especial
Roberto Font Ruiz retrata o antigo contraste entre pobres e ricosO Bem, o Mal e o Neoliberal
O aparato midiático neoliberal, submisso à lógica econômica, nos enleva a uma situação psicológica de guerra econômica, nos fazendo crer que, em nome do (todo poderoso) capital, estariam em jogo, com a mesma gravidade de uma guerra, a sobrevivência da nação e a garantia da liberdade. Este artigo recorre a um ponto que parece estar sendo marginalizado nesse discurso: os mecanismos sociológicos e psicológicos que vêm tornando a prática da injustiça social, a prática da violência corporativa e social, uma constante banalizada dentro do fenômeno de massificação da cultura e do comportamento
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Por Renato Kress, editor Consciência.Net, fevereiro de 2006

Segunda Parte: Nem Eros nem Thanatos, trabalho

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“A injustiça social é uma evidência tão familiar, ela é de uma constituição tão robusta, que parece facilmente natural àqueles mesmos que são suas vítimas” – Marcel Aymé (1902-1967)

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“Encontra-se largamente difundida a idéia de que paira sobre nosso país uma ameaça de derrocada econômica. Até mesmo cientistas e pensadores admitem que, sendo a situação excepcionalmente grave, é preciso aceitar recorrer a meios drásticos, sob risco de fazer algumas vítimas.”


Essa citação acima poderia estar escrita em qualquer coluna de jornal ou artigo em revista nacional recente, mas, como o que temos enfrentado em matéria econômica, como já defendi em artigo anterior, é mais um processo do que qualquer espécie de “crise”, essas sentenças inauguram o primeiro parágrafo da obra A Banalização da Injustiça Social de Christophe Dejours(1), do ano de 1999, e demonstram a forma como o aparato midiático neoliberal, submisso à lógica econômica, nos enleva a uma situação psicológica de guerra econômica, nos fazendo crer que, em nome do (todo poderoso) capital, estariam em jogo, com a mesma gravidade de uma guerra, a sobrevivência da nação e a garantia da liberdade. Conhecemos bem esse discurso, seus fomentadores e seus interesses. Meu desejo neste artigo é recorrer a outro ponto que parece estar sendo marginalizado nesse discurso: os mecanismos sociológicos e psicológicos que vêm tornando a prática da injustiça social, a prática da violência corporativa e social, uma constante banalizada dentro do fenômeno de massificação da cultura e do comportamento.

Em nome da “justa causa” econômica utilizamos métodos cruéis contra nossos próprios cidadãos, excluímos nossos idosos, que já perderam a agilidade, os jovens mal preparados, os vacilantes, enfim qualquer um que seja incapaz de responder às trombetas da lógica de mercado, não se mostre apto a combater essa “guerra” é demitido ou não aceito, ignorado, dispensado, deletado, socialmente considerado infame, torpe, vil, indecoroso, vergonhoso. Ao passo que dos outros, dos que são considerados aptos para o combate, exigem-se desempenhos sempre superiores em termos de produtividade, de disponibilidade, de disciplina e abnegação. A fórmula única e absoluta da sobrevivência, segundo os magos do discurso neoliberal, é a superação constante e ininterrupta dos “concorrentes”. Estes “concorrentes”, como trataremos a seguir, são todos os “outros”, estejam eles dentro ou fora dos ambientes de trabalho. Essa guerra implica, como bem pudemos e podemos perceber nos Estados Unidos e nos contínuos discursos dos nossos “especialistas” econômicos e políticos dentro da grande mídia, em sacrifícios individuais consentidos pelas pessoas e sacrifícios coletivos, decididos em altas instâncias, tudo em nome da ratio oeconomicus
 

Assim na terra como na Empresa, o microcosmo pessoal e o macrocosmo empresarial

Estamos sendo bombardeados midiaticamente pela vida leve a saudável, pelo corte de calorias, pelo corte de açúcares, pelo corte de despesas desnecessárias e, paralelamente, vamos nos sensibilizando, nos identificando, com os “organismos” empresariais e a sua guerra sã, uma guerra pela saúde (das empresas): “enxugar os quadros”, “tirar o excesso de gordura”, “arrumar a casa”, “passar o aspirador”, “fazer uma faxina”, “desoxidar”, “tirar o tártaro”, “combater a esclerose ou a ancilose”, simultaneamente somos quase propelidos a fazermos exercícios físicos que demandam mais e mais os temas do sacrifício e do esforço, e seguimos nos sensibilizando e identificando com os esforços e sacrifícios que somos obrigados a fazer em nome da empresa, em nome do emprego, com o fantasma da incerteza a nos desejar bons sonhos todas as noites em anúncios de telejornais como o que disse no dia de ontem (segunda feira, 23 de janeiro de 2006) que a Ford pretende demitir entre 14 a 30 mil empregados e a fechar 14 fábricas, incluindo fábricas no Canadá e no México porque esses países, apesar de parceiros do Nafta, estavam lutando pela defesa dos seus direitos trabalhistas, uma luta política que vai contra o receituário neoliberal.

É sabido que tratamentos higiênico-dietéticos são dolorosos. Por este mesmo motivo as metáforas médico-cirúrgicas são particularmente apropriadas para justificar as decisões de remanejamento, rebaixamento, marginalização, ostracismo ou dispensa, que causam às pessoas sofrimentos, aflições e crises de que são testemunhas compulsórias os psiquiatras e assistentes sociais. Nos encontramos submersos num oceano infindável de resignação, sempre aceitando os inconvenientes que as circunstâncias nos impõem. Me pergunto até que ponto a “natureza” pacífica do brasileiro não é algo criado.
 

