Nós, os marcianos
Gustavo Barreto, 27 de janeiro, 2004

Marte é o planeta do Sistema Solar que mais se assemelha ao nosso planeta. Com um diâmetro de 6.794 km, é duas vezes menor que a Terra. Está a 228 milhões de quilômetros de distância do Sol, em comparação com os 149,6 milhões de quilômetros da Terra, e descreve uma órbita completa em torno do Sol em 688 dias.

A Terra é o planeta do Sistema Solar que menos se assemelha ao nosso planeta. No momento, somos 6 bilhões de habitantes. 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E outros 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. No total, os miseráveis de nosso planeta — ou 66% por cento de todos os seres humanos vivos neste momento — gastam apenas US$ 7 bilhões por dia.

A renda média de um habitante da Europa é de US$ 25 mil dólares por ano, enquanto que na Etiópia — que, assim como a França, está a 149,6 milhões de quilômetros de distância do Sol — não chega a US$ 100. Na verdade, o país africano possui uma dívida externa de US$ 10,35 bilhões — ou seja, cada etíope já nasce devendo US$ 174 aos credores privados. Em termos reais, os marcianos que vivem na Etiópia e possuem apenas US$ 2 por dia estão, de fato, com um saldo devedor de US$ 172.

No começo deste ano, o presidente norte-americano George W. Bush pedirá uma ampliação de US$ 1 bilhão no orçamento da Nasa, ao longo de cinco anos. No ano fiscal de 2004, a Nasa consumiu US$ 15,5 bilhões em investimentos para, entre outras coisas, procurar seres e água em outro planeta.

Em 1998, a Etiópia — que se mantém firme e forte a 149,6 milhões de quilômetros de distância do Sol — recebeu em 1998 US$ 648 milhões de ajuda no combate à miséria (ONU, PNUD, 2000). Ou cerca de cem mil vezes menos que o orçamento da NASA, que foi de US$ 15,5 bilhões. É claro que para Sean O’Keefe, administrador da estatal norte-americana, não é bem assim: “Estamos gastando menos de 1% do orçamento federal em ciência e tecnologia para as metas de exploração da Nasa, e isso não mudará”. [Agência AP, 14.01.2004]

Os 2 bilhões de habitantes do planeta Terra não conseguem entender muito bem quais são as prioridades dos 4 bilhões de habitantes do planeta Terra que vivem com US$ 2 ou menos por dia. Nós, os marcianos, estamos um pouco inquietos com a situação.

Apesar de o ano marciano ser praticamente duas vezes maior do que um ano terrestre, o dia é quase idêntico ao nosso: 24 horas e 37 minutos. A inclinação de Marte no plano da órbita também é muito parecida (24 graus em vez dos 23,26 da Terra).

Já para os marcianos, o dia é um pouco diferente: para sobreviver no mercado sem possuir qualificação técnica, precisam vender sua força de trabalho para os 2 bilhões de habitantes do planeta Terra. Além de precisarem se inclinar muito mais às reivindicações dos terráqueos, o dia parece durar uma semana.

Há 4,5 bilhões de anos, em uma época em que os primeiros organismos vivos começavam a aparecer na Terra, Marte pode ter sido um planeta com clima agradável e abundante em água em estado líquido, segundo indícios que permitem pensar em possíveis rios ou lagos, atualmente secos.

Por motivo desconhecido, o clima de Marte começou a mudar, a atmosfera enrareceu, uma parte da água se evaporou e o resto congelou, principalmente no subsolo. Será o prelúdio?
 

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Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net)



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