O Rio tem a polícia que merece
Marcos Sá Corrêa, NoMínimo
Novembro, 2003

Ao procurar os serviços da polícia civil no Rio de Janeiro, é bom lembrar que terá 94,2% de chances lidar com funcionário público que espera levar tiro no trabalho e 58,4% de encontrar um profissional que não tira férias “há três anos ou mais”. É provável que ele esteja “nervoso, tenso ou agitado”, porque isso acontece com 48,2% da categoria. Talvez esteja preocupado com o excesso de peso, como 43,5% de quem trabalha nas delegacias. Ganhar de 1000 a 1500 reais por mês, que é a faixa onde ficam 57,5% dos salários e gratificações.

É gente com problemas de visão (51,9%), dores no pescoço, nas costas ou na coluna (41,5%), dores de cabeça freqüentes (23,9%) e hipertensão arterial (15,7%). Tem entre 36 e 45 anos (52,2%). E curso superior completo (53,2%). Dorme mal (37,4%), é incapaz de desempenhar um papel útil na vida (33,3%) e sente-se triste ultimamente (31,5%). Talvez, como diz um deles, porque “que ninguém vai à delegacia pra dizer que ama o vizinho, que está tudo em paz. Todo mundo vai lá para reclamar, reclamar”. Além disso, 96,9% acham a população não dá valor ao que eles fazem. Mas, se pudessem começar de novo, escolheriam a mesma carreira “com melhores condições” (45%).

Esses dados e muitos outros – ou seja, tudo o que você sempre quis saber sobre a polícia, mas tinha medo de perguntar ao delegado – estão no livro “Missão Investigar”, uma pesquisa sobre as condições de trabalho, de saúde e a qualidade de vida da polícia civil do Rio de Janeiro. Feita por doze pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, coordenados por Maria Cecília de Souza Minayo e Edinilsa Ramos de Sousa, ela fez o que raramente se faz com os policiais: interrogou-os.

Foram quase 1500 entrevistas, inspiradas numa pesquisa americana que condecorou os policiais uma propensão acima da média a desenvolver tumores malignos, cirroses e problemas cardíacos, sem falar na tendência da classe ao suicídio. Entrar nesse mundo não foi fácil. “A equipe de campo teve que exercitar extrema paciência e mostrar perseverança para conseguir as informações”, diz o capítulo sobre a metodologia. E explica as dificuldades num parágrafo que, sozinho, já é uma avaliação do ambiente nas repartições policiais:

“Ouviu desabafos e xingamentos, foi obrigada a voltar dezenas de vezes às unidades para buscar questionários que não eram entregues, localizar o policial que nunca se encontrava na unidade, esperar o dia inteiro na delegacia pelo funcionário que havia prometido estar ali e não comparecia, escutar perguntas maliciosas como, por exemplo, sobre quanto as jovens do grupo estavam ganhando para fazer esta pesquisa e por que não se engajavam em atividades mais lucrativas”.

Nem por isso o livro desanca os entrevistados. “Temos que ressaltar nossa avaliação positiva dos policiais civis”, escreve Maria Cecília Minayo, uma das organizadoras. “Apesar de todas as dificuldades”, segundo ela, eles apresentam uma clara e inconfundível adesão à missão que a sociedade lhes confiou. Há tabelas em que os índices de satisfação beiram o inverossímil. Quase 63% dos funcionários de delegacias consideram seu ambiente de trabalho “calmo e agradável”, 78,1% dizem que ali “as pessoas se relacionam bem umas com as outras” e 79,4% acreditam que “podem contar com o apoio dos colegas”.

Para Minayo, pela “dedicação incondicional ao trabalho” o policial até “ultrapassa os horários prescritos, invade o âmbito da vida privada e prejudica sua saúde”. A maioria faz cursos e treinamento nos horários de folga, “às próprias custas”. Mas ele não deixa de ser o “ponto nevrálgico” da segurança pública. Está debaixo de “elevadíssimos níveis de sofrimento mental, estresse e várias formas de compensação prejudiciais à sua saúde”. Trabalha com a metade do efetivo recomendável. E ganha mal. Ou seja, não funciona.
 

Marcos Sá Corrêa é colunista do NoMínimo [[email protected]]


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