A Alta Roda empresarial e a sobrevivência do socialismo utópico

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“Ninguém pratica o mal só pelo mal: até o Diabo tem suas razões, e cada qual julga as suas mais fortes...” – Imre Madách (1823-1864), A Tragédia do Homem. Palavras de Lúcifer


Ao contrário do que se possa pensar ainda que retomando uma certa ingenuidade da opinião pública, os grandes dirigentes de empresas não estão completamente alheios a esse processo, esperando serem “iluminados” por um Michael Moore da vida. A experiência de Dejours junto aos dirigentes de empresas lhe diz que eles estão completamente cientes dos riscos que correm, mas que, em sua maioria, não querem mudar de rumo. Por que? Porque acreditam que, nessa guerra, seus adversários serão os primeiros a se esgotar, e então eles reinarão na paz estabelecida. Afinal, devemos reconhecer que os partidários da guerra sã estão vencendo nos últimos 20 anos, mesmo que na batalha haja mais vencidos que vencedores. O fato é que há vencedores e a guerra prossegue, o que nos prova que a máquina de guerra econômica, sociológica e psicológica acionada funciona. E funciona admiravelmente bem considerando-se a fluidez com que os modismos econômicos e políticos – primordialmente as fórmulas geradas dentro dos consensos dos grandes organismos internacionais, como o FMI, o Banco Mundial ou a ONU – se efetivam e subitamente são transcendidos na pós-modernidade. 
 

Nossos Gurus intelectuais da mídia e a lógica sacrifical unânime

Mas porque a máquina de guerra funciona tão bem assim? Há duas respostas possíveis, mas só a primeira é levada seriamente em consideração por nossos “especialistas” televisionados e midiotizados:

1. A guerra começou e se prolongou porque era inevitável. Ela é um efeito da lógica interna do que se compreende por sistema: o sistema econômico mundial, o mercado. Essa guerra seria, de algum modo, natural, inerente às leis inevitáveis, as quais a ciência econômica elucida. A ciência econômica teria, nessa possibilidade, o status de lei natural e, portanto infalível e universal, inscrita na origem do universo, para além das vontades dos homens e das mulheres, ou mesmo leis pertencentes ao “celestial”, no sentido aristotélico do termo.

2. A outra resposta, raramente formulada, consiste numa heresia sem tamanho para os nossos “especialistas” midiotizados, teríamos que admitir as leis econômicas como leis instituídas, isto é, construídas por homens, ou ainda como leis do “sublunar”, também no sentido aristotélico do termo. Sublunar: o mundo situado abaixo da lua, isto é, o mundo habitado pelos humanos, onde a evolução das conjunturas é sensível às decisões e ações humanas (à diferença do mundo dos astros e da matéria, regidos pelas leis eternas da física e da natureza).


Compreendendo o excesso de análises resignadas que nossos “especialistas” produzem a partir da primeira hipótese, preferiremos aqui lidar com a segunda. Que a guerra econômica seja desejada por certos dirigentes nada tem de enigmático e muito provavelmente isso resulta mais de um cálculo, de uma estratégia, que propriamente de uma “cegueira”. Mas, para que a máquina de guerra econômica venha vindo funcionando a plenos pulmões é necessário que todos os outros, os não “decisores”, contribuam para o seu funcionamento. Nessa anuência, no consentimento, é que se verifica o padrão de banalização social da perversidade gerada pela “lógica” do mercado.

Não se trata aqui de procurar compreender a lógica econômica – isto os nossos economistas já não sabem fazer muito bem – mas de concentrar o esforço de análise nas condutas humanas que produzem esta máquina de guerra, bem como nas que levam a consentir nela e mesmo submeter-se a ela. Tomemos então a proposição de que a maquinaria econômica não é um Deus ex machina, mas que ela funcione porque homens e mulheres consentem em dela participar maciçamente. Procuramos compreender as motivações subjetivas da dominação, ou mais especificamente, por que uns consentem em padecer sofrimento, enquanto outros consentem em infligir tal sofrimento aos primeiros?
 

Por que consentimos no padecer e no infligir?

Se esta máquina continua a mostrar seu poderio – e de forma a cada dia mais e mais cruel e intensa – é porque consentimos em fazê-la funcionar, mesmo quando isso nos repugna. As motivações subjetivas para tal consentimento, que se coloca além do sentimento de repugnância para com os efeitos da guerra econômica, tem aqui um papel determinante. Pesquisas francesas acerca do sofrimento no trabalho na área de psicologia do trabalho revelam que a partir desse sofrimento se forma o consentimento para participar do sistema, dentro de um complexo sistema de humilhação, insegurança, ameaças, lógica beligerante e promessas de estabilidade. Quando funciona, o sistema gera um sofrimento crescente entre os que trabalham. O sofrimento aumenta porque os que trabalham vão perdendo gradualmente a esperança de que a condição que hoje lhes é dada possa amanhã melhorar. Seus sacrifícios pela empresa, sua boa vontade, são tomados como obrigação e, quanto mais dão de si, mais são “produtivos”, pior procedem com relação a seus colegas de trabalho, em razão mesmo de seus esforços e do seu sucesso. Assim, a relação para com o trabalho vai se dissociando paulatinamente da promessa de felicidade e segurança compartilhadas: para si mesmo, primeiramente, mas também para os colegas, os amigos e os próprios filhos.

Esse sofrimento aumenta com o absurdo de um esforço no trabalho que em troca não permitirá satisfazer as expectativas criadas nos planos material, afetivo, social e político. Ao contrário do que se poderia constar pela lógica cartesiana, o sofrimento não desativa a maquinaria de guerra econômica, pelo contrário, alimenta-a numa sinistra inversão que tentaremos explicitar. Na realidade criamos defesas contra o sofrimento no trabalho, pequenas “estratégias de defesa”, sutis, cheias de engenhosidade, diversidade e inventividade, mas que também encerram uma armadilha que pode se fechar sobre os que, graças a elas, conseguem suportar o sofrimento sem se abater.
 

