam abertamente, enquanto a maioria assim se comporta, mas evitando reconhecer de público…

Só por meio da autocrítica, é possível dar-se conta e superar práticas historicamente suicidarias a que, por vezes, cedemos, e ousarmos ensaiar passos de uma resistência propositiva e de alternatividade. Referimo-nos a práticas suicidarias, pensando justamente em posições açodadas, perigosa armadilha, tanto mais quanto dão a ilusão de reagir à altura aos fatos adversos, quando, na verdade, nos vemos, em seguida, enredados em verdadeiros impasses ou aporias. Apenas dois exemplos ilustrativos: num momento, nos lançamos contra o “consórcio” Supremo Tribunal Federal-Procuradoria Geral da República-Ministério Público Federal-Polícia Federal-Mídia comercial, quando os fatos militam contra nós, e, ato seguinte, passamos a socorrer-nos justamente de segmentos desse mesmo consórcio, quando os fatos são do nosso interesse… Costumamos denunciar vigorosamente a cobertura da imprensa internacional dos países centrais do Capitalismo, e, de repente, dessa mesma imprensa nos socorremos, quando noticia fatos a nosso favor… Eis uma armadilha que depõe contra nossa maneira de apreciar a realidade, por usarmos dois pesos e duas medidas, beirando a consagração de uma ética da conveniência, que sempre tem fôlego curto…

Outro ponto que se impõe à nossa apreciação: nosso distanciamento ou, em alguns casos, nosso abandono do cultivo pela boa teoria, fazendo ouvidos moucos a uma experiência fundamental a todo processo que se queira revolucionário: “Sem teoria revolucionária, não há ação revolucionária”… Quantos equívocos graves poderíamos apontar, a este respeito! Do campo econômico ao campo político, da esfera cultural ao plano ético… Ilustremos, de passagem, algumas situações recentes de evidente falta de apreço à ética revolucionária. Sucessivos e crescentes desvios devem-se, com efeito, a tal abandono. Como, por exemplo, quando nos descuidarmos dos limites profundos decorrentes de uma aposta cega no Estado como espaço de transformação social? Daí foi um passo para outras opções sabidamente descabidas, tais como o aliancismo, o suicidário descolamento dos dirigentes, em relação às bases; os sucessivos desrespeitos a princípios elementares como o das decisões pelas, a entrega do destino e das decisões fundamentais a um pequeno grupo de dirigentes, a perda crescente de autonomia em relação às instâncias do Estado e do Mercado, o abandono do processo formativo, a massiva arregimentação de militantes qualificados – mulheres e homens – retirados das lutas sociais do campo e da cidade, para atuarem nas instâncias do Estado (União, Estados e Municípios), implicando uma grave sangria aos movimentos sociais populares, adesismo partidário das organizações sindicais, apoio incondicional dado ao partido por expressivas parcelas da chamada “Igreja na Base”, entre outros fatos.

– Por qual sociedade lutamos?
– Refrescando nossa memória histórica, atentos e abertos aos sinais…
– Que caminhos temos trilhado?
– Que processos organizativos temos priorizado, nas últimas décadas?

Essas notas acabaram estendendo-se mais do que o que havíamos pensado. Ainda assim, vários pontos ficaram de fora, dentre os quais questionamentos acerca do esgotamento do Estado (com uma série de componentes, tais como democracia representativa, aparelhos de Estado, sistema partidário, etc.) como forma sustentável de gestão societal capaz de superar o Capitalismo; a urgência de retomar, em outras bases, o processo formativo contínuo das bases e dos dirigentes da Classe Trabalhador (esta mesma categoria necessitando de atualização histórica, a partir dos, e para além da contribuição dos principais clássicos). Isto fica para outas ocasiões. Submeto esses pontos à apreciação e ao debate fraterno.

João Pessoa, 14 de junho de 2016