Papa Francisco: a força das fragilidades

imagesHomilia do Papa Francisco, na missa celebrada por ocasião do Jubileu dos Doentes, no dia 12/06/2016

“Fui crucificado com Cristo. Nâo sou eu quem vive, é Cristo quem vive em mim.” O Apóstolo Paulo usa palavras muito fortes, para expressar o mistério da vida cristã: tudo se resume no dinamismo pascal morte e ressurreição, recebido no Batismo. Com efeito, com a imersão na água, cada um se sente como se tivesse morrido e sido sepultado com Cristo, enquanto quando dela volta a emergir, manifesta a vida nova no Espírito Santo. Essa condição de renascimento envolve toda a existência, em todos os seus aspectos. Até a doença, o sofrimento e a morte se acham enxertados em Cristo, e nEle encontram seu seu sentido último. Hoje, no dia do Jubileu consagrado àquelas pessoas portadoras dos sinais da doença e da deficiência, esta Palavra de vida encontra em nossa Assembléia uma ressonância particular.

Na verdade, cedo ou tarde, todos somos chamados a nos defrontar, ou talvez a nos desencontrar, com as fragilidades e as doenças nossas ou dos outros. E quantas caras diferentes assumem essas experiências tão típica e dramaticamente humanas! De todo modo, elas suscitam, de maneira mais aguda e premente, a questão acerca do sentido da existência. Em nosso espírito, pode até estar presente uma atitude cínica, como tudo se pudesse resolver sofrendo ou contando apenas com nossas próprias forças. Outras vezes, ao contrário, volta-se a colocar toda a confiança nas descobertas científicas, pensando que, por certo, em alguma parte do mundo, existe uma medicina capaz de curar a doença. No entanto, não é assim. E mesmo que aquela medicina nos fosse acessível, o seria a pouquíssimas pessoas.

Ferida pelo pecado, a natureza humana traz inscrita em si a realidade do limite. Sabemos da objeção de que, sobretudo em nossos tempos, a existência é marcada por fortes limites físicos. Supõe-se que uma pessoa doente ou deficiente não pode ser feliz, porque é incapaz de levar o padrão de vida imposto pela cultura do prazer e da diversão. Numa época em que um certo cuidado do corpo se torna mito de massa, e portanto um negócio, o que é imperfeito deve ser ofuscado, por atentar contra a felicidade e contra a comodidade dos privilegiados, pondo em crise o modelo dominante. É melhor manter essas pessoas separadas em algum recinto, se possível dourado, ou nos lugares reservados ao pietismo e ao assistencialismo, porque não atrapalham o ritmo do falso bem-estar. Em alguns casos, a propósito, se defende que o melhor é livrar-se delas o quanto antes, porque se torna um peso econômico insustentável, em tempos de crise. Mas, na verdade, quanta ilusão vive o homem de hoje, quando fecha os olhos ante a doença e a deficiência! Não compreende o verdadeiro sentido da vida, que também requer a aceitação do sofrimento e do limite. O mundo não se torna melhor, por ser composto apenas de pessoas aparentemente perfeitas, para não dizer “saradas”, mas quando aumentam a solidariedade entre os seres humanos, a aceitação recíproca e o respeito. Como são verdadeiras as palavras do apóstolo: “O que é frágil aos olhos do mundo, Deus escolheu para confundir os fortes.”

Também, o Evangelho deste domingo apresenta uma situação particular de fragilidade. A pecadora aparece julgada e marginalizada, enquanto Jesus a acolhe e a defende: “Ela muito amou”. É esta a conclusão de Jesus, atento ao sofrimento e ao pranto daquela pessoa. Sua ternura é o sinal do amor que Deus reserva aos que sofrem e são excluídos. Não há apenas o sofrimento físico. Hoje, uma patologia das mais frequentes é também a que afeta o espírito. É um sofriemento que envolve o espírito, tornando-o triste, porque privado de amor: a patologia da tristeza. Quando se tem a experiência da desilusão ou da traição nas relações importantes, então nos descobrimos vulneráveis, frágeis e sem defesa. A tentação de voltarmos a nos fechar em nós mesmos se faz muito forte, e corremos o risco de perdermos a oportunidade da vida: amar, apesar de tudo! Amar, apesar de tudo! A felicidade que cada uma deseja, contudo, pode expressar-se de várias maneiras, e só pode ser alcançada, se formos capazes de amar. Este é o caminho. É sempre uma questão de amor. Não há outro caminho. O verdadeiro desafio é o de quem ama demais. Quantas pessoas com deficiência e que sofrem voltam a abrir-se para a vida, assim que descobrem estar sendo amadas. E quanto amor pode jorrar de um coração até por um único sorriso: a terapia do sorriso! Então, a própria fragilidade pode tornar-se conforto e amparo para a nossa solidão.

Em Sua Paixão, Jesus nos amou até o fim: sobre a Cruz, Ele revelou o Amor que nos dá sem limites. O que podemos reprender a Deus pelas nossas enfermidades e sofrimentos que já não esteja impresso no rosto do Seu Filho crucificado? À Sua dor física se somam o deboche, o desprezo e o padecimento, enquanto Ele responde com a misericórdia, que a todos acolhe e a todos perdoa: pelas Suas feridas, nós fomos curados.

Jesus é o médico que cura com a medicina do Amor, porque toma sobre Si mesmo nosso sofrimento e o redime. Nós sabemos que Deus sabe compreender nossas enfermidades, porque Ele próprio as experimentou na primeira pessoa.

A maneira como vivemos a doença e a deficiência é sinal do amor que estamos dispostos a oferecer. O modo como enfrentamos o sofrimento e o limite é critério de como assumimos nossa liberdade de dar sentido às expeiências da vida, ainda quando nos parecem absurdas e imerecidas. Não nos deixemos, portanto, sucumbir a essas tribulações. Sabemos que na fraqueza podemos tornar-nos fortes, e receber a graça de completar aquilo que falta em nós do sofrimento de Cristo, em favor da Igreja, Seu corpo. Um corpo que, à imagem daquele do Senhor Ressuscitado, conserva as feridas, sinal das duras lutas, mas trata-se de feridas sempre traspassadas pelo Amor.

https://www.youtube.com/watch?v=HRm2IGAj2Cw
(Do minuto 1:54:29 ao minuto 2:05:50 )
Trad.: AJFC