Pequenas defesas, tolerando o intolerável

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“Uma injustiça é esquecida muito mais depressa que um insulto” – Chesterfield (1694 – 1773)


Para compreender como chegamos a tolerar e a produzir a sorte reservada aos desempregados e aos novos pobres numa sociedade que não pára de enriquecer devemos tomar consciência do sofrimento no trabalho. Temos também que assumir o caráter preocupante de certas defesas que criamos para fechar os olhos àquilo que não somente intuímos como sabemos. É importante ter em mente que, no sofrimento como nas defesas, mesmo no consentimento para padecer ou infligir sofrimento, não há leis naturais, e sim regras de conduta construídas por homens e mulheres.
 

Empregando a identidade

Indubitavelmente, quem perdeu o emprego, quem não consegue empregar-se (desempregado primário) ou reempregar-se (desempregado crônico) e passa pelo processo de dessocialização progressivo, sofre. É sabido que esse processo leva à doença mental ou física, pois ataca os alicerces do que se convencionou identidade no mundo pós-moderno. Há uma ligação direta entre quem somos e a atividade que executamos para viver, como se a segunda fosse a pedra de fundação da primeira. Na pós-modernidade nós não somos em-si, nós somos em relação ao que fazemos, explicitamente ao que produzimos. Isso leva a uma crescente desvalorização de boa parte do que chamamos de ciências humanas, mas isso é um outro ponto.

Todos partilham de um sentimento de medo – por si, pelos próximos, pelos amigos ou pelos filhos – diante da ameaça de exclusão. Sabemos que a cada dia aumentam nos países periféricos, como nos centrais, o número de excluídos e os riscos de exclusão. Não há como, em sã consciência, esconder-se atrás do véu demasiado transparente da ignorância que serve de desculpa.
 

Um mundo justo ou um mundo ajustado?

Por outro lado, nem todos partilham hoje do ponto de vista segundo o qual essas vítimas do desemprego, da pobreza e da exclusão social seriam também vítimas de uma injustiça. Somos educados a fazer uma clivagem entre o que se compreenda como sofrimento social, principalmente o economicamente gerado, e o conceito de injustiça. Essa separação é grave, pois para os que nela incorrem, o sofrimento é uma adversidade, mas essa adversidade não reclama necessariamente uma reação política. Pode justificar compaixão, piedade ou caridade, mas não provoca necessariamente indignação, cólera ou apelo à ação coletiva. 

O sofrimento só gera solidariedade e protesto quando se estabelece uma associação entre a percepção do sofrimento alheio e a convicção de que esse sofrimento resulta de uma injustiça. Evidentemente quando não se percebe o sofrimento alheio não se levanta a questão da mobilização numa ação política, tampouco a questão de justiça e injustiça.

Para compreendermos melhor essa questão devemos analisar os vínculos que se estabelecem entre sofrimento alheio e injustiça (ou justiça). Pessoas que dissociam o sofrimento alheio da percepção de uma injustiça adotam freqüentemente uma postura de resignação. Resignação diante de um “fenômeno”: a crise do emprego, considerada uma fatalidade, comparável a uma epidemia, à peste negra, à cólera e até à Aids. Segundo essa concepção, não haveria injustiça, mas apenas um fenômeno “sistêmico”, econômico, sobre o qual não se poderia exercer nenhuma influência. Sabemos hoje em dia que, mesmo ainda não podendo curar a Aids, por exemplo, já somos capazes de evitá-la e mesmo de controlá-la, o que faz dos noticiários econômicos e das suas “inevitáveis” “crises” ainda mais teatralmente apocalípticos.
 

O destino econômico, espécie de zodíaco do FMI ou as runas da OMC

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“Há mil maneiras de praticar injustiças sem quebrar uma única lei”Jehoshua Steinberg


Não creio que a atribuição da adversidade do desemprego e da exclusão à causalidade do destino, à causalidade econômica ou à causalidade sistêmica advenha de uma inferência intelectual individual. Ninguém deduz, por si só, que o desemprego e a exclusão social mundial são gerados por si mesmos, nem está instalado no hardware do ser humano a tese da causalidade do destino, não é resultado de uma invenção pessoal, de uma especulação intelectual ou uma investigação científica individual. Ela é dada ao sujeito, exteriormente.

Qual o motivo que leva o discurso economicista, que atribui o infortúnio social, econômico e político a uma mera causalidade do destino, a implicar a adesão maciça de nossos cidadãos à resignação ou à falta de indignação e de mobilização coletiva? Precisamos unir conceitos da psicologia e da sociologia na tentativa de compreender esse fenômeno. As ferramentas para essa análise, vindas dos estojos de trabalho dessas duas disciplinas, formam o campo da psicodinâmica do trabalho(2). Essa campo de estudo sugere que a adesão ao discurso neoliberal seria uma manifestação do processo de “banalização do mal”.
 

Governo “democrático”, sociedade nazista

A exclusão e a adversidade infligidas a outrem em nossas sociedades, sem mobilização política contra a injustiça, derivam de uma dissociação estabelecida entre adversidade e injustiça. Como já disse, uma dissociação que é dada ao sujeito, exteriormente. Sob o efeito da banalização do mal, da banalização da violência que há na própria existência do menor abandonado, do desempregado, do sem-terra, no exercício de atos civis comuns por parte dos que não são vítimas da exclusão (ou não o são ainda) e que contribuem para excluir parcelas cada vez maiores da população, agravando-lhes a adversidade, faz com que nos aproximemos, sob o fantasma de expressões como “esforço de guerra” – considerando a tal “guerra econômica” -, de uma sociedade nos moldes da que baseou o sistema nazista. Basta verificarmos o estudo de Hannah Arendt sobre o caso Eichman e veremos sobre seu fantasma a máscara, ou como Jung denominaria, a persona, do homem pós-moderno.
 

