Libertação mental do racismo

povo-negroPor Fábio Nogueira*

A abolição dos escravos foi o maior e sem dúvida melhor embate que tivemos no Brasil. Todos se uniram na luta pela liberdade. Abolicionistas, intelectuais, negros libertados, homens e mulheres. Foi toda uma luta envolvendo vários grupos.

Por alguns momentos cheguei a questionar a luta dos abolicionistas, também porque ainda não estudava história e isso mantinha-me na esfera da ignorância. Hoje tenho outra visão sobre o assunto. A abolição da escravidão não foi capaz de nos libertar de outra forma de prisão obrigatória: a escravidão mental.

Esta semana estava assistindo a sessão solene do Congresso Nacional em comemoração ao dia de combate ao racismo. Um jovem de seus 25 anos chamado Fernando Holiday foi convidado para fazer sua apresentação ao dia comemorativo . No meio da apresentação, o jovem jorrou todo seu desprezo pela luta de negros que lutam e lutaram na construção de uma nação forte e igualitária. Sequer poupou José Vicente (o Vicentinho), um dos políticos que nunca fugiu da causa negra. O que assisti naquele momento não foi um debate ideológico, foi desprezo à toda luta do negro brasileiro.

Não o culpo totalmente. O rapaz faz parte do MBL (MOVIMENTO BRASIL LIVRE), que entre suas façanhas não suporta conviver com as diferenças . O rapaz sofre daquilo que Joaquim Nabuco disse certa vez na “A obra da escravidão”. A desconstrução desta obra leva tempo para ser destruída. Se a pessoa não tiver o trabalho de formular dúvidas e pensamento crítico sempre será alvo de manipuladores. Como disse o poeta português Fernando Pessoa “ Cansa sentir quando se pensa” Infelizmente o jovem não está sozinho nesta cruzada a favor da bestialidade e ignorância .

A Vida nos ensina que aprendemos certas coisas a duras penas . Não ficaremos surpreendidos caso o jovem seja um dia descartado ou oprimido pelas forças da mão de ferro do Estado. Faz lembrar também o capitão do mato da época dos escravos. Esses sabiam todos os truques que os escravos faziam para escapar do engenho, entretanto o mesmo capitão do mato não era bem quisto aos olhos do senhor da senzala e mesmo entre os escravos. O senhor de engenho sabia com quem estava lidando e depois era desprezado pelo sinhozinho. A história parece que está se repetindo .

Tomara que a vida não seja tão cruel para este rapaz. Ainda há tempo de despertar. Ainda há tempo para usar esta energia para questionar a casa grande.

Libertarmos da escravidão física é tão difícil quanto da abolição mental.

*O autor é estudante de história da universidade Castelo Branco e militante da Educafro.

Fonte: Fazendo Media
http://fazendomedia.org/libertacao-mental-do-racismo/

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