Rosinha não é Garotinho
Marcos Sá Corrêa, 17 de agosto, 2003

A dupla Garotinho anda estranha. De onde a governadora tirou a emenda constitucional, que corta R$ 400 milhões por ano do Fundo Estadual de Conservação Ambiental? Isso cheira mal. Parece malversação de sinceridade. Desde quando o estado do Rio de Janeiro, sob a administração Garotinho, teve conservação ambiental?

O estilo do casal nessas coisas não é dizer, mas ir fazendo. Ou não fazendo, que dá mais ou menos no mesmo. O Globo, em ótima reportagem provocada pela votação da proposta na Assembléia Legislativa, mostrou que até agora ela só usou 0,01% do fundo que quer enxugar. Gastou R$ 56 mil reais e uns quebrados para acertar uma dívida com a Light.

E ninguém tinha notado. Para quê cuidar dessas bobagens, se o estado não tem esse tipo de problema, exceto num lugarzinho ou outro, como o Vale do Paraíba, que neste momento está carbonizado por incêndios nos pastos desertificados, ou na baía de Guanabara, que em dez anos de investimentos em despoluição conseguiu ficar mais suja do que era.

A baía que se dane. Já engoliu US$ 698,8 milhões do programa de limpeza, enquanto as favelas cresciam à sua volta. Com elas, as dez toneladas de lixo e as 340 de esgoto in natura que vazam todo dia para suas águas. Só o aterro de Gramacho, obra do estado que destila o lixo e forma de chorume, derrama na Guanabara pela foz do rio Sarapuí 800 mil litros diários de ácido tóxico.

A governadora deve achar que a baía é imunda porque merece. “Eu olho o meio ambiente como um todo”, ela respondeu, quando os jornais começaram a lhe perguntar sobre o tal abatimento. A seu ver, “não importa de onde os recursos venham”, mas onde eles vão parar. Por exemplo, os que forem destinados ao Programa de Despoluição da Baía de Guanabara para Rosinha Garotinho terão que vir “de fora, dos bancos”.

Como é bom ter políticos espertos para lidar com banqueiros internacionais. Fiquem eles avisados de que a partir de agora os US$ 220,1 milhões que faltam ao programa são 100% de sua conta. Isso depois de terem afundado no lodo da Guanabara durante mais de uma década a parte mais pesada do financiamento, enquanto os governos do Rio de Janeiro, um atrás do outro, faziam corpo mole com a parcela dos cofres estaduais. Como a governadora não quer nem saber de onde os dólares vêm, certamente eles não virão dos US$ 80 milhões que o estado deve à baía. Isso é dinheiro que vem de dentro. E ela disse só está disposta a usar o que vem de fora.

Tomara que essa negociação seja fácil como mudar a constituição numa Assembléia menos legislativa do que obediente. Só não dá para entender por que, numa operação quem tem tudo mostrar ao capital financeiro quem manda neste país, desperdiçar tanta franqueza. Com o programa, pronto ou não, terminará em julho de 2004 depois de três prorrogações, não seria melhor aplicar o golpe em silêncio? Alertados, os gringos talvez queiram dar uma de malandro para cima de nós.

Mas é assim, jogando sinceridade fora, que a governadora está marcando seu estilo pessoal de governo. Ela é bem mais do que outro Garotinho do palácio Guanabara. E um Garotinho que diz o que pensa. E isso ninguém esperava que ela conseguisse. Afinal, exerce um mandato que não é seu, mas do marido. Pelo menos foi com essa explicação curiosa que o Tribunal Superior Eleitoral registrou sua candidatura, transferindo-lhe liberalmente o direito à reeleição que era exclusivo do atual secretário de Segurança. Como cônjuge, ela estava expressamente proibida de concorrer pela Constituição. Como clone, podia.

No governo, com rápida e ousada mudança de guarda-chuva, ela provou que, de vários ângulos, tem luz própria. A governadora Rosinha Garotinho cuida da alma na igreja evangélica, mas veste o corpo como se o pastor fosse cego. Entregou o pior abacaxi de sua administração, que é a segurança pública, ao que tem de mais precioso na vida, que é seu antecessor. E agora está inovando no meio ambiente. Só ela teria a coragem de tomar abertamente R$ 400 milhões da natureza. Em seu lugar o marido estaria pensando em quantos piscinões dá para fazer com uma dinheirama dessas.


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