Heil Mercado!

A adesão à causa economicista, que separa a adversidade da injustiça funcionaria como defesa contra a consciência dolorosa da própria cumplicidade, da própria colaboração e da própria responsabilidade no agravamento da adversidade social. Teríamos que ter um dia de Cosme e Damião por semana para expurgar a culpa psico-social que introjetamos e tendemos a negar, ou viver uma semana como São Francisco de Assis ou Gandhi por mês. 

Não estamos falando de nada excepcional, de nada extraordinário, estamos falando do banal, do corriqueiro, do fútil, do trivial, do vulgar, literalmente daquilo que desconsideramos por subtrair-lhe qualquer importância. Não se trata apenas da banalidade do mal, mas da banalidade de um processo que é pré-requisito para o funcionamento do sistema econômico neoliberal. 

Para que o liberalismo pós-moderno funcione de maneira eficaz é indispensável fazer crer que o exercício do mal praticado por uns contra outros seja compreendido lógica e naturalmente como uma simples adversidade casual, como fato do destino inexorável.
 

Nem tudo em vão...

Mesmo que haja líderes cujo comportamento, por seus requintes na banalização da prática do mal, mereça uma análise específica como George Bush ou Ariel Sharon, nem por isso a identificação dos mesmos confere ao leitor ou ao autor o benefício da inocência. Da mesma forma não temos como solucionar a curto prazo a adversidade social gerada pelo liberalismo econômico atualmente.

Mas nem por isso este artigo será escrito em vão. Hoje se inicia o quinto Fórum Social Mundial em Caracas, na Venezuela, e, a partir deste texto, baseado na obra de Christophe Dejours, podemos começar a debater e difundir os estudos sobre a banalização que vem causando passividade e inércia em grande parte da população mundial. 
 

Neoliberanazismo

Se a banalização das práticas de perversidade de uma minoria incluída contra uma maioria excluída nada tem de excepcional, por ser subjacente ao próprio sistema liberal, ela também está presente nas vertentes totalitárias, como no nazismo. Quais seriam, afinal, as diferenças entre os totalitarismos e o neoliberalismo? Muitos trabalhos já têm enveredado por essa questão e nenhum deles parece encontrar mais diferenças que semelhanças.
 

Antes mesmo do Big Bang?

A banalização do mal passa por várias fases intermediárias, cada uma das quais depende de uma construção humana. Não se trata, porém, de uma lógica incoercível escrita sobre as nebulosas antes mesmo do possível Big Bang ou que tenha passado pela mente de um grande Criador no momento, ou antes do momento do Gênesis, trata-se de um processo bem humano e, como tal, implica em responsabilidades.

Como um processo e, principalmente como um processo humano, ele pode ser interrompido, controlado, contrabalançado ou dominado por decisões humanas que, evidentemente, também implicariam responsabilidades. 

Talvez nosso poder de controle sobre o processo possa ser aumentado pelo conhecimento de seu funcionamento, talvez por isso esteja escrevendo esse artigo. Na impossibilidade de contribuir imediatamente para a ação, podemos ao menos recorrer à compreensão. 
 

Futurologia política

Existem analistas econômicos e sociais, muitos deles “futurólogos” que arriscam números sobre a tolerância social à injustiça. Em 1980, antes da “crise do emprego”, analistas franceses previam que não se poderia ter mais de 4% de desempregados na população ativa sem que surgisse uma grande crise política. Hoje a França tem mais de 13% de desempregados e é capaz de tolerar muito mais. Não necessariamente os futurólogos estavam errados. Provavelmente a sociedade francesa de 1980 não poderia tolerar 4% de desempregados, mas se contarmos o fator educacional efetuado pela mídia neoliberal podemos compreender até que ponto a banalização do desemprego, vendido televisivamente, midiaticamente, como “fato do destino inexorável”, cria essa mesma resignação, essa permissividade. Afinal, não podemos crer que o crescimento do desemprego, por si só, venha a criar essa inesperada tolerância social.
 

ONG´s e Estados paralelos

Toda a sociedade mudou qualitativamente nesse intervalo de tempo e, se escrevo sobre dados franceses é porque tenho dados franceses sobre um fenômeno que pode ser percebido claramente como mundial. Vemos nesse processo, aqui no Brasil, a evolução das reações sociais ao sofrimento, à adversidade e à injustiça. Evolução que se caracteriza pela atenuação das reações de indignação, de cólera e de mobilização coletiva para a ação em prol da solidariedade e da justiça. Um processo que vem se agravando com a criação de ONG´s que irresponsavelmente se vendem como estados paralelos dentro do Estado que, mui habilmente, se aproveita dessas oportunidades para furtar-se às obrigações legítimas e legais para com a população e a coisa pública. 

Desenvolve-se, nesse vácuo, reações de reserva, hesitação e perplexidade, inclusive de indiferença, bem como de tolerância coletiva à inação e de resignação à injustiça e ao sofrimento alheio. Segundo a interpretação mais corrente, essa insólita passividade coletiva estaria ligada à uma crônica falta de perspectivas (econômica, social e política) alternativas
 

O Hommo ociosus

Muito mais do que na crença numa utopia, numa terra, num Estado ou num não-Estado prometidos, por mais estruturadas que essas alternativas possam parecer, creio que a cólera contra o sofrimento e a injustiça considerados intoleráveis são o melhor combustível a qualquer mobilização. Em outras palavras a ação coletiva tende a se caracterizar muito mais por uma reação do que por uma ação. Mais reação contra o intolerável que ação voltada primariamente para a felicidade.

