“Não devemos pedir desculpas pelas nossas reivindicações”

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Ele virou um fenômeno da internet com seus tuitaços. Na última semana, o candidato à presidência Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) esteve no campus da Praia Vermelha da UFRJ, no Rio, para debate com estudantes. Recebido no Instituto de Economia com longas palmas, o candidato, sempre de bom humor, afirmou que o Brasil vive hoje um momento de “barbárie” e respondeu perguntas dos alunos sobre seu programa de governo. Para uma das professoras da escola de Economia, “fazia muito tempo que o Teatro de Arena não ficava cheio de gente jovem querendo discutir política”.

Plínio, o governo Lula tem hoje uma aprovação de 80% da população. No entanto, sua campanha faz sérias críticas sobre como o país vem sendo conduzido. Como você explica o desempenho do presidente nas pesquisas de opinião?

Aparentemente está tudo bem, mas existe um subterrâneo de problemas, de barbárie e de miséria. A sociedade está anestesiada e aceita melhorias que, na verdade, não mudam sua condição. O que o governo faz é dar bolsa família e crédito fácil para as pessoas. Ele diz, e elas acreditam, que o povo está entrando na classe média, mas é mentira. Na verdade, estão se endividando.

Um dos pontos mais marcantes da sua campanha é a reforma agrária, uma luta antiga de muitos movimentos sociais. Como você vê a questão das desapropriações?

Olha, quem tem 500 alqueires de terra já tem muito dinheiro, não precisa de mais. Nós não devemos pedir desculpas pelas nossas reivindicações. Temos que fazer uma reforma agrária radical com a limitação da propriedade rural a um tamanho máximo de mil hectares [equivalente a mais de 1 212 campos do Maracanã], produtiv

o ou não produtivo. E é até melhor começar pelos produtivos porque aí já pode colocar o pessoal para trabalhar e produzir. O José Bonifácio, na época da independência, já dizia: “tem que libertar os escravos e dar terra para eles”.

Além da reforma agrária, o seu programa de governo prevê uma série de mudanças radicais na conformação política, econômica e social do Brasil. É possível garantir uma estabilidade do país?

Olha, vai ter problema demais. Haverá um processo de tensão social e, se o povo não for às ruas, o governo cai. Quem acompanhou o caso Allende sabe [Salvador Allende, presidente chileno de esquerda que sofreu golpe militar em 1973]. A direita vai fazer represália. É um governo que não temos nem certeza de que vai chegar ao fim, mas que vai marcar a história.

No que diz respeito à mídia, o Brasil tem hoje onze famílias que controlam mais de 80% dos meios de comunicação e do fluxo de informações no país, o que é um grande problema para a democracia. Como resolver a questão?

É preciso criar um conselho nacional de comunicação que seja pluripartidário e que tenha participação da sociedade civil. Controlar a mídia não é fazer censura, censura é o que existe hoje, com esse monopólio. As novelas, por exemplo, são uma grande forma de fixação dos papéis sociais. Por que o mordomo tem que ser sempre negro?

Plínio (ao centro): em primeiro lugar, reforma agrária radical

Plínio (ao centro): em primeiro lugar, reforma agrária radical

Atualmente, uma grande luta dos centros acadêmicos e dos estudantes é a universalização do ensino público universitário no país. O governo federal diz estar avançando na questão e uma de suas principais bandeiras é o Prouni. Qual a sua opinião sobre a atuação do governo Lula na ampliação da educação?

Na época da indústria mecânica, mal era necessário ser alfabetizado, o que importava era o trabalho braçal. Hoje em dia vivemos em uma época em que o que vale como capital é o conhecimento. O Banco Mundial desenvolveu um projeto de estímulo à universalização do ensino universitário nos grandes países em desenvolvimento, como Brasil, África do Sul, China e Índia. Isso não é segredo, está escrito. A ideia, no entanto, é ampliar o ensino superior nesses países mas baixando o nível. Assim, daqui a alguns anos, teremos a formação de projetos internacionais com técnicos brasileiros, sulafricanos e indianos mas chefiados pelos intelectuais formados pelas universidades européias. O Prouni é um programa excelente e vamos ampliá-lo. Mas, se é para aumentar as vagas, que seja nas universidades públicas. Precisamos acabar com essa indústria de diplomas e com a privatização disfarçada do ensino. Dinheiro público é para escola pública.

E as escolas privadas?

As escolas privadas, de nível básico ou superior, poderão sim ser financiadas pelo governo desde que não discriminem o ingresso de nenhum aluno, não obriguem o ensino religioso e desde que os professores sejam da rede pública.

A candidata do PV à presidência, Marina Silva, é constantemente alvo de críticas suas, principalmente quando ela fala em “igualdade de oportunidades”. Qual é o problema com o discurso da verde?

A Marina erra ao falar em igualdade de oportunidades porque isso não existe no capitalismo. O capitalismo prevê desigualdade. Quem não for a favor de abrir mão do telefoninho [celular] de última geração, não pode votar no PSOL.

Você, pessoalmente, é cristão e contra o aborto, mas a sua candidatura pelo PSOL defende sua legalização. Por que?

São Tomás de Aquino, por exemplo, não acreditava que a concepção da vida já se desse no momento em que ocorre a fecundação, para ele ainda não existia vida humana nesse momento. A proibição do aborto é uma decisão hierárquica da Igreja. Eu sou contra, mas de forma pessoal. Aceito essa decisão hierárquica. Mas, como homem público, sou a favor. Até porque, na verdade, hoje o aborto só é proibido às mulheres pobres, os hospitais privados fazem. O aborto precisa ser legalizado como um direito das mulheres. Só será necessário fazer uma avaliação para ver se a moça não está sendo induzida e se ela tem noção do que está fazendo.

Assim como fez com o candidato Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), a Revista Consciência.Net reserva espaço para os oito demais presidenciáveis, caso haja interesse por parte das respectivas coordenações das campanhas.

(fotos: Erick Dau)

Pelo menos ele fala da barbárie atual, como a violação da ética, das tradições, da violência que nos assola a todos e da mídia manipulada e manipuladora também.

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