22 maio 2003
A avaliação da avaliação
Cristovam Buarque

A gente só não avalia aquilo que despreza. O que não amamos é avaliado com rigor e rancor; o que amamos é avaliado com rigor e carinho, mas é avaliado também.

Um dos avanços no ensino superior brasileiro, nos últimos anos, foi a aceitação de uma cultura da avaliação. E não deve ser suspensa.

Deve continuar ainda com mais rigor que é preciso ampliá-la, avaliar também o desempenho dos ministros e de todo o pessoal envolvido na atividade universitária. Ainda mais, é preciso tanto rigor com a avaliação, que temos de avaliar, constantemente, a própria avaliação, seus métodos e seus indicadores. E não ficar passivamente olhando os resultados. Deve fazer parte da avaliação sua análise e suas conseqüências em políticas que se proponham a corrigir o que está errado. Um relatório de avaliação está incompleto se ele não vem acompanhado de propostas. A avaliação é um meio, não o propósito.

Esta é a diferença entre prova e avaliação. A primeira mede apenas o que resultou de ações no passado; a segunda serve de base para mudanças no futuro.

A idéia e a prática da avaliação universitária são antigas. O importante papel do ex-ministro Paulo Renato foi empenhar-se e conseguir ampliá-la a todo o País, criando a cultura da avaliação. Outro mérito seu foi avaliar as avaliações anteriores e modificá-las. Em 1986, o então reitor da niversidade de Brasília criou um órgão de avaliação e implementou um sistema de avaliação que tinha o propósito radical de fazer “auditoria acadêmica”, como foi dito na época “se a universidade faz auditoria financeira, ainda mais importante é fazer sua auditoria acadêmica”. Mas aquele sistema era insuficiente, porque não usava critérios usados pelo atual Exame Nacional de Cursos, o Provão, para medir o aprendizado dos alunos. O ministro Paulo Renato tem o mérito de ter incorporado a avaliação dos alunos como parte do processo de avaliação das universidades.

Da mesma forma, é preciso levar adiante o que já foi feito, sem o conservadorismo de achar que a avaliação é perfeita. Toda avaliação é imperfeita e incompleta e deve ser avaliada, modificada e ampliada. Ninguém defende seriamente a avaliação das universidades se não defender a constante avaliação dos métodos de avaliação. Ou se critica as mudanças antes de conhecê-las. É a falta de avaliação que cria as ortodoxias que amarram o pensamento e destrói a criatividade. Por isso os ortodoxos têm pavor à avaliação. O medo de avaliar a avaliação, a ortodoxia em métodos antigos de avaliação, é uma forma também de aprisionar o pensamento, frear a criatividade, impedir o surgimento do novo.

A universidade morre sem avaliação, mas apenas adia sua morte se não avaliar a avaliação. A universidade de hoje está dividida entre os que têm o pavor às avaliações e aqueles que têm pavor à avaliação da avaliação. Ambos são ortodoxos inimigos do avanço do conhecimento e da construção de uma nova universidade, dinâmica, eficiente, criativa e comprometida. Vanguardista na criação do pensamento no mundo global e vanguardista na construção de uma realidade brasileira e mundial sem exclusão social.

O atual Ministério da Educação vai manter a cultura da avaliação tão radicalmente, que vai avaliar tudo, inclusive o ministro e também os métodos de avaliação.

E vai avaliar sem parar a atual avaliação. O Provão de 2003 já está em andamento e não será interrompido. Serão acrescentadas novas questões, novos aspectos e sobretudo ele será divulgado contendo políticas alternativas para corrigir as falhas que ele mostrar no sistema do ensino superior brasileiro. Vai incorporar mudanças para melhor, mais rigor e mais amplitude, se houver tempo.

Com todo seu mérito, o Provão é insuficiente: mede apenas o aprendizado do aluno em sua área específica do conhecimento, não considera outros aspectos fundamentais do processo universitário, não avalia as administrações das universidades, nem o papel dos governos através do Ministério da Educação e outros órgãos. Uma avaliação completa tem que considerar a universidade como um processo que vai muito além do aprendizado de cada aluno na sala de aula, tem que levar em conta o desempenho de cada um dos atores da universidade. E tem que servir de base para ações posteriores de cada um deles.
 


Cristovam Buarque (PT-DF) é ministro da Educação, senador e professor da UnB.

Opinião | Educação | Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.