Com relação mesmo à tão criticada falta de alternativa ideológica, creio que até mesmo ela seja secundária em relação à falta de mobilização coletiva contra a adversidade e a injustiça infligidas a outrem.
 

Mais falta de combustível que de destino...

Não devemos tentar explicar pela falta de utopia social alternativa a imobilidade e a indiferença social para com a crueldade e a injustiça social. O problema, mais grave porque mais radical, mais enraizado e por isso mesmo mais tendente à inércia e à imobilidade, passa a ser o desenvolvimento da tolerância à injustiça. A falta de reações coletivas de mobilização possibilita o aumento progressivo do desemprego e dos seus estragos psicológicos e sociais, fomentados pelo aparato “mideológico” neoliberal.
 

Filosofias empresariais

Os últimos vinte anos se caracterizaram, no universo do trabalho, por novos métodos de gestão e de direção de empresas, que vêm se traduzindo no questionamento avassaladoramente progressivo do direito do trabalho (ou dos direitos do trabalhador) e das conquistas sociais. São métodos que reúnem as crescentes demissões às também crescentes brutalidades nas relações trabalhistas, mascaradas num pacote florescente com belas palavras como “livre negociação” entre patrões e empregados, sem a mediação de sindicatos, por exemplo.
 

A denúncia como morfina

Decerto muita brutalidade é denunciada. Temos aí o Ministério Público, os Tribunais de Contas, de pequenas causas, etc. Mas mesmo aí as questões se complexificam a níveis colossais, principalmente em se tratando do neoliberalismo videotizado brasileiro, pois aqui, com o sistema Globo e suas operações “abafa” as denúncias permanecem absolutamente sem conseqüência política, já que não geram uma mobilização política concomitante. Parece que estamos sendo educados a deixar, por exemplo, que as organizações Globo dêem aulas de teatro a seus âncoras para que pareçam extremamente preocupados com a injustiça social e com ela franzam suas pintadas, cortadas e penteadas sobrancelhas para depois rirem-se a valer do gol do time que tenha jogado no fim de semana ou da piadinha inócua do Jabor.

A denúncia, na maneira como é efetuada no Brasil, parece perfeitamente compatível com uma crescente tolerância à injustiça. Existem ainda questões que serão melhor abordadas no artigo próximo: devemos ver nessa questão acima a fragilidade dos discursos de denúncia no plano político ou o indício cruel de uma duplicidade que, por trás da denúncia esconde uma tolerância crescente? Funcionará a denúncia de uma maneira inusitada e, ao invés de catalisar a ação política ela sirva para familiarizar a sociedade civil com a adversidade, para domesticar as reações de indignação e favorecer a resignação, constituindo uma preparação sócio-psicológica para a adversidade e a injustiça crescentes?
 

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O Bem, o Mal e o Neoliberal2a parte
A tendência da defesa contínua, como a defesa necessária dentro de um ambiente de trabalho, é a de se cristalizar, gerando a banalização da injustiça, da humilhação, da violência cotidianas. Caso contrário os trabalhadores enlouqueceriam diante das pressões criadas pelo sistema neoliberal de organização, ou de desorganização premeditada e lucrativa, do trabalho.


Nem Eros nem Thanatos, trabalho.

Em sua última teoria das pulsões Freud designa Eros como a totalidade das pulsões de vida em oposição a Thanatos, as pulsões de morte. Superficialmente comentando, esses impulsos delimitariam as razões por trás das ações humanas. E é desses impulsos ou desse impulso único, situado no limbo entre o sofrimento e o prazer, que leva o homem a executar trabalho, que esta segunda e modesta parte do artigo intitulado “O Bem, o Mal e o Neoliberal” trata.

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“Quando se pede a Deus o sofrimento, tem-se sempre a certeza de ser bem atendido”Leon Bloy


Como primeiro plano deveríamos definir o que entendemos por sofrimento. Para além do sofrimento dicionarizado, do “padecimento, infortúnio, desdita, desgraça, flagelo, infelicidade”. Mencionamos anteriormente as relações entre sofrimento e emprego, referindo-nos ao sofrimento dos que não estão inseridos no mercado de trabalho. Cumpre mencionarmos as relações entre o sofrimento e o trabalho, ao sofrimento dos que estão inseridos nesse universo do labor. Afinal, sabemos que não é a entrada no cada dia mais seleto grupo dos empregados que vai garantir a satisfação de todas as nossas necessidades como cidadãos e seres humanos. A transformação da injustiça social numa banalidade reside sobre um processo de reforço recíproco de uma parte pela outra, da fuga do sofrimento – pulsão de vida ou “rejeição” da pulsão de morte – que repousa em uma condição, para a entrada no sofrimento que repousa na outra.

O sofrimento como expiação, como remissão dos “pecados” contra os “deuses” não é nenhuma originalidade católica que Nietzsche criticaria como a religião do “gado humano”, mas a tradição católica de uso da resignação e da resiliência – qualidades importantes do espírito humano – para a manutenção de poder pura e estritamente temporal ajuda muito na condição da formação da indiferença aviltante e vergonhosa da sociedade brasileira. Resistir, arriscar ser humano e não tornar-se indiferente, opaco, oco, servil, é ser chamado de fundamentalista irracional, é ser demonizado pela religião neoliberal midiotizada do bispo Bush e dos Papas Cheney e demais magnatas do petróleo.

Trabalho telecinético

A impressão veiculada pela mídia da conseqüência da mecanização do trabalho ainda reescreve o discurso do meio do século XIX, onde se acreditava que o sofrimento no trabalho fosse completamente eliminado pela mecanização e robotização, que de alguma maneira tão tecnológica que nos soa quase mágica, se teriam abolido as obrigações mecânicas, as tarefas de manutenção e a relação direta com a matéria. Sobrariam nossos cada vez mais inutilizáveis “tempos livres” para consumirmos, sendo essa a soberana vocação do hommo neoliberalis.

