Analfabetismo ético
Cristovam Buarque

Quando prometeu avançar 50 anos em cinco, transformando em meia década um país agrícola em industrial, o presidente Juscelino Kubitschek foi apoiado e elogiado. Não se perguntou de onde vinham os recursos. E conseguiu. Hoje, quando se propõe abolir o analfabetismo em quatro anos, muitos se apressam em dizer que é uma meta ambiciosa e impossível. Em 1955, para a elite brasileira, o objetivo da industrialização era importante, já o objetivo da alfabetização, 50 anos depois, ainda não é visto com a importância que deveria.

Se fosse, a crítica era com o prazo de quatro anos, no lugar de dois ou um ano, como conseguiu o regime cubano em 1961.

De acordo com dados do IBGE, que leva em consideração crianças acima de 10 anos, jovens e adultos, há mais de 17 milhões de analfabetos no Brasil. Mas há mais de 100 milhões que sabem ler, 2,4 milhões de professores no ensino básico, mais de 3 milhões de estudantes universitários e 2,4 milhões de professores na graduação. Precisa-se apenas de 65 mil professores, ao longo de quatro anos, para ensinar a todos os analfabetos em cursos médios de quatro meses. Tem 1,2 milhão de salas de aulas e precisa apenas 65 mil.

O custo total de um programa de alfabetização, incluindo o pagamento aos alfabetizados, com uma bolsa alfa, e aos professores, com um salário alfa; contando com todo material e apoio necessários, sem contar com apoios voluntários, seria, no máximo, da ordem de R$ 1,5 bilhão por ano, apenas 0,1% da renda nacional, 0,3% da receita do setor público. Ou seja, bastaria usar R$ 1,00 para cada R$ 10 mil da renda nacional para, em quatro anos, abolir o analfabetismo de adultos no Brasil.

E ainda tem gente que considera isso uma meta ambiciosa para o País. O maior problema para abolir o analfabetismo literário dos pobres brasileiros está no analfabetismo ético dos formadores de opinião brasileiros. Se fôssemos alfabetizados eticamente, a imprensa diria que a meta de abolir o analfabetismo deveria ser ainda mais apertada no tempo e cobrar, do novo governo, especialmente do ministro da Educação, a demora no início do programa. Diria que 13 mil estão deixando de ser alfabetizados por dia, enquanto o programa não começa.

Do ponto de vista técnico, a meta de abolir o analfabetismo de adultos em quatro anos é muito ambiciosa para um ministério e para um governo, mas para termos ambições modestas, não precisaríamos ter feito a revolução de eleger um metalúrgico presidente.

O Brasil tem os recursos e o governo tem vontade. O risco real de não conseguir realizar a meta está na falta de competência para enfrentar o analfabetismo ético da elite e, em conseqüência, não conseguir mobilizar os recursos humanos e financeiros necessários. Nesse caso, porém, é preciso dizer que ele não conseguiu, e não construiu a base de desculpas de que ele errou em sua ambição. A ambição é grande tecnicamente, mas pequena eticamente. Os desafios são pequenos tecnicamente e imensos eticamente.

Esta é a maior das mudanças que o atual governo tem adiante: vencer o analfabetismo ético das elites; que se alegram e comemoram metas que lhes interessam, mas qualificam como ambiciosas as metas sociais a que o governo se propõe.

A meta é possível. Se não conseguirmos, vamos reconhecer que fracassamos na mobilização dos recursos nacionais, não que erramos nos cálculos.

Cristovam Buarque (PT) é ministro da Educação, senador pelo Distrito Federal e professor da UnB (Universidade de Brasília). 16 junho 2003


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