Turismo no inferno

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“O inferno deve ser algo assim como a América Latina, mas a sério”Sofocleto, Sinlogismos
Lembra-se, o leitor, das imagens de uma reportagem de televisão ou retém ainda a lembrança de uma visita guiada a uma fábrica de aspecto asseado, totalmente clean? Infelizmente tudo isso não passa de clichê, o que as empresas mostram são suas fachadas e vitrines, previamente decoradas e oferecidas de bom grado aos olhares de curiosos ou visitantes. O que se efetua aí é a velhíssima piada do turista no inferno: visitar é ótimo, quero ver é morar lá. 

Por trás da vitrine televisionada há o sofrimento, bem real, dos que trabalham. Dos que pretensamente nem sequer existem, da legião fantasma que assume as tarefas comprovadamente arriscadas à saúde sem qualquer sombra de direito trabalhista. Para que o texto não fique tão abstrato seguem exemplos bem físicos de onde se pode encontrar tais quadros: firmas de serviços de manutenção nuclear, firmas de limpeza (seja em indústrias ou escritórios, hospitais, trens, aviões etc.), montadoras de automóveis, matadouros industriais, empresas avícolas etc. Depois os âncoras dos telejornais quase que apocalípticos e místicos nos vêm com as “inexplicáveis” “gripe do frango”, “febre aftosa” e outras “maravilhas” (do controle populacional neomaltusiano e neoliberal) geradas por animais encaixotados do nascer ao morrer, sem nunca terem visto a luz do sol, alimentados com ração transgênica, tomando vacinas e vitaminas sintéticas goela abaixo para conseguirem (sobre)viver até o abate. Mas isso é fichinha perto das radiações ionizantes, vírus, fungos, amianto, dos que se submetem a horários alternados, a lista é quase interminável. Tais malefícios são relativamente recentes e vêm se agravando e multiplicando na lógica do todo poderoso capital.

Psicossomático ou psicoporrada?

Ali, atrás das vitrines fabris televisionadas, há o sofrimento dos que temem não satisfazer, não estar à altura das imposições da organização do trabalho: horário, ritmo, formação, informação, aprendizagem, nível de instrução, diploma, plano de carreira, experiência, rapidez de aquisição de conhecimentos teóricos e práticos, adaptação à ideologia, “cultura” ou “família” da empresa, exigências, fricotes e frescuras do mercado, relação com os clientes, particulares, público etc.

O papel(-)higiênico da imprensa.

Há mais de três décadas os jornalistas midiotizados deixaram de fazer sondagens sociais ou reportagens no mundo do trabalho comum para se dedicarem a “matérias” sobre as luzes das vitrines do progresso. Pouco ou nenhum interesse pelo sofrimento que deseja cada vez mais ver como “o outro”, o “corpo estranho”. Somente o martírio das vítimas da violência e das atrocidades bélicas, à distância, como a situação da Palestina, a neurose cobiçosa e avarenta da Casa Branca por petróleo a qualquer custo no Irã, no Iraque, na Venezuela onde quer que haja uma gota preta e seborrenta de ouro negro, se oferece à curiosidade dos nossos “telespectadores”. O sofrimento próximo é banalizado e substituído pelo sofrimento teleguiado (ou vídeoguiado), projetado em uma sensibilização cinematográfica com as questões palestina, iraquiana. É a mídia amparada nos capitais vultosos e no discurso único do neoliberalismo docilizando a reação do público (porque é muito difícil encontrar povo, com sentimento de nação e de pertencimento, com ethos, hoje em dia).

Do mundo do trabalho real, cotidiano, não banal, mas banalizado, não se ouvem senão ecos amortecidos na imprensa e no espaço público, ecos amortecidos por sindicatos completamente entregues aos interesses dos grandes capitais, o que nos leva a crer que as parcas notícias que surgem sobre escravidão, sub-empregos e violências no trabalho não passam de excepcionalidades, não tendo significado nenhum no que concerne à situação geral do mundo do trabalho hoje em dia. Chega a ser imoral a indignação afetada dos “âncoras” dos telejornais com essas matérias e a forma como eles repentinamente se riem do resultado de um campeonato de futebol recente.

O fantasma da incompetência.

O que é o “real” do trabalho? Calma, não vamos oferecer pílulas azuis ou vermelhas. A definição de “real” no estudo do trabalho está mais avançado que o mero conceito da resistência ao conhecimento. Percebe-se o “real” do trabalho muito mais como a defasagem irredutível entre a organização prescrita do trabalho e a organização real do trabalho. Explico.

Quaisquer que sejam as qualidades da organização do trabalho é impossível, no cotidiano, cumprir os objetivos da tarefa respeitando ponto-a-ponto as prescrições, as instruções e o procedimento. Basicamente veremos que, dentro da lógica neoliberal de trabalho, é mais rentável termos um manual de instruções de setecentas páginas explicando como bater um martelo sobre uma parede e colocar um prego do que executar a ação em si. Caso caiamos na tentação de agir “segundo as regras”, nos veremos na conhecida situação de “operação padrão”, também conhecida como “operação tartaruga”. É de se crer que muitas desses modus operandis das empresas tenham sido criados com o único propósito de humilhar e desencorajar funcionários que, ignorando essas culturas da incompetência empresarial ou laborial, conseguem realizar seus trabalhos com eficácia e zelo mas, por não seguirem o “padrão” da empresa na execução de suas tarefas (até porque ele é criado para ser impossível de ser executado), não conseguem um aumento ou benefício quando o requisitam.

Trabalhe mal, trabalhe muito mal

Até mesmo quando o trabalhador sabe o que deve fazer e não parece, a princípio, nada impossível, como o caso anterior, ele muitas vezes não consegue fazê-lo graças às pressões sociais do trabalho. Colegas criam obstáculos, o ambiente social é péssimo, cada qual trabalha por si, todos sonegam informações, isso sem citar o caso específico (e muito comum no Brasil) de uma funcionária ser humilhada diariamente com “cantadas”, “gracejos” e outras pérolas da sociedade machista e porco-chauvinista brasileira. Nas tarefas ditas de execução abundam esse tipo de contradições que impedem o trabalhador (e a trabalhadora) de realizar corretamente o seu trabalho.

Muitas mudanças estruturais e o processo de “enxugamento” (tratado no artigo anterior) dos quadros deixam todos tão sobrecarregados de trabalho pelo acúmulo de funções (que não inclui o acúmulo de salários, pelo contrário) que eles simplesmente “ignoram” parte do trabalho a ser realizado. É claro que, para o fantasioso sistema neoliberal de trabalho, não há qualquer chance de se admitir tal situação oficialmente e então o trabalhador mais antigo se recusa, por exemplo, a implementar a investigação proposta pelo novo colega sobre a incompetência generalizada e regulamentada que encontrou no seu novo local de trabalho, porque a investigação seria difícil e demandaria muito tempo (e trabalho).

Carne (e neurônios) tratada como massa

Não estou anulando totalmente o discurso de satanização que o neoliberalismo costuma fazer sobre as empresas e os serviços públicos. Obviamente há os funcionários indolentes e os desonestos (no âmbito público como no privado também), mas, em sua maioria, os que trabalham se esforçam por fazer o melhor, pondo nisso muita energia, paixão e investimento pessoal. É justo que essa contribuição seja reconhecida. Quando ela não é, quando passa despercebida em meio à indiferença geral ou é negada pelos outros, isso acarreta um sofrimento que é muito perigoso para a saúde mental.

O reconhecimento não é uma reivindicação secundária dos que trabalham ou uma expectativa pueril ou egocêntrica. Muito pelo contrário, mostra-se decisivo na dinâmica da mobilização subjetiva da inteligência e da personalidade no trabalho. Cortando em miúdos: obviamente quem é reconhecido trabalha melhor e o inverso também se aplica.

É necessário que haja reciprocidade nas relações do trabalho – assim como seria desejável em todas as demais. Reciprocidade é uma condição de troca em interação social, sem a qual as pessoas tendem a perder o interesse e se retrair, acumulando diversas questões, sentimentos, dúvidas, inquietações que assumirão o grau de psicopatologias crônicas.

O trabalho na (de)formação do ego

Inversamente, quando a qualidade do meu trabalho é reconhecida, também meus esforços, minhas angústias, minhas dúvidas, minhas decepções, meus desânimos adquirem sentido. Todo aquele sofrimento, portanto, não teria sido em vão, teria feito de mim um sujeito diferente daquele que eu era antes de ser reconhecido.

O trabalho se inscreve então na dinâmica de realização do ego (como dito no artigo anterior). A identidade constitui a armadura da saúde mental. Dizem os psicólogos: “não há crise psicopatológica que não esteja centrada numa crise de identidade”. Aí coloca-se a dramaticidade da questão do trabalho e do sofrimento no trabalho. Não podendo gozar os benefícios do reconhecimento de seu trabalho, nem alcançar assim o sentido de sua relação para com o mesmo, o sujeito se vê reconduzido ao seu sofrimento e somente a ele. Diante da pressão midiática para a aquisição de novos e já obsoletos produtos, diante da constante exigência familiar ou do seu círculo social, o sujeito reconhece-se como o retrato do sofrimento numa sala de espelhos.

Defesa, cristalização... banalização ou quebra

Se o sofrimento não se faz acompanhar de descompensação psicopatológica (ruptura do equilíbrio psíquico que se manifesta pela eclosão de uma doença mental), é porque contra ele o sujeito emprega defesas que lhe permitem controlá-lo. À par dos mecanismos de defesa classicamente descritos pela psicanálise ou pela psicologia analítica, existem defesas construídas e empregadas pelos trabalhadores coletivamente, sociologicamente. 

A grande questão se insere quando, do resultado de pesquisas acerca das doenças mentais do trabalho, sobra a inequívoca e inquietante noção de que, em sua maioria, os trabalhadores permanecem dentro de um espectro de ações, comportamentos e reações psíquicas que poderiam ser considerados “normais”. Dessa maneira a própria noção de “normalidade” passa a ser enigmática. 

A tendência da defesa contínua, como a defesa necessária dentro de um ambiente de trabalho, é a de se cristalizar, gerando a banalização da injustiça, da humilhação, da violência cotidianas. Caso contrário os trabalhadores enlouqueceriam diante das pressões criadas pelo sistema neoliberal de organização, ou de desorganização premeditada e lucrativa, do trabalho.

Perfeitamente nOrMaL

A normalidade é interpretada como o resultado de uma composição - quase como um mosaico psíquico de partes psicológicas, religiosas, culturais, familiares e educacionais completamente desconexas e intrincadas – entre o sofrimento e a luta (individual e coletiva) contra o sofrimento no trabalho. A normalidade não implica a ausência de sofrimento, a tentativa de ignorar o sofrimento ou viver sem ele introjeta um niilismo de uma vacuidade tão grande que tende a levar ao suicídio. 

O que se pode propor é uma “normalidade sofrente”, sendo o estado de “normalidade” não o efeito passivo de um condicionamento social, de algum conformismo ou de uma normalidade pejorativa e desprezível, obtida pela interiorização da dominação social, mas o resultado da árdua contenda cotidiana contra a desestruturação psíquica provocada pelas pressões do trabalho.

Banalização? Do quê mesmo?

Essas estratégias de defesa social contra o inaceitável, o inescrupuloso, vergonhoso e doente da injustiça social tendem a tornar aceitável porque comum, o inaceitável, o vergonhoso e o revoltante. Assim essas estratégias de defesa, interessadas na manutenção do ego, estruturam a indiferença social. Funcionam como uma armadilha que insensibiliza contra aquilo que faz sofrer, permitem, muitas vezes, puxar para dentro do campo sempre e sempre alargado do “tolerável” o sofrimento ético, e não mais apenas o psíquico, entendendo-se por tal não o sofrimento que resulta de um mal padecido pelo sujeito, e sim o que ele pode experimentar ao cometer, por causa de seu trabalho ou dentro do ambiente de trabalho, atos que condena moralmente.

Questões para o futuro...

Teria o sofrimento no trabalho e a conseqüente luta contra esse mesmo sofrimento alguma influência sobre as posturas morais particulares e sobre as condutas coletivas no campo político? Estaríamos diante da construção, orquestrada pela sinfonia da filarmônica neoliberal e o seu pensamento único, do “público” perfeito, do público expectador, passivo, massificado, imbecilizado, indiferente, inconsciente, lesivo a si mesmo, em uma palavra: vazio?
 
 


Notas:

(1) Christophe Dejours. Psiquiatra, psicanalista, professor do Conservatório Nacional de Artes e Ofícios, e diretor do Laboratório de Psicologia do Trabalho da França.

(2) Essa disciplina – inicialmente denominada psicopatologia do trabalho – tem por objetivo o estudo clínico e teórico da patologia mental decorrente do trabalho. Fundada ao final da Segunda Guerra por um grupo de médicos-pesquisadores liderados por L. Lê Guillant, ela ganhou, há uns 15 anos um novo impulso que a levou recentemente a adotar a denominação de “análise psicodinâmica das situações de trabalho”, ou simplesmente “psicodinâmica do trabalho”. Nessa evolução da disciplina, a questão do sofrimento passou a ocupar uma posição central. Otrabalho tem efeitos poderosos sobre o sofrimento psíquico. Ou bem contribui para agravá-lo, levando progressivamente o indivíduo à loucura, ou bem contribui para transformá-lo, ou mesmo subvertê-lo em prazer a tal ponto que, em certas situações, o indivíduo que trabalha preserva melhor a sua saúde do que aquele que não trabalha. Por que o trabalho ora é patogênico, ora é estruturante? O resultado jamais é dado de antemão. Depende de uma dinâmica complexa cujas principais etapas são identificadas e analisadas pela psicodinâmica do trabalho.


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Crises ou Processo?
Novembro de 2004

Por Renato KressRenato César da Costa Kress está desempregado. É brasileiro, poeta, escritor e nasceu no Rio de Janeiro no ano 82. Concluiu seus estudos secundários no Colégio Cruzeiro - Deutsche Schule. Lançou em 2000, aos 18 anos, o livro Consciência, sobre impactos do neoliberalismo nos países de terceiro mundo, livro este que começara a escrever dois anos antes. É co-fundador e co-editor da revista eletrônica www.consciencia.net, e membro do I-Latina.org (www.i-latina.org). Atualmente cursa a faculdade de Ciências Sociais na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Contato por e-mail, clique aqui. Para outros textos do autor, clique aqui.


Artigo finalizado pelo autor em 26/1/2006, publicado em 10/2/2006 e atualizado em 14/3/2006 na Revista Consciência.Net.


(*) O título deste artigo é uma referência ao filme “O Bom, o Mau e o Feio”, dirigido pelo italiano Sérgio Leone.

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O título deste artigo é uma referência ao filme “O Bom, o Mau e o Feio”, dirigido pelo italiano Sérgio Leone.

Imagem: Roberto Font Ruiz, aqui.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Controle Social
Controle social é um conceito que se refere às maneiras como os pensamentos, sentimentos, aparência e comportamento de pessoas são regulados nos sistemas sociais. Até certo ponto o controle é exercido através de várias formas de coerção, variando da capacidade de um pai de restringir fisicamente um filho à autoridade do sistema de justiça criminal de condenar à prisão indivíduos julgados culpados de crimes.

A coerção, porém, é em geral ineficaz como meio único de controle social. Muito mais importante é o processo de socialização, mediante o qual pessoas vêm a se identificar com o sistema social e seus valores e normas e, dessa maneira, adquirem interesse na manutenção dos mesmos, bem como o senso de pertencer ao sistema.

O medo do ridículo ou de exclusão, por exemplo, constitui um induzimento poderoso para conformar-se, como também o risco de passar por vergonha. É também importante o induzimento de culpa, conseguido através da internalização de padrões morais durante a socialização. Indispensável mencionar que a televisão socializa.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Vergonha e Culpa
Tanto vergonha quanto culpa são mecanismos de controle social, mas operam de acordo com princípios diferentes. Vergonha é castigo imposto de fora – por exemplo, quando membros de um grupo ou comunidade ridicularizam, repreendem ou exilam publicamente alguém por má conduta.

Este tipo de castigo deve ser estendido a parentes do transgressor, o que os leva a sentir forte interesse a controlar o comportamento de membros da família. Em contraste a culpa é principalmente um processo psicológico interno.

Quando internalizamos padrões e valores sociais como parte do processo de ser socializado, podemos também desenvolver a capacidade de nos punir por nossas ofensas, sentindo-nos mal a respeito de nós mesmos e, de outras maneiras, fazendo com que sintamos graus variáveis de sofrimento.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Psicossomática
['psyche' = mente, alma; 'soma' = corpo], ciência das doenças do ponto de vista da psicologia médica, que atribui aos processos psíquicos importância decisiva na origem